Monthly Archives: October 2009

Falta

Continua em grafite cinzento, sozinho, no canto direito de uma página, a questão com aquele nome.
Antes, antes da interrupção que agora mais do que nunca me parece definitiva, e mesmo depois, quanto mais negativas e desvios mais vontade me vinha, enchi algumas poucas páginas com a parca idéia imaginária que eu tinha de um você.
Um você meu e consequentemente mais bonito ao qual, sem motivo algum, sem lhe adivinhar nenhum pensamento, apenas me alegrando com a presença básica e não chamativa – e me alegrando como há muito não acontecia – eu construi sua beleza minha.
Do nome às mãos e os anéis. Dos cabelos às roupas e o cheiro. O menos que se tranformava todo em mais, mais, MAIS.
Agora é menos. Agora é falta de palavras, ditas e escritas. Falta de assunto, falta de tato, falta de coragem.
Falta de vontade? Não. Ainda não.

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Cartas

Enquanto falta a paciência para colocar em ordem as páginas e os links e disciplina para colocar em palavra corrida a espiral de pensamentos, cartas, ou trecho vai no Briefroman


Incessantemente

Corro mais do que nunca o risco de me tornar monossilábica por falta de expressão em meu assunto mais urgente. O silêncio só incomoda quando há coisa demais que não é dita e naquele tempo-espaço fundidos, onde cada tiquetaquear do relógio é a confirmação em voz alta de uma batida do coração que se encontra alerta, em espera. O medo absolutamente paralizante de quem não sabe seu espaço ou a mediçao de seu tamanho na vida alheia, só sabe de seu desejo através da perda do que nunca fora seu, de fato. Confesso que naqueles dias de pronome pessoal reto do plural (primeira pessoa), nunca pensei no mais a frente. Os hojes me bastavam todos porque pela primeira vez na vida, eu pisava com os dois pés no presente. Não fazia planos, não pensaa à frente. Devia uma atenção total ao que vivia. Não tentei embutir em mim impressões de misticismo para uma idolatria.Eu só queria ser eu. Idiota, boba, brincalhona, risonha, feliz. Como algum dia, muito lá atrás eu costumava ser. Tentava passar da limpeza das máscaras pruma genuidade. E onde foi que se perdeu? O que foi que eu fiz de errado é o martelar mais constante, desde então.


Queimadura

O maior perigo dela não são os sentimentos cada vez que transbordantes que ela suscita em mim. A cada não que não é dito mais extremamente implicito na incapacidade dela de encostar seus olhos em mim, na rigidez do corpo que pode estar a meu lado mas permanece indiferente enquanto eu, ali, tremo. O perigo dela é que ela me emudece.

Ela destitui não só o sentido de abrir a minha boca e formar sons algo coerentes que pelo menos tentem expressar uma parcela da torrente mas torna a cada dia mais inútil a minha eloquencia por escrito quando se trata dela, da gente, de nós.

Em minha vida, ela segue como o silêncio de minhas incertezas e a descrença no que vivemos. No que vivi.  A cada dia, me convenço mais de que o que vivi fui eu sozinha e que, poucas vezes, eu senti. Esperei. Ela saiu quase como que queimada. Entretanto, ainda que tão rápido, aquele pequeno peso sobre mim, faz falta, já.

Faz falta, em mim, já.


Limpeza

Numa conversa que não me incluia, um dos interlocutores falava à sua ouvinte que o próximo passo para a sua maturidade, baseada no recente mergulho dela pela cultura e filosofias orientais seria se livrar do lixo em sua vida. Aplicar, não só em seu corpo e mente os princípios do equilíbrio mas também ao seu lar, o lugar que a guardava mais do que qualquer outro. Seria essencial para este crescimento que ela mantivesse o lugar que a cerca livre do supérfluo.

Longe de qualquer tipo de estabilidade, não pude deixar de pensar na quantidade de inutilidade (aos olhos dos outros) que acumulara durante os anos. São pastas e mais pastas e caixas e mais caixas de cartas recebidas, escritas, cartões, cartas de amor que nunca sentiram o vento exterior sobre seus envelopes, recortes, revistas velhas, pesquisas inúteis de coisas que me interessavam há muito tempo e as quais larguei com a mesma imprevisibilidade que havia me interessado.

Durante muito tempo, pensei que fazia questão de manter tantas coisas numa tentativa de reconstrução do meu passado da maneira mais fiel que conseguiria, junto com meus retratos e diários, constituiria a História de Mayra Lopes Tavares do Couto segundo Mayra Lopes Tavares do Couto. Montava sem me dar conta, uma linha do tempo ilustrada, inclusive com papéis de chocolate e mechas de cabelo.

Hoje em dia, sei que não é todo o passado, não é tudo o que vivemos que deve constituir o meu passado.  Sei que quem deve resolver o que vale a pena guardar e por quanto tempo sou eu e que este passado deve, periodicamente, passar por uma revisão afim de checar sua real relevância. O que ontem tinha uma importância vital, hoje pode me provocar bocejos e não fazer mais sentido. Como exercício, o mais importante o que tenho a fazer é tentar identificar o que tem uma relevância que dificilmente se apagará com os anos. Montar um filtro que seja capaz de me dizer por que eu escolhi guardar determinada memória, através da diferença, da contraposição desta com outras e não mais da sua semelhança.

É claro que pode parecer que, quando eu me desfaço de alguma coisa, posso estar querendo negar uma determinada situação mas o que quero realmente é abrir espaço. Certas pessoas e momentos se esgotaram em minha vida de todas as maneiras. Pode ser que eu conserve uma ou outra coisa, mais o grosso, eu resolvo agora por deixar de lado. Não é uma negação, é simplesmente a afirmação de que, dali tudo seria infértil, não há mais trilhos. Passou.

O passar dá o alívio de poder deixar o passado no passado e tem como meta a cura de algumas feridas. A mera visão de certos objetos, me exaspera como se fora uma exigência, uma reivindicação de lembrança eterna, de aprisionamento em um passado que não se fez presente e que, portanto, não poderá constituir futuro algum.

Enquanto o presente e o futuro se apresentam como possibilidades, ainda que abstratas e virtuais puramente imaginárias, eu as conservo como diamantes. Elas não saem da minha vista por um momento.  Assim que este passado se apresenta como uma não – possibilidade, perde o sentido a sua conservação. O seu valor não é inteiramente destituído mas perde-se muito em relevância. Os atos começam a parecer desesperados diante da impossibilidade daquela situação, ou relação.

Neste sentido, a retomada do diário tem um papel vital. Não contendo (como quase nunca conteve) nenhuma pretensão literária, o desfiladeiro do que me passou diante da minha própria letra, assume mais o caráter de uma tentativa de conhecimento não só de mim mesma como das demais pessoas, das minhas relações interiores e exteriores e do mundo de maneira geral e menos do que uma mera descrição dos acontecimentos “mais importantes” ou de um desabafo adolescente.

O fascínio que qualquer diário exerce sobre as pessoas que podem estar nele é compreensível, entretanto, por mais que se diga que, aquilo é privado, que não se pode prestar a leitura justamente pelas pessoas mencionadas, a curiosidade só aumenta. Um diário não é nunca senão a descoberta do outro em si e nisto, o outro – real é não só mero coadjuvante como muitas vezes, um acessório para um pensamento. Um diário, é sempre a produção mais egoísta e genuína do ser humano, onde o outro é coisificado e quase nunca chega a fim mas se apresenta como meio.

Antes da limpeza efetiva, a primeira concretizada é a limpeza do diário e dos seus diversos personagens para que a narrativa se torne mais estrutura e portanto, mais compreensível para o seu leitor primordial (seu próprio autor).

* Foto: meu diário


New storie

” Nossos medos de desagradar uma à outra, de nos desapontarmos mutuamente eram os mesmos. Ela fora ao café à noite como se drogada, cheia de pensamentos sobre mim.

(…)

A intensidade está arrasando com nós duas. Ela está feliz por partir. É menos fraca do que eu. Quer realmente escapar daquilo que está lhe dando vida. Não gosta de meu poder, enquanto eu me alegro em me entregar a ela.

(…)

– Afinal de contas, se existe uma explicação do mistério é esta: o amor entre duas mulheres é um refúgio e uma fuga para a harmonia. No amor entre homem e mulher existe resistência e conflito. Duas mulheres não se julgam, não se violentam, nem encontram algo para ridicularizar. Elas se entregam ao sentimento, à compreensão mútua, ao romantismo. Tal amor é a morte, admito.”

NIN, Anaïs. Henry & June, diários não expurgados de Anaïs Nin. L&PM Pocket. Porto Alegre. 2008.


Supressão

Não procurava nada de bom proveniente daquilo, nenhuma recompensa a não ser um efêmero momento no qual se daria (ela esperava) a supressão de seus sentidos, breves instantes de inconsciência não mais atingidos de maneira induzida (alcool ou drogas). Naquele enlace improvável desejava, antes de tudo chegar a um estágio onde seus sentidos param de funcionar temporariamente, adormecidos, desejava uma numbness que a impedisse de se mostrar mais do que apática em relação às coisas e problemas que a rodeavam.

Não aconteceu. O máximo que chegara fora a uma suspensão das regras de etiqueta provenientes da vontade que se instalou diante de si ao enxergar uns olhos castanhos um pouco mais a frente aos quais encarava com determinação com o seu já costumeiro espreitamento felino naqueles redondos olhos cor de madeira fina. Era um homem que, de longe lhe parecia muito atraente reunindo em si, além de suas preferências físicas mais normais, como cor da pele, olhos e cabelo, altura e peso, ainda trazia no modo de se vestir, intensidade de expressão, rabiscos vários ao longo do corpo e resquícios do mesmo masoquismo de ter objetos de estranhos lhe perfurando o corpo. Bem de longe, lembrava-lhe aquela promessa que lhe veio em janeiro em forma de homem perfeito, bonito, articulado e bom de cama com o qual saíra em uma noite de janeiro.

Após intermináveis minutos que bem lhe pareciam serem horas (e poderiam mesmo ter sido), chamou-lhe a atenção convidando-lhe à mesa para beberem juntos. Não podia. Era difícil explicar de longe (assim como de perto, utilizando palavras) que não podia. Capacidade mental limitada.Ou havia uma má vontade de entender que as coisas não se inscrevem sempre no âmbito do aqui e agora, certos desejos não podem ser satisfeitos à sua plena vontade e se ela com sua então pouca idade já sabia disso muito bem porque ele não saberia então, em seus mais de trinta anos como fazia questão de frisar? Sem o menor tato ou educação ele parecia ser reduzido a um estágio pré humano onde as razões do corpo são impossíveis de controlar, os desejos precisam ser satisfeitos, a vontade de levar aquela pequena menina para a sua cama se colocando acima dos protocolos.

 O olhar de reprovação aparecera logo nas feições dela, ao que ele, cego a qualquer coisa vinda de fora, ainda que fosse dela, ignorou. Teve de afastar-se, no entanto procurando uma maneira de dizer que seria sua, em algum outro momento. É claro que o sua, neste caso só passava de força de expressão. Só quem detém a si mesmo é capaz de dar-se para alguém. Ela corria a campos soltos independente de sua racionalidade para onde bem quisesse. No momento, tirando aquele ímpeto sexual que tomara conta dela, ela encontrava-se bem longe dali, numa casa na qual nunca havia ido, com a pessoa na qual, há dias não parava de pensar, tomando conta, rindo, colocando a mão naqueles cabelos dos quais tanto gostava.

Emprestaria-se a ele, no máximo. Em um pequeno encontro não planejado, ele a puxara e dera um beijo – a emoção de algo escondido e voltando para o que estava fazendo, para a monotonia de uma conversa de duas pessoas que não tem o que dizerem umas às outras mas a qual ela sentia, solene, que devia um mínimo de respeito. Discretamente, durante o beijo, com uma ação que lhe era pouco usual, conseguira prometer um “após”. Ainda que a impaciência dele borbulhasse, ela continuaria dando as cartas e ditando o tom. Tinha de primeiro desvencilhar-se daquela incômoda prisão, situação na qual não tinha nada a fazer.

Algumas conexões se dão livres e expontâneas, outras seguem um mero protocolo de acontecerem por falta de alternativa. Falta paixão e veleidade. Falta o ímpeto animalesco do “tem que ser, precisa ser”, dos clamores internos. Acontece por acontecer e tudo é frouxo e despretencioso ao máximo.

Não sabendo mais o que fazer para adiar a recorrente vontade de ir, simplesmente deixou as convenções de lado e fora. Fora sem saber para onde andava e exatamente por que, como criança que diverte-se com uma travessura e o sorriso a lhe trespassar os lábios é o de quem esconde ouro. Outra vez um puxão e um beijo. Depois de alguns beijos – menos, a proposta a qual aceitou rapidamente como quem diz “mas era isso mesmo. Demorou tanto por quê?”. Não conseguia mais encará-lo do mesmo jeito de antes, de mulher caçadora havia passado novamente a ser uma menininha que deixava-se levar sem saber para onde. Assustada e decidida. Olhava pela janela do veículo a mudança das cores celestiais enquanto ele já estava completamente pronto e não resistia à tantação de apertar-lhe. Era como se ela mesma fosse uma espécie de salvação para outros. Raramente o olhava mas quando o fazia era fundo e para dentro, apelando para o seu interior, como quem pergunta “o que você quer?” Mas ele não conseguia e nem saberia responder. Já havia parado de pensar ao primeiro levantar de olhos da menininha. O sangue todo de seu corpo concentrado em um único orgão. Ela sentira. Era então palpável.

O desejo era tanto que não houve perda de tempo mas a surpresa que ela teve não estava em seus planos. Há tempos não tinha que se preocupar com estes “detalhes” e agora era obrigada a pensar se aguentaria. Não atingiu o estágio pelo qual cravava desde o início. As dores que sentiam eram fortes demais. Vinha-lhe somente um desconforto físico daquele que é maior. Ela não conseguia abrigar. Ele, em sua cegueira, indiferente à dor a qual submetia a mulher, exigia um deleite que lhe parecia impossível tão acostumada que ela já estava à delicadeza (mesmo aquela que trazia em si um excesso de violência intrínseca) e à proporções bem mais modestas. Fingiu. A única animação viera por conta do que ouvia, provando mais uma vez que mesmo quando não se esforçava, mesmo quando ela não se divertia tanto, o seu corpo sozinho, conseguia levar outrem a um passeio deveras divertido e prazeiroso.

 Ouvia e sentia esta confirmação. As únicas horas em que de fato chegara perto de onde pretendia foram as que lhe remeteram à sua preferência que ele tentava sufocar. Perguntava incessantemente o que mais lhe apetecia e se alguma mulher era capaz de fazer aquilo por ela. Eram capazes de muito mais. Entretanto, há muito havia acostumado-se a concordar, ceder e dizer o que de si era esperado. Após o banho não planejado, sentia que não aguentaria mais dividir a si mesma e um só pensamento a assolava: ir embora, desmaiar em sua cama, semi vestida, suspender suas sensações agora de outra maneira:por meio do sono. Apressara-se em tentativas frustradas e então decidiu que não era hora para tato e delicadezas. Levantou-se e se vestira, anunciando sua partida. Um excesso desnecessário de sensibilidade fingida lhe chegara vagamente aos ouvidos mas determinava-se mais a cada instante. Mesmo quando juntos, frases em negativa haviam dado o tom: Não. Eu não quero. Eu não gosto. Fora sem nem pensar na hora no que havia deixado para trás.Uma peça de roupa era bem menos importante do que alguns momentos de paz.

Fora, tendo o cuidado de, enquanto seus passos a levavam de volta, reprimir qualquer pensamento que pudesse vir a ter. Contentava-se com uma constatação de um poder que sabia muito bem carregar e fazer uso.Bastava, por hora.


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