Supressão

Não procurava nada de bom proveniente daquilo, nenhuma recompensa a não ser um efêmero momento no qual se daria (ela esperava) a supressão de seus sentidos, breves instantes de inconsciência não mais atingidos de maneira induzida (alcool ou drogas). Naquele enlace improvável desejava, antes de tudo chegar a um estágio onde seus sentidos param de funcionar temporariamente, adormecidos, desejava uma numbness que a impedisse de se mostrar mais do que apática em relação às coisas e problemas que a rodeavam.

Não aconteceu. O máximo que chegara fora a uma suspensão das regras de etiqueta provenientes da vontade que se instalou diante de si ao enxergar uns olhos castanhos um pouco mais a frente aos quais encarava com determinação com o seu já costumeiro espreitamento felino naqueles redondos olhos cor de madeira fina. Era um homem que, de longe lhe parecia muito atraente reunindo em si, além de suas preferências físicas mais normais, como cor da pele, olhos e cabelo, altura e peso, ainda trazia no modo de se vestir, intensidade de expressão, rabiscos vários ao longo do corpo e resquícios do mesmo masoquismo de ter objetos de estranhos lhe perfurando o corpo. Bem de longe, lembrava-lhe aquela promessa que lhe veio em janeiro em forma de homem perfeito, bonito, articulado e bom de cama com o qual saíra em uma noite de janeiro.

Após intermináveis minutos que bem lhe pareciam serem horas (e poderiam mesmo ter sido), chamou-lhe a atenção convidando-lhe à mesa para beberem juntos. Não podia. Era difícil explicar de longe (assim como de perto, utilizando palavras) que não podia. Capacidade mental limitada.Ou havia uma má vontade de entender que as coisas não se inscrevem sempre no âmbito do aqui e agora, certos desejos não podem ser satisfeitos à sua plena vontade e se ela com sua então pouca idade já sabia disso muito bem porque ele não saberia então, em seus mais de trinta anos como fazia questão de frisar? Sem o menor tato ou educação ele parecia ser reduzido a um estágio pré humano onde as razões do corpo são impossíveis de controlar, os desejos precisam ser satisfeitos, a vontade de levar aquela pequena menina para a sua cama se colocando acima dos protocolos.

 O olhar de reprovação aparecera logo nas feições dela, ao que ele, cego a qualquer coisa vinda de fora, ainda que fosse dela, ignorou. Teve de afastar-se, no entanto procurando uma maneira de dizer que seria sua, em algum outro momento. É claro que o sua, neste caso só passava de força de expressão. Só quem detém a si mesmo é capaz de dar-se para alguém. Ela corria a campos soltos independente de sua racionalidade para onde bem quisesse. No momento, tirando aquele ímpeto sexual que tomara conta dela, ela encontrava-se bem longe dali, numa casa na qual nunca havia ido, com a pessoa na qual, há dias não parava de pensar, tomando conta, rindo, colocando a mão naqueles cabelos dos quais tanto gostava.

Emprestaria-se a ele, no máximo. Em um pequeno encontro não planejado, ele a puxara e dera um beijo – a emoção de algo escondido e voltando para o que estava fazendo, para a monotonia de uma conversa de duas pessoas que não tem o que dizerem umas às outras mas a qual ela sentia, solene, que devia um mínimo de respeito. Discretamente, durante o beijo, com uma ação que lhe era pouco usual, conseguira prometer um “após”. Ainda que a impaciência dele borbulhasse, ela continuaria dando as cartas e ditando o tom. Tinha de primeiro desvencilhar-se daquela incômoda prisão, situação na qual não tinha nada a fazer.

Algumas conexões se dão livres e expontâneas, outras seguem um mero protocolo de acontecerem por falta de alternativa. Falta paixão e veleidade. Falta o ímpeto animalesco do “tem que ser, precisa ser”, dos clamores internos. Acontece por acontecer e tudo é frouxo e despretencioso ao máximo.

Não sabendo mais o que fazer para adiar a recorrente vontade de ir, simplesmente deixou as convenções de lado e fora. Fora sem saber para onde andava e exatamente por que, como criança que diverte-se com uma travessura e o sorriso a lhe trespassar os lábios é o de quem esconde ouro. Outra vez um puxão e um beijo. Depois de alguns beijos – menos, a proposta a qual aceitou rapidamente como quem diz “mas era isso mesmo. Demorou tanto por quê?”. Não conseguia mais encará-lo do mesmo jeito de antes, de mulher caçadora havia passado novamente a ser uma menininha que deixava-se levar sem saber para onde. Assustada e decidida. Olhava pela janela do veículo a mudança das cores celestiais enquanto ele já estava completamente pronto e não resistia à tantação de apertar-lhe. Era como se ela mesma fosse uma espécie de salvação para outros. Raramente o olhava mas quando o fazia era fundo e para dentro, apelando para o seu interior, como quem pergunta “o que você quer?” Mas ele não conseguia e nem saberia responder. Já havia parado de pensar ao primeiro levantar de olhos da menininha. O sangue todo de seu corpo concentrado em um único orgão. Ela sentira. Era então palpável.

O desejo era tanto que não houve perda de tempo mas a surpresa que ela teve não estava em seus planos. Há tempos não tinha que se preocupar com estes “detalhes” e agora era obrigada a pensar se aguentaria. Não atingiu o estágio pelo qual cravava desde o início. As dores que sentiam eram fortes demais. Vinha-lhe somente um desconforto físico daquele que é maior. Ela não conseguia abrigar. Ele, em sua cegueira, indiferente à dor a qual submetia a mulher, exigia um deleite que lhe parecia impossível tão acostumada que ela já estava à delicadeza (mesmo aquela que trazia em si um excesso de violência intrínseca) e à proporções bem mais modestas. Fingiu. A única animação viera por conta do que ouvia, provando mais uma vez que mesmo quando não se esforçava, mesmo quando ela não se divertia tanto, o seu corpo sozinho, conseguia levar outrem a um passeio deveras divertido e prazeiroso.

 Ouvia e sentia esta confirmação. As únicas horas em que de fato chegara perto de onde pretendia foram as que lhe remeteram à sua preferência que ele tentava sufocar. Perguntava incessantemente o que mais lhe apetecia e se alguma mulher era capaz de fazer aquilo por ela. Eram capazes de muito mais. Entretanto, há muito havia acostumado-se a concordar, ceder e dizer o que de si era esperado. Após o banho não planejado, sentia que não aguentaria mais dividir a si mesma e um só pensamento a assolava: ir embora, desmaiar em sua cama, semi vestida, suspender suas sensações agora de outra maneira:por meio do sono. Apressara-se em tentativas frustradas e então decidiu que não era hora para tato e delicadezas. Levantou-se e se vestira, anunciando sua partida. Um excesso desnecessário de sensibilidade fingida lhe chegara vagamente aos ouvidos mas determinava-se mais a cada instante. Mesmo quando juntos, frases em negativa haviam dado o tom: Não. Eu não quero. Eu não gosto. Fora sem nem pensar na hora no que havia deixado para trás.Uma peça de roupa era bem menos importante do que alguns momentos de paz.

Fora, tendo o cuidado de, enquanto seus passos a levavam de volta, reprimir qualquer pensamento que pudesse vir a ter. Contentava-se com uma constatação de um poder que sabia muito bem carregar e fazer uso.Bastava, por hora.

About M.

Moira A fatalidade cega. Em grego arcaico, a parte ou quinhão. Em Homero, a parte da vida decretada a cada indivíduo. O destino traçado do qual não se pode fugir e a pré – disposição à tragédia como condição inegável do ser humano. Lei suprema da vida cósmica à qual todos, humanos e Deuses estão sujeitos. Mayra Lopes Intimamente ligada a conceitos. Hardly one. Filosofia e literatura, eros e pathos, hybris e moira. Um conglomerado de hormônios e sensações. Acima de tudo, sensações. Dores e ansiedades. Mais uma fragmentação pós – moderna, com uma diferença: procuro saber de mim. Quero que o mundo se exploda. Eu só ligo para mim e para os meus. Para a arte, o pensamento e as sensações.Felicidade como estado efêmero versus desespero. Suicídio versus a vontade da dor de aprender, a procura. Descendente de espanhóis e poloneses, mantengo uma estima profunda por la lengua que me dice y por la guitarra catalán. Costumo falar de Cortázar e de literatura alemã. Tenho Goethe tatuado nas costas, sobre aquele olhar. Qual? O de todos. Devaneio, entre Miller, Pessoa e nuvens. As vezes também em algodão – doce.A minha escrita, chuva oblíqua. Passo as horas, entre PJ Harvey e um quarto cheio de história. Cheio de mim mas tão cheio de outros, que as vezes, não reconheço. Virgínia Woolf sem a escrita, depressiva. Sei quase tudo sobre os dark places e as pílulas, todas, conheço-as quase todas. Nenhuma nunca me trouxe felicidade, só torpor. Brinquei de Susanna Kaysen por três dias, me internei, me dei alta; no meio tempo, me chamaram pra fugir. Gosto de dar flores de presente mas ganhei poucas. As minhas preferidas são margaridas. É, simples assim. Detesto pleasure delayers. Não vejo sentido. Se tiver que ser algo melhor, vai ser, durante dias, meses, anos. Não há necessidade de adiar nada por causa disso. Eu sei o que eu quero, detesto jogo ( mas sei jogar como ninguém). Meus exs/minhas exs não realmente saem da minha vida. Estão todos por aqui, orbitando. Falo da maioria com carinho de como se as coisas estivessem acontecido ontem. Costumo ser amigas deles e delas. Tenho uma tendência a lembrar primordialmente das coisas boas. Na tela, de preferência a Europa e seus idiomas entre os filmes.Os finais da Lola e os meus possíveis finais. Entrei para Letras, achando que letras é alguma coisa da qual se vive, para descobrir que, apesar de uns e outros, eu não vivo, respiro. Aqui, onde a menina cresce e a mulher se esconde. Isto ainda não sou eu. “I open once and you call me Devil`s gateway”. Prazer, M. View all posts by M.

One response to “Supressão

  • Bruna

    Alguém deseja supressão de sentidos e acaba se envolvendo em uma verdadeira ciranda de sentidos e sensações impetuosas e violentas. Como se busca uma coisa pelo seu contrário? Isso acontece na vida mesmo. Parece até que é preciso o baque, o extremo, a dor física pra se tomar fôlego suficiente que leve à paz, seja temnporária ou não, seja fictíca ou não.
    O texto é lindo, gostei muito. 🙂
    O blog tá lindo também!

    Beijos!

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