Limpeza

Numa conversa que não me incluia, um dos interlocutores falava à sua ouvinte que o próximo passo para a sua maturidade, baseada no recente mergulho dela pela cultura e filosofias orientais seria se livrar do lixo em sua vida. Aplicar, não só em seu corpo e mente os princípios do equilíbrio mas também ao seu lar, o lugar que a guardava mais do que qualquer outro. Seria essencial para este crescimento que ela mantivesse o lugar que a cerca livre do supérfluo.

Longe de qualquer tipo de estabilidade, não pude deixar de pensar na quantidade de inutilidade (aos olhos dos outros) que acumulara durante os anos. São pastas e mais pastas e caixas e mais caixas de cartas recebidas, escritas, cartões, cartas de amor que nunca sentiram o vento exterior sobre seus envelopes, recortes, revistas velhas, pesquisas inúteis de coisas que me interessavam há muito tempo e as quais larguei com a mesma imprevisibilidade que havia me interessado.

Durante muito tempo, pensei que fazia questão de manter tantas coisas numa tentativa de reconstrução do meu passado da maneira mais fiel que conseguiria, junto com meus retratos e diários, constituiria a História de Mayra Lopes Tavares do Couto segundo Mayra Lopes Tavares do Couto. Montava sem me dar conta, uma linha do tempo ilustrada, inclusive com papéis de chocolate e mechas de cabelo.

Hoje em dia, sei que não é todo o passado, não é tudo o que vivemos que deve constituir o meu passado.  Sei que quem deve resolver o que vale a pena guardar e por quanto tempo sou eu e que este passado deve, periodicamente, passar por uma revisão afim de checar sua real relevância. O que ontem tinha uma importância vital, hoje pode me provocar bocejos e não fazer mais sentido. Como exercício, o mais importante o que tenho a fazer é tentar identificar o que tem uma relevância que dificilmente se apagará com os anos. Montar um filtro que seja capaz de me dizer por que eu escolhi guardar determinada memória, através da diferença, da contraposição desta com outras e não mais da sua semelhança.

É claro que pode parecer que, quando eu me desfaço de alguma coisa, posso estar querendo negar uma determinada situação mas o que quero realmente é abrir espaço. Certas pessoas e momentos se esgotaram em minha vida de todas as maneiras. Pode ser que eu conserve uma ou outra coisa, mais o grosso, eu resolvo agora por deixar de lado. Não é uma negação, é simplesmente a afirmação de que, dali tudo seria infértil, não há mais trilhos. Passou.

O passar dá o alívio de poder deixar o passado no passado e tem como meta a cura de algumas feridas. A mera visão de certos objetos, me exaspera como se fora uma exigência, uma reivindicação de lembrança eterna, de aprisionamento em um passado que não se fez presente e que, portanto, não poderá constituir futuro algum.

Enquanto o presente e o futuro se apresentam como possibilidades, ainda que abstratas e virtuais puramente imaginárias, eu as conservo como diamantes. Elas não saem da minha vista por um momento.  Assim que este passado se apresenta como uma não – possibilidade, perde o sentido a sua conservação. O seu valor não é inteiramente destituído mas perde-se muito em relevância. Os atos começam a parecer desesperados diante da impossibilidade daquela situação, ou relação.

Neste sentido, a retomada do diário tem um papel vital. Não contendo (como quase nunca conteve) nenhuma pretensão literária, o desfiladeiro do que me passou diante da minha própria letra, assume mais o caráter de uma tentativa de conhecimento não só de mim mesma como das demais pessoas, das minhas relações interiores e exteriores e do mundo de maneira geral e menos do que uma mera descrição dos acontecimentos “mais importantes” ou de um desabafo adolescente.

O fascínio que qualquer diário exerce sobre as pessoas que podem estar nele é compreensível, entretanto, por mais que se diga que, aquilo é privado, que não se pode prestar a leitura justamente pelas pessoas mencionadas, a curiosidade só aumenta. Um diário não é nunca senão a descoberta do outro em si e nisto, o outro – real é não só mero coadjuvante como muitas vezes, um acessório para um pensamento. Um diário, é sempre a produção mais egoísta e genuína do ser humano, onde o outro é coisificado e quase nunca chega a fim mas se apresenta como meio.

Antes da limpeza efetiva, a primeira concretizada é a limpeza do diário e dos seus diversos personagens para que a narrativa se torne mais estrutura e portanto, mais compreensível para o seu leitor primordial (seu próprio autor).

* Foto: meu diário

About M.

Moira A fatalidade cega. Em grego arcaico, a parte ou quinhão. Em Homero, a parte da vida decretada a cada indivíduo. O destino traçado do qual não se pode fugir e a pré – disposição à tragédia como condição inegável do ser humano. Lei suprema da vida cósmica à qual todos, humanos e Deuses estão sujeitos. Mayra Lopes Intimamente ligada a conceitos. Hardly one. Filosofia e literatura, eros e pathos, hybris e moira. Um conglomerado de hormônios e sensações. Acima de tudo, sensações. Dores e ansiedades. Mais uma fragmentação pós – moderna, com uma diferença: procuro saber de mim. Quero que o mundo se exploda. Eu só ligo para mim e para os meus. Para a arte, o pensamento e as sensações.Felicidade como estado efêmero versus desespero. Suicídio versus a vontade da dor de aprender, a procura. Descendente de espanhóis e poloneses, mantengo uma estima profunda por la lengua que me dice y por la guitarra catalán. Costumo falar de Cortázar e de literatura alemã. Tenho Goethe tatuado nas costas, sobre aquele olhar. Qual? O de todos. Devaneio, entre Miller, Pessoa e nuvens. As vezes também em algodão – doce.A minha escrita, chuva oblíqua. Passo as horas, entre PJ Harvey e um quarto cheio de história. Cheio de mim mas tão cheio de outros, que as vezes, não reconheço. Virgínia Woolf sem a escrita, depressiva. Sei quase tudo sobre os dark places e as pílulas, todas, conheço-as quase todas. Nenhuma nunca me trouxe felicidade, só torpor. Brinquei de Susanna Kaysen por três dias, me internei, me dei alta; no meio tempo, me chamaram pra fugir. Gosto de dar flores de presente mas ganhei poucas. As minhas preferidas são margaridas. É, simples assim. Detesto pleasure delayers. Não vejo sentido. Se tiver que ser algo melhor, vai ser, durante dias, meses, anos. Não há necessidade de adiar nada por causa disso. Eu sei o que eu quero, detesto jogo ( mas sei jogar como ninguém). Meus exs/minhas exs não realmente saem da minha vida. Estão todos por aqui, orbitando. Falo da maioria com carinho de como se as coisas estivessem acontecido ontem. Costumo ser amigas deles e delas. Tenho uma tendência a lembrar primordialmente das coisas boas. Na tela, de preferência a Europa e seus idiomas entre os filmes.Os finais da Lola e os meus possíveis finais. Entrei para Letras, achando que letras é alguma coisa da qual se vive, para descobrir que, apesar de uns e outros, eu não vivo, respiro. Aqui, onde a menina cresce e a mulher se esconde. Isto ainda não sou eu. “I open once and you call me Devil`s gateway”. Prazer, M. View all posts by M.

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