Monthly Archives: November 2009

San

Era uma timidez fora do comum, fora de lugar. Achara que seria assim mas não pensava que naquela hora se instalaria uma mudez tão absoluta. Talvez tenha estragado tudo. Afinal, quantas pessoas tem uma segunda chance de estar com alguém que desejam há anos. Qualquer brecha, é preciso se agarrar fortemente e não deixar que nada atrapalhe e, se atrapalhar, achar um jeito de voltar atrás. Depois de um dia inteiro em sofrimento, olhando a tela do telefone de hora em hora, como em hábito mas não esperando ver ali mais nada. Não sabia o que faria ainda naquele dia. Mas, no calor infernal da cidade do Rio de Janeiro numa primavera-verão de uma quentura efervescente, fora tomar um banho e, quando chegou ao quarto, equanto deslizava as mãos empapadas de creme pelo cabelo, entreviu “número privado” no visor. Número privado só podia significar duas pessoas. Três, agora com ele. A primeira pessoa, que seria mais certa, não estava no trabalho aquele dia e, mesmo que estivesse, ela não atenderia mais nenhuma “chamada privada” em horário comercial. Em horário comercial, uma chamada misteriosa só poderia significar: “eu troco os nomes de vocês.” e ela realmente não estava interessada em troca- troca. Já passava da hora das pessoas se conformarem com o que tem (assim como com o que não tem mais).
Timidamente, ligou, deixou um recado pra ver o seu próprio telefone tocar logo em seguida. Depois de algumas breves palavras e a escolha de um filme que ela não realmente queria ver mas era o que importava. As horas restantes, passara-as quicando pela casa numa ansiedade misturada em medo. Controlou-se para não dar todos os ataques de menina que poderia. Com tempo de sobra, se arrumou e rumou para o insuportável shopping de sábado à noite, cheio de casais entediados, crianças chorando e adolescentes histéricos.
Enquanto encaminhava-se para a entrada, viu um homem entrando na tabacaria. Que logo lhe chamou a atenção – branco, alto, cabelo e olhos castanho escuros, camisa marinho. O homem saiu da tabacaria e sorriu para ela. Era ele. Já desde cedo segurava-a pela cintura e dissera o quanto ela estava linda. Poucas palavras foram trocadas durante o percurso. Ele a ajudava com a mão toda vez que subia ou descia uma escada. A trazia com a mão na parte inferior das suas costas. Ele a conduzia.
Ela se deixava conduzir achando que eventualmente chegaria a algum lugar. Quase três horas teriam que ser matadas até o início do filme. O que fazer? Ainda poucas palavras foram trocadas. Mas, muita coisa fora mantida. Tudo continuou quase como estava antes com excessão a um consenso bem brando. Quase nada mas o suficiente. As pessoas ficam muito presas nas suas convenções de certo-errado, moral-amoral em horas dessas. Pensando tudo, fazendo planos para um futuro que é bem provável de não existir. A única coisa errada naquele momento todo, além daquela bagunça enorme e do excesso de luz era seu estado físico impeditivo. Talvez não só. A memória, alguma preocupação.Era daquelas pessoas difíceis de ler. Ultimamente tinha conhecido algumas dessas. A falta de palavras cristalizando-se na insegurança de quem não sabe em absoluto por onde pisa.
Na verdade, não pisa. Seus pés ficaram em suspenso durante todo o tempo.


Need a little time to wake up

Pode-se ver mais do que o necessário, mais até do que seria necessário. As frestas, apesar de pequenas, minúsculas, diriam alguns, nunca impediram uma plena visualização de quem não está mais do lado de dentro. Às vezes, nem mesmo a dona está do lado de dentro. Deixa-se trancar para fora em confusão (não) existencial num eterno jogo de olvidar e relembrar.

Do lado de dentro, sobram aquecimento e sensações.  A ternura, sobretudo. Tranquei o resto, fechei. Não entram mais. Não há mais como fingir interesse ou paciência desde que estes sentimentos não restaram sobre o que passou. Agora, sem o medo da mágoa, exagerava nas palavras e vomitava sem pensar. Nada podia apagar a má impressão que já fora feita. Lera hoje, em um livro, numa carta em um livro, que a dependência não era ruim e que, todas as relações se construiam tendo um depender como base.

Infelizmente, dois nomes foram riscadoss da lista. Não servem para um deitar-se em.


It breaks me

Nunca se sentira tão à vontade como agora, no renegar. Aprendera a dizer não, não só com vontade, como também com força. Não obrigava-se mais a nada. Chegada a época em que realmente tinha mais o que fazer e não poderia adiar o seu progresso pelo que quer que fosse, por quem quer que fosse. Num ponto onde, ela pode permanecer em estática ou andar para frente. Algumas coisas dependem de si outras não. Seja como for, passos para trás não lhe são permitidos. Nada de passado, o que andava trancado, esquecido, soterrado por uma pilha de roupas. De vez em quando ela vislumbra um pedaço de tecido simbólico para logo se esquecer do que foi.

“People are fragile things
you should know by now”*

*Munich – the Editors


A flor


[ LQuand il me prend dans ses bras,
Il me parle tout bas
Je vois la vie en rose,
Il me dit des mots d’amour
Des mots de tous les jours,
Et ça m’fait quelque chose
Il est entré dans mon cœur,
Une part de bonheur
Dont je connais la cause,
C’est lui pour moi,
Moi pour lui dans la vie
Il me l’a dit, l’a juré
Pour la vie
Et dès que je l’aperçois
Alors je sens en moi
Mon cœur qui bat
[L
a vie en rose]

Passando por um canteiro no primeiro quarteirão da Dona Mariana, minha tia reparou, pela primeira vez que ele vivia cheio de pétalas de rosa e disparou:
– Ao invés de baixarem o preço das rosas…
Mas eu, eu acho lindo. Poético.


die Welle

die_welle
É claro que é um tremendo exagero, uma idéia levada às suas últimas consequências crer que aconteceria algo assim em apenas uma semana. Vá lá, uma semana não, mas em duas, três, um mês, é bem possível.
Diante da pergunta do professor Wegner se uma ditadura, uma autocracia seria possível nos dias de hoje (hello, América Latina e Central!!!!) e perante à incredulidade da maior parte de seus alunos adolescentes, ele resolve fazer um experimento para mostrar que, não só é possível como, com a esperança de serem salvos da falta de perspectivas, se agarram, muitas vezes sem refletir à uma idéia dada, de união, com uma ilusão de força que acham que os levará a algum lugar.
O entusiasmo dessa juventude, a “não – geração 00”, termo da moda para designar a geração com falta de ideais, de princípios, a geração mais que perdida, filha do divórcio e de pais que depois de poucos anos de casados resolvem “viver a vida” e deixar que seus filhos experimentem por si mesmo seus limites, se acharem algum, é grande porque, como um dos jovens do filme diz: Este é o nosso Zeitgeist. E qual é o espírito de nossa época? Nenhum. Ou, o espírito do materialismo, consumismo, individualismo, hedonismo exagerados. Em outra citação do filme, o mesmo jovem pergunta à outro:
– Sabe quem é a pessoa mais pesquisada no google?
– Não.
– Paris fucking Hilton.
Mais do que um filme sobre a falta de envolvimento, este fala sobre os perigos da um possível envolvimento exacerbado pela carência.


Proteção

Durmo agora do lado protegido, entre madeiras, com a estante acima da cabeça.Uns centímetros a menos e poderia estar dentro de um caixão, fechado somente na cabeça. Não é à toa que uma certa claustrofobia impere neste quarto. Não, quando vi uma barata, não a comi, nem tonta fiquei depois de tê-la matado. Não houve tempo para alucinações. Eu a vi, de um grito espanei-a com meu livro para não sei onde. Não tinha asas. Em decorrência do vôo não planejado, deve ter chocado-se em alguma superfície. Nunca mais a vi.Guardei-a no fundo de meu inconsciente.


Silentiu

silêncio [Do
lat. silentiu.]

 Substantivo masculino. 1.Estado de quem se cala. 2.Privação de falar. 3.P. ext. Taciturnidade (1). 4.Interrupção de correspondência epistolar: 5.Interrupção de ruído; calada. 6.Sossego, calma, paz: 7.Sigilo, segredo.

 Silenciou. Sua maior angústia era a de não poder chorar. Somente este fato já lhe dava vontade de gritar mas não, gritar também não podia. Dia a dia, o sufoco e a repressão dos seus sentimentos lhe davam uma aparência mais pesada, noites mais mal dormidas, olheiras enormes. Tentava agora controlar as lágrimas até que seus olhos começassem a arder e de madrugada, como seu quarto ficara na outra ala da casa, soluçava alto e jogava-se de encontro à cama. Sempre fora extremamente ligada às letras e nunca dantes perdera a oportunidade de uma conversa animada. Agora, porém, cada dia ficava mais quieta, procurava menos, nem ao mesmo se dava ao trabalho de ouvir. Todos os eus alheios ficariam lhe ecoando na cabeça, girando sem espaço para se instalarem enquanto ela sozinha, tentava pegar o mundo com as mãos, resolver sem ninguém nem mesmo suspeitar tudo o que andava-lhe tirando todas as forças. Calou. Calou o motivo do choro, calava agora frente às perguntas, recusava-se a proclamar um amor não sabendo que ainda que dissesse, ainda que falasse, o falar não serviria. Seria apenas um afago na cabeça do outro que quer se sentir bem pelo que fez de mal. Suas palavras rareavam para si mesma, como tivesse desaprendido. Lia compulsivamente, numa tentativa desesperada de recuperar sua voz. Que fora, que fora, que foi.


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