Monthly Archives: January 2010

Passado recente

Não se pode olhar o céu ainda de dia.

A lua começa cedo, se alargando em curva e crateras. Olho o céu e viro pro lado.

Não tem.

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I’ll burn your heart away

 

Futuro próximo a se pensar. Ainda que não se possa ouvir, palavras tornam-se meios que não utilizamos na plenitude por não precisarmos. Mesmo sem tom de voz, mesmo sem expressões. A comunicação do nada e do isolamento. A comunicação da solidão. Cidade grande e tédio. Futilidade hermética.

Sem nós impossíveis de desatar feitos por nós mesmos. Entre cavernas domiciliares de cidades diferentes, o longe é perto. Estamos, sem estar.

Um risco.


Formspring.you

De um lado, eu.

Do outro, você.

Tá certo isso?


As virgens suicidas

” As Lisbon tornaram o suicídio familiar. Mais tarde, quando outros conhecidos escolheram pôr fim a suas vidas – às vezes até tomando um livro emprestado na véspera -, sempre os olhamos como se tivessem tirado pesadas botas para entrar na extrema e gregária elegância de uma casa no alto de uma duna frente ao mar. Todos eles tinham lido os sinais de sofrimento que a velha Sra Karafilis havia escrito, em grego,nas nuvens. Por diferentes caminhos, com diferentes tons na cor dos olhos ou jeitos de mexer a cabeça , tinham decifrado o segredo da covardia ou da coragem, fosse qual fosse. E as Lisbon estavam sempre lá, antes deles. Eles tinham se matado por nossas florestas devastadas, pelos peixes- bois ceifados pelas hélices quando emergiam para beber nas mangueiras; tinham se matado ante a visão de pilhas de pneus velhos mais altas do que as piramides; tinham se matado pela incapacidade de encontrar aquele mesmo amor que nenhum de nós jamais seria. No final, as torturas que haviam dilacerado as Lisbon apontavam para uma recusa simples e lógica de aceitar o mundo como lhes era oferecido, tão cheio de falhas.

(…)

A essência dos suicídios não consistia em tristeza ou mistério, mas em simples egoísmo. As garotas apossaram-se das decisões que é melhor deixar entregues a Deus. Tornaram-se poderosas demais para viver conosco, preocupadas demais consigo mesmas, visionárias demais, cegas demais. O que arrastavam atrás de si não era vida, que é sempre vencida pela morte natural, mas a mais trivial lista de fatos mundanos: um relógio na parede marcando o seu tique – taque, um quarto em penumbra no fim da tarde, e a afronta de um ser humano pensando apenas em si mesmo. Seu cérebro apagando-se para o resto, mas chamejante em exatos pontos de dor, feridas pessoais, sonhos perdidos. Todas as pessoas amadas retrocedem como se afastadas sobre uma grande superficie de gelo, reduzidas a pontos pretos que agitam os braços e já não se ouvem. E então a corda lançada por cima da viga, os soníferos despejados na palma da mão onde a linha da vida é longa e mentirosa, a janela aberta, o forno ligado, qualquer coisa. Elas nos fizeram participar da sua loucura, porque não podíamos imaginar o vazio de uma criatura que encosta uma navalha nos pulsos e abre as veias, o vazio e a calma. E tivemos que lambuzar nossos focinhos em suas últimas pegadas, marcas de lama no chão, malas chutadas debaixo dos corpos, tivemos que respirar para sempre o ar do quarto em que se mataram.”

EUGENIDES, Jeffrey: As virgens suicidas


Lonely road

Acaba sendo um mistério aquilo que se guarda do outro. Aquilo que se tem internalizado ou o que achavamos que já foi mas não passou. Muita coisa não passou. Muita coisa anda ou fica guardada sem sabermos até que se chegue a hora mais inconveniente para que possam vir à tona. É um borbulhar de confusão, promessas, campos em aberto, não possibilidades e pessoas misturando-se em vidas, em desejos e egoísmos.

No caminho à frente, há colunas com nomes de mulheres. Passado, presente e futuro, todas misturadas em um tempo verbal indeterminado. Eu não sei quem e o você que fará par com eu.

Talvez agora eu esteja menos do que pronta. Ou tenha me acostumado, de alguma maneira a caminhar por mim.


“Uma maneira de cuidar de mim”


Sublime reinventado

sublime

adj. 2 gén.
adj. 2 gén.
1. Muito alto.
2. Perfeitíssimo.
3. Majestoso.
4. Excelso; que fica acima de nós.
5. Poderoso.
6. Grandioso.
7. Esplêndido; encantador.
s. m.
8. O belo; o máximo da perfeição, da beleza (nas obras artísticas); estilo sublime.
Na minha concepção – meio leiga – Pierre et Gilles não poderiam ter escolhido melhor nome para a exposição que se encerrou hoje no Oi Futuro do que ” A apoteose do sublime”. Menos pela estética, se bem que não se pode negar o enorme potencial plástico da dupla tanto nas fotos, pinturas que se destacam em fundos  molduras e montagens de personagens ou, a afirmação destes.
Pode ser que, por culpa das imagens selecionadas para o Rio de Janeiro, eu tenha saído com uma ligeira impressão de que, esse sublime, na verdade, se aplicava muito mais aos (inúmeros) modelos alguns com roupa, outros com pouquíssima ou quase nenhuma. Em suas diversas etnias, esses homens se destacam em telas como a versão pós moderna, em 2D da  escultura de Davi ou uma das muitas já conhecidas esculturas gregas. Tudo perfeito e assimétrico demais. Como se, se fosse possível medir com uma regra, todas as distâncias de seus corpos contivessem exatamente a mesma medida.
Faltaram pessoas mais expressivas, interessantes, como as fotos do Marilyn Manson e Iggy Pop, imagens ainda mais icônicas, ainda mais alegóricas, ainda mais provocadoras.
O ponto alto, fica para o Sâo Sebastião da Guerra, imagem estampada nos outdoors da cidade, paras as imagens dos próprios artistas e para um quadro, de um belo moço loiro, deitado numa caixa de papelão, com pedaços de isopor, na qual havia um adesivo de “fragile”, caminhando pela pele luminosa de um corpo robótico, um inseto.

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