Monthly Archives: February 2010

A glass full of me

”  e eu me queimando disse “puta” que foi uma explosão na boca e na minha mão voando na cara dela, e não era a bofetada generosa parte de um ritual, eu agora combinava intencionalmente a palma coás armas repressivas do seu arsenal (seria sim no esporro e na porrada!), por isso tornei a dizer “puta” e tornei a voar a mão, e vi sua pele cor – de – rosa manchar-se de vermelho, e de repente o rosto todo ser tomado por um formigueiro, seus olhos ficaram molhados, eu fiquei atento, meus olhos em brasa na cara dela, ela sem se mexer amparada pelo carro, eu já recuperado no aço da coluna, ela mantendo com volúpia o recuo lascivo da bofetada, cristalizando com um talento um sistema complexo de gestos, o corpo torcido, a cabeça jogada de lado, os cabelos turbos, transtornados, fruindo, quase até o orgasmo, o drama sensual da própria postura, mas nada disso me surpreendia, afinal, eu a conhecia bem, pouco importava a qualidade da surra, ela nunca tinha o bastante, só o suficiente, estava claro naquele instante que eu tinha o pêndulo e seguro controle do seu movimento, estava claro que eu tinha mudado definitivamente a rotação do tempo, sabendo, como eu sabia, que eu tinha a explorar áreas imensas da dua gula, sabendo, como eu sabia, de que transformações eu era capaz, e foi bem aqui comigo que pensei “peraí que você vai ver só” “peraí que você vai ver ainda” foi o que pensei dando conta de que a merda que me enchia a boca escorria pelos cantos mas eu não perdia nada dessa íntima substância , ia aparando com a língua o que caía antes da hora, sem falar que a fumaceira do momento era extremamente propícia ao ocultismo, não ia desperdiçar aquela chance de me exercitar nas finas artes de feiticeiro, por isso a coisa foi assim, surgiram em combustão, gotas de gordura nos metais das minhas faces, meu rosto começou a transmudar-se, primeiro a casca dos meus olhos, logo depois a massa obcena da boca, nun instante eu era o canalha da cama, eu li na chama dos seus olhos “sim, você é o canalha que eu amo”, e sempre atento aos sinais da tua carne eu passei então a usar a língua, muda e coleante, capaz sozinha das posturas mais inconcebíveis, e não demorou ela mexeu os lábios dum jeito mole e disse um “sacana” bem dúbio, era preciso conhecer de perto sua boca pra saber o que ela tinha dito, e era preciso conhecer essa femeazinha de várias telhaspra saber que sugestão, eu fiz de conta que tinha esquecido tudo e que o mundo agora só tinha aquele apertado metro de diâmetro, continuei o canalha da cama e ela dum jeito mais quente tornou a dizer “sacana”, que era o mesmo que me dizer “me convida pra deitar na grama”, ela que nos arroubos de bucolismo me pedia sempre pra trepar no mato, daí que forjei uma víbora no músculo viscoso da língua e conformei-lhe cabeça, e uma sórdida altivez, “an”, “an”, “an” eu disse mexendo a ponta devassa, “sacana sacana” ela disse numa entrega hipnótica, já entrando quem sabe em estado de graça, mantendo contudo as narinas plenas, uma respiração ruidosa tumultuando o colo, os peitos empinados subindo e descendo, as penas todas do corpo mobilizadas, tanto fazia dizer no caso que a ave já tinha o vôo pronto, ou que a ave tinha antes as asas arriadas, e foi pra melar inda mais o desejo dela que levei a mão bem perto do seu rosto e comecei com meu dedo do meio a roçar o seu lábio de baixo, e foi primeiro uma tremura, depois uma queimadura intensa, sua boca se abrindo aos poucos pr´um desempenho perfeito, e começamos a nos dizer coisas através dos olhos (essa linguagem que eu também ensinei a ela), e atento na sua boca, que eu fazia fingir como se fosse, eu estava dizendo claramente com os olhos “você nunca tinha imaginado antes que tivesse no teu corpo um lugar tão certo pr´esse meu dento enquanto eu te varava e você gemia” e logo seus olhos responderam num grito “sacana sacana sacana” como se dissessem “me rasga me sangra me pisa”, e senti a ponta da sua língua tocando a ponta do meu deod, lambendo furtiva minha unha, e senti seus dentes, que já tinham perdido o corte, mordiscando a polpa úmida, el mamava sôfrega a minha isca, e a gente se olhava, e vazava visgo das suas pupilas, e era o mesmo que eu estar ouvindo o que ela tinha dito tantas vezes de um jeito ambivalente “não conheci ninguém que trabalhasse como você, você é sem dúvida o melhor artesão do meu corpo””

NASSAR, Raduan. Um Copo de Cólera. 5a. edição. Companhia das Letras. São Paulo. 1992.

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Air

Se eu fechar os olhos, eu perco a consciência. Se eu olhar dentro daqueles olhos, perco-a também. Perco os sentidos de um súbito só me restando um tato hiper – desenvolvido no qual cada toque sutil é uma explosão pequena, cada passar de polegar, seja no braço, na barriga, na nuca é um tremor novo e mais violento do que o anterior. O encostar de lábios puro e simples, ainda distante do beijo, o carinho mais íntimo que poderia-se pensar, com as respirações indo de uma boa a outra, uma tirando da outra o que é mais vital.

Eu quero seu ar.

Cada beijo é que nem morte. Me perco inteira entre dedos, mãos, braços e pernas. Esqueço lugares, ruídos, luzes, pessoas e ambientes inteiros. Esqueço tudo, de mim, da minha vida, do que seja bom ou mau, certo- errado. Não tenho consciência, não tenho racionalidade. Enlouqueço.

” What are you my air? You affect me like you are my air”


Now I wanna

“So messed up i want you here
In my room i want you here
Now we’re gonna be face-to-face
And i’ll lay right down in my favorite place

And now i wanna be your dog
Now i wanna be your dog
Now i wanna be your dog
Well c’mon

Now i’m ready to close my eyes
And now i’m ready to close my mind
And now i’m ready to feel your hand
And lose my heart on the burning sands”

[ I wanna be your dog – The Stooges ]

Entre o abrir e fechar de olhos antes de dormir onde a iluminação de dá por conta das (poucas) luzes dos faróis dos carros e ônibus que trafegam pela madrugada e casa de notívagos insones no subúrbio. Os porteiros assoviam e cochilam em suas traquilas portarias com a certeza de que não haverão perigos iminentes e que seu sono procederá sem grandes sustos até, pelo menos, os barulhos mais insistentes dos transportes públicos, os sino da igreja nos primeiros raios da manhã de domingo.

No escuro, o encontro dos olhos demora, escondido num entre – luz, entre – cílios, entre – vontades. Fecha os olhos de prazer, de desconforto, de arrependimento de ter dito o que não era para ser dito, de arrependimento de não ter dito tudo aquilo que martelava em seu peito e em sua garganta alto como se fora bateria de escola de samba.

Nos apertões, nos arranhões e nas mordidas, tenta dizer tudo aquilo que está preso, essa urgência do amor total, de você inteira, da vontade de congelar a madrugada com as estrelas aparentes em meio a lua crescente. Sobe as roupas mas não tira-as. Geme mas não grita. Entre um casal que não é casal mas que talvez queira ser muita coisa segue não dita, demonstrada aos poucos em sutilezas quase imperceptíveis a não ser pelos arrepios, pela arritmia, pela ironia mascarando dores.

Nada suave. Tudo grande.


Everything before I love you

Natural que, os seriados, músicas e filmes e livros que acompanharam ( acompanham ainda) o meu crescimento, sejam uma parte tão grande de mim, que em determinadas situações, tudo o que eu consiga lembrar e pensar é que estou numa encruzilhada parecida, um algo do tipo “o que fazer” ou um “como lidar”? Nenhum deles me traz resposta alguma, só me lembra do que está acontecendo, faz a consciência da situação toda ser muito maior.

Um dos muitos episódios inesquecíveis para mim, de Sex in the city, é quando a personagem Carrie  conta como e quando foi que percebeu que amava seu namorado, o Mr. Big. Logo depois, ela diz quando foi a primeira vez que teve vontade de dizer – e não disse. Mais tarde ainda, quando disse, num vômito, sem pensar.

Se for para dizer eu te amo, desde a hora em que, quase por mágica se percebe que, sim, se ama. Daí para as palavras saírem da boca, é quase um suplício. Como dizer, onde e porque. Em que situação, com que tom de voz, esperando ou não o que.  Não é só o medo de dizer e da reação. É o medo de como vai soar, se vai estragar ou não um algo já (quase) perfeito e, uma vez que se diz essas três palavras, voltar atrás não é uma opção.

Mas transborda. Salta aos olhos. É passível de leitura, mesmo no escuro.


Ipanema

 A cores ou em preto e branco, Ipanema foi. Com o colorido das pessoas, da bandeira do arco- íris, do dia. Uma vez por ano, a sensação de enterrar os pés na areia quente, fritar no calor quase insuportável do Rio de Janeiro (mas e a maresia!) , tomar uma ducha fria, água – protetor solar – mate- cerveja.

Os corpos todos saudáveis, sem susto, todos atléticos menos elas. Duas cores de papel carregando na descomposição do ambiente. A magreza e palidez descendente européia apertando os olhos contra o sol enquanto o mar lambia as coisas todas, as pessoas e passava por baixo das cadeiras esticadas, em cima delas.

Iemanjá clama um novo par de havainas que tenta carregar para o mar. Volta, oferenda! Eu não mandei. Eu não fiz pedidos nem descumpri promessas, Iemanjá não é minha rainha. Não te conheço.

A volta, meninos do Rio e leõezinhos, Caetano Veloso aqui, estaria feliz. Chega mais gente, oi, feliz aniversário. Senta o homem que vem acompanhar as mocinhas.  Uma nuvem negra se aproxima enquanto o mar continua a lamber a areia escaldante mais e mais longe, foram-se piscinas naturais acima do banco de areia que era o nível de todos os banhistas, cobertas de lixo pelas bordas, como se fossem a marcação de seus limites.

O olhar por trás da lente fotográfica em volta, a procura (do quê, de quem?) . Acha um ponto. Solitário, um homem, sem barraca, sem cadeira e sem livro, olha o mar. Deve servir. Entendo. É um pedido à reflexão.

Chega de sol. Que venha a lua.


A noite de um escritor.

” No campo aberto no qual ele traçava a diagonal de praxe, subsistia o recém – conquistado anonimato fomentado pela nevada e o andar sozinho. Tratava-se de uma experiência que talvez um dia, no passado, ele chamasse de “desconfinamento” ou “desensimesmamento”. Enfim, só a sensação de estar lá fora, com as coisas, era uma espécie de exaltação; era como se com isto se lhe arqueassem as sobrancelhas. Sim, dava-lhe uma sensação de entusiasmo livrar-se do nome; com isto sentia-se como o lendário pintor chinês, desaparecido dentro de um quadro. Via, por exemplo, o cabo da carretilha de um trólebus, ao longe, passar vagando qual antena junto a um solitário pinheiro alto. Estranho que tantas pessoas ao sair da solidão, com seu murmurrar, pigarrear e assoar de nariz, fizessem lembrar uma máquina crepitante que, finalmente, estivesse prestes a ser posta em movimento e que, com ele, normalmente ocorresse justo o contrário: era sozinho com as coisas, anônimo, que ele começava a funcionar direito. Se nesse momento alguém lhe perguntasse como ele se chamava, a resposta seria “eu não tenho nome algum” e isto dito com tamanha seriedade, que o indagador compreenderia de imediato.”

HANDKE, Peter. A tarde de um escritor. Tradução de Reinaldo Guarany. Rio de Janeiro: Rocco, 1993

Despersonalização, nem sempre precisa ser um exercício – literário ou não – e nem exigir que se faça qualquer tipo de viagem, seja mental, por meio da arte, para qualquer lugar fora da cama, fora da porta do quarto, não precisa ser uma viagem de verdade nem uma semi- viagem, à esquina para comprar pão.

Uma pessoa adentrando o território seu, da sua assim chamada identidade, dividindo olhares e silêncios, risos e calor, tremores e batidas de coração, faz o papel.

Em presença de um alguém (um alguém, alguém) não sou mais eu. Nem sei o que seja um eu. A consciência só vem dupla. São dois corpos, duas almas, dois corações, duas mentes, dois silêncios, duas respirações, batidas múltiplas, duas bocas e um beijo. Uma mesma espera incessante, o querer idêntico.

Seja perto ou longe, incrivelmente longe ou ainda mais perto, numa quase simbiose dos braços entrelaçados e a boca parada e colada, não sei ser. Sozinha ou acompanhada, eu não sei de mim, em ti, perto de ti. Tuas palpitações ditam o ritmo das minhas em crescendo. A vontade do aperto e de trancar, enquanto as horas param, a lua sobe, o telefone vibra e a gente não se mexe. Não há nenhum lugar (a não ser vo-cê) em que eu prefira ou queira estar. E dentro dele, já me quedo e silencio.


Poeminha sentimental

O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas…
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.

[ Poeminha Sentimental – Mário Quintana]

Ainda que não se quede, que não cante e que cague no fio (em mim), não haverá choque, nenhuma andorinha será eletrocutada. O risco é por conta próprias, as decisões, a falta delas. Sou só fio. De vez em quando bate um vento, ricocheteia no ar em algum pássaro e não o domina. Não doma ninguém, não enlaça, não prende, eu não alcanço.

Faltam palavras. A canção da andorinha é instrumental, suas cordas vocais não tem a potência para pronunciar a palavra amor. É por isso que é um pássaro, é por isso que ela voa, com medo do choque, do contato. O fio continua sempre o mesmo e no mesmo lugar. Andorinha é que não se aproxima.


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