A noite de um escritor.

” No campo aberto no qual ele traçava a diagonal de praxe, subsistia o recém – conquistado anonimato fomentado pela nevada e o andar sozinho. Tratava-se de uma experiência que talvez um dia, no passado, ele chamasse de “desconfinamento” ou “desensimesmamento”. Enfim, só a sensação de estar lá fora, com as coisas, era uma espécie de exaltação; era como se com isto se lhe arqueassem as sobrancelhas. Sim, dava-lhe uma sensação de entusiasmo livrar-se do nome; com isto sentia-se como o lendário pintor chinês, desaparecido dentro de um quadro. Via, por exemplo, o cabo da carretilha de um trólebus, ao longe, passar vagando qual antena junto a um solitário pinheiro alto. Estranho que tantas pessoas ao sair da solidão, com seu murmurrar, pigarrear e assoar de nariz, fizessem lembrar uma máquina crepitante que, finalmente, estivesse prestes a ser posta em movimento e que, com ele, normalmente ocorresse justo o contrário: era sozinho com as coisas, anônimo, que ele começava a funcionar direito. Se nesse momento alguém lhe perguntasse como ele se chamava, a resposta seria “eu não tenho nome algum” e isto dito com tamanha seriedade, que o indagador compreenderia de imediato.”

HANDKE, Peter. A tarde de um escritor. Tradução de Reinaldo Guarany. Rio de Janeiro: Rocco, 1993

Despersonalização, nem sempre precisa ser um exercício – literário ou não – e nem exigir que se faça qualquer tipo de viagem, seja mental, por meio da arte, para qualquer lugar fora da cama, fora da porta do quarto, não precisa ser uma viagem de verdade nem uma semi- viagem, à esquina para comprar pão.

Uma pessoa adentrando o território seu, da sua assim chamada identidade, dividindo olhares e silêncios, risos e calor, tremores e batidas de coração, faz o papel.

Em presença de um alguém (um alguém, alguém) não sou mais eu. Nem sei o que seja um eu. A consciência só vem dupla. São dois corpos, duas almas, dois corações, duas mentes, dois silêncios, duas respirações, batidas múltiplas, duas bocas e um beijo. Uma mesma espera incessante, o querer idêntico.

Seja perto ou longe, incrivelmente longe ou ainda mais perto, numa quase simbiose dos braços entrelaçados e a boca parada e colada, não sei ser. Sozinha ou acompanhada, eu não sei de mim, em ti, perto de ti. Tuas palpitações ditam o ritmo das minhas em crescendo. A vontade do aperto e de trancar, enquanto as horas param, a lua sobe, o telefone vibra e a gente não se mexe. Não há nenhum lugar (a não ser vo-cê) em que eu prefira ou queira estar. E dentro dele, já me quedo e silencio.

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About M.

Moira A fatalidade cega. Em grego arcaico, a parte ou quinhão. Em Homero, a parte da vida decretada a cada indivíduo. O destino traçado do qual não se pode fugir e a pré – disposição à tragédia como condição inegável do ser humano. Lei suprema da vida cósmica à qual todos, humanos e Deuses estão sujeitos. Mayra Lopes Intimamente ligada a conceitos. Hardly one. Filosofia e literatura, eros e pathos, hybris e moira. Um conglomerado de hormônios e sensações. Acima de tudo, sensações. Dores e ansiedades. Mais uma fragmentação pós – moderna, com uma diferença: procuro saber de mim. Quero que o mundo se exploda. Eu só ligo para mim e para os meus. Para a arte, o pensamento e as sensações.Felicidade como estado efêmero versus desespero. Suicídio versus a vontade da dor de aprender, a procura. Descendente de espanhóis e poloneses, mantengo uma estima profunda por la lengua que me dice y por la guitarra catalán. Costumo falar de Cortázar e de literatura alemã. Tenho Goethe tatuado nas costas, sobre aquele olhar. Qual? O de todos. Devaneio, entre Miller, Pessoa e nuvens. As vezes também em algodão – doce.A minha escrita, chuva oblíqua. Passo as horas, entre PJ Harvey e um quarto cheio de história. Cheio de mim mas tão cheio de outros, que as vezes, não reconheço. Virgínia Woolf sem a escrita, depressiva. Sei quase tudo sobre os dark places e as pílulas, todas, conheço-as quase todas. Nenhuma nunca me trouxe felicidade, só torpor. Brinquei de Susanna Kaysen por três dias, me internei, me dei alta; no meio tempo, me chamaram pra fugir. Gosto de dar flores de presente mas ganhei poucas. As minhas preferidas são margaridas. É, simples assim. Detesto pleasure delayers. Não vejo sentido. Se tiver que ser algo melhor, vai ser, durante dias, meses, anos. Não há necessidade de adiar nada por causa disso. Eu sei o que eu quero, detesto jogo ( mas sei jogar como ninguém). Meus exs/minhas exs não realmente saem da minha vida. Estão todos por aqui, orbitando. Falo da maioria com carinho de como se as coisas estivessem acontecido ontem. Costumo ser amigas deles e delas. Tenho uma tendência a lembrar primordialmente das coisas boas. Na tela, de preferência a Europa e seus idiomas entre os filmes.Os finais da Lola e os meus possíveis finais. Entrei para Letras, achando que letras é alguma coisa da qual se vive, para descobrir que, apesar de uns e outros, eu não vivo, respiro. Aqui, onde a menina cresce e a mulher se esconde. Isto ainda não sou eu. “I open once and you call me Devil`s gateway”. Prazer, M. View all posts by M.

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