A glass full of me

”  e eu me queimando disse “puta” que foi uma explosão na boca e na minha mão voando na cara dela, e não era a bofetada generosa parte de um ritual, eu agora combinava intencionalmente a palma coás armas repressivas do seu arsenal (seria sim no esporro e na porrada!), por isso tornei a dizer “puta” e tornei a voar a mão, e vi sua pele cor – de – rosa manchar-se de vermelho, e de repente o rosto todo ser tomado por um formigueiro, seus olhos ficaram molhados, eu fiquei atento, meus olhos em brasa na cara dela, ela sem se mexer amparada pelo carro, eu já recuperado no aço da coluna, ela mantendo com volúpia o recuo lascivo da bofetada, cristalizando com um talento um sistema complexo de gestos, o corpo torcido, a cabeça jogada de lado, os cabelos turbos, transtornados, fruindo, quase até o orgasmo, o drama sensual da própria postura, mas nada disso me surpreendia, afinal, eu a conhecia bem, pouco importava a qualidade da surra, ela nunca tinha o bastante, só o suficiente, estava claro naquele instante que eu tinha o pêndulo e seguro controle do seu movimento, estava claro que eu tinha mudado definitivamente a rotação do tempo, sabendo, como eu sabia, que eu tinha a explorar áreas imensas da dua gula, sabendo, como eu sabia, de que transformações eu era capaz, e foi bem aqui comigo que pensei “peraí que você vai ver só” “peraí que você vai ver ainda” foi o que pensei dando conta de que a merda que me enchia a boca escorria pelos cantos mas eu não perdia nada dessa íntima substância , ia aparando com a língua o que caía antes da hora, sem falar que a fumaceira do momento era extremamente propícia ao ocultismo, não ia desperdiçar aquela chance de me exercitar nas finas artes de feiticeiro, por isso a coisa foi assim, surgiram em combustão, gotas de gordura nos metais das minhas faces, meu rosto começou a transmudar-se, primeiro a casca dos meus olhos, logo depois a massa obcena da boca, nun instante eu era o canalha da cama, eu li na chama dos seus olhos “sim, você é o canalha que eu amo”, e sempre atento aos sinais da tua carne eu passei então a usar a língua, muda e coleante, capaz sozinha das posturas mais inconcebíveis, e não demorou ela mexeu os lábios dum jeito mole e disse um “sacana” bem dúbio, era preciso conhecer de perto sua boca pra saber o que ela tinha dito, e era preciso conhecer essa femeazinha de várias telhaspra saber que sugestão, eu fiz de conta que tinha esquecido tudo e que o mundo agora só tinha aquele apertado metro de diâmetro, continuei o canalha da cama e ela dum jeito mais quente tornou a dizer “sacana”, que era o mesmo que me dizer “me convida pra deitar na grama”, ela que nos arroubos de bucolismo me pedia sempre pra trepar no mato, daí que forjei uma víbora no músculo viscoso da língua e conformei-lhe cabeça, e uma sórdida altivez, “an”, “an”, “an” eu disse mexendo a ponta devassa, “sacana sacana” ela disse numa entrega hipnótica, já entrando quem sabe em estado de graça, mantendo contudo as narinas plenas, uma respiração ruidosa tumultuando o colo, os peitos empinados subindo e descendo, as penas todas do corpo mobilizadas, tanto fazia dizer no caso que a ave já tinha o vôo pronto, ou que a ave tinha antes as asas arriadas, e foi pra melar inda mais o desejo dela que levei a mão bem perto do seu rosto e comecei com meu dedo do meio a roçar o seu lábio de baixo, e foi primeiro uma tremura, depois uma queimadura intensa, sua boca se abrindo aos poucos pr´um desempenho perfeito, e começamos a nos dizer coisas através dos olhos (essa linguagem que eu também ensinei a ela), e atento na sua boca, que eu fazia fingir como se fosse, eu estava dizendo claramente com os olhos “você nunca tinha imaginado antes que tivesse no teu corpo um lugar tão certo pr´esse meu dento enquanto eu te varava e você gemia” e logo seus olhos responderam num grito “sacana sacana sacana” como se dissessem “me rasga me sangra me pisa”, e senti a ponta da sua língua tocando a ponta do meu deod, lambendo furtiva minha unha, e senti seus dentes, que já tinham perdido o corte, mordiscando a polpa úmida, el mamava sôfrega a minha isca, e a gente se olhava, e vazava visgo das suas pupilas, e era o mesmo que eu estar ouvindo o que ela tinha dito tantas vezes de um jeito ambivalente “não conheci ninguém que trabalhasse como você, você é sem dúvida o melhor artesão do meu corpo””

NASSAR, Raduan. Um Copo de Cólera. 5a. edição. Companhia das Letras. São Paulo. 1992.

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About M.

Moira A fatalidade cega. Em grego arcaico, a parte ou quinhão. Em Homero, a parte da vida decretada a cada indivíduo. O destino traçado do qual não se pode fugir e a pré – disposição à tragédia como condição inegável do ser humano. Lei suprema da vida cósmica à qual todos, humanos e Deuses estão sujeitos. Mayra Lopes Intimamente ligada a conceitos. Hardly one. Filosofia e literatura, eros e pathos, hybris e moira. Um conglomerado de hormônios e sensações. Acima de tudo, sensações. Dores e ansiedades. Mais uma fragmentação pós – moderna, com uma diferença: procuro saber de mim. Quero que o mundo se exploda. Eu só ligo para mim e para os meus. Para a arte, o pensamento e as sensações.Felicidade como estado efêmero versus desespero. Suicídio versus a vontade da dor de aprender, a procura. Descendente de espanhóis e poloneses, mantengo uma estima profunda por la lengua que me dice y por la guitarra catalán. Costumo falar de Cortázar e de literatura alemã. Tenho Goethe tatuado nas costas, sobre aquele olhar. Qual? O de todos. Devaneio, entre Miller, Pessoa e nuvens. As vezes também em algodão – doce.A minha escrita, chuva oblíqua. Passo as horas, entre PJ Harvey e um quarto cheio de história. Cheio de mim mas tão cheio de outros, que as vezes, não reconheço. Virgínia Woolf sem a escrita, depressiva. Sei quase tudo sobre os dark places e as pílulas, todas, conheço-as quase todas. Nenhuma nunca me trouxe felicidade, só torpor. Brinquei de Susanna Kaysen por três dias, me internei, me dei alta; no meio tempo, me chamaram pra fugir. Gosto de dar flores de presente mas ganhei poucas. As minhas preferidas são margaridas. É, simples assim. Detesto pleasure delayers. Não vejo sentido. Se tiver que ser algo melhor, vai ser, durante dias, meses, anos. Não há necessidade de adiar nada por causa disso. Eu sei o que eu quero, detesto jogo ( mas sei jogar como ninguém). Meus exs/minhas exs não realmente saem da minha vida. Estão todos por aqui, orbitando. Falo da maioria com carinho de como se as coisas estivessem acontecido ontem. Costumo ser amigas deles e delas. Tenho uma tendência a lembrar primordialmente das coisas boas. Na tela, de preferência a Europa e seus idiomas entre os filmes.Os finais da Lola e os meus possíveis finais. Entrei para Letras, achando que letras é alguma coisa da qual se vive, para descobrir que, apesar de uns e outros, eu não vivo, respiro. Aqui, onde a menina cresce e a mulher se esconde. Isto ainda não sou eu. “I open once and you call me Devil`s gateway”. Prazer, M. View all posts by M.

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