Monthly Archives: March 2010

Diálogo com o tempo

Eu reluto muito em escrever aqui abertamente sobre mim, em primeira pessoa. Na tentativa de acalmar um dia que desde uma hora da manhã mostrava o potencial meio trágico, eu comecei a reler emails antigos trocados entre Fernandinha e eu. O que pude perceber é, que de alguma maneira, eu estou repetindo ciclos. Ciclos que me transportam para algum lugar entre o final de 2006 e o começo/meio de 2007. Um novo retrocesso. O que não pode significar coisa boa.

Percebi também que, se eu tivesse lido esses emails antes, talvez um namoro meu não acontecesse. Eu mesma, em um deles, estava me avisando e me dando boas razões para algo não acontecer. Eu não deveria esquecer dessas coisas e nem ignorar meus impulsos primários. Na maioria das vezes, eles estão certos. Meu feeling chega a ser um pouco certeiro no que diz respeito as pessoas.  Mas, se não tivesse acontecido, talvez eu não tivesse conhecido outras pessoas. Talvez seja um efeito bola de neve. Uma relação passada que acabou arrastando muita gente consigo ao descer a encosta. O problema é que tem gente desnecessária que veio arrastada. Que eu não sei que papel tem na minha vida, se é que tem algum mas que, de certo modo, está por aí. Não digo nem por aqui. É por aí mesmo. E eu tenho que me deparar com isso e decidir qual vai ser a minha reação. Ou eu posso simplesmente fingir que não existe uma vez que não faz realmente parte da minha vida.

Mudando de assunto mas não completamente de temática, me dá uma certa raiva o controle sobrehumano que eu tenho que ter para controlar meus sentimentos. Porque eu não acredito nisso, porque eu não quero fazer isso, porque me parece injusto. Outras pessoas podem ter ciúmes, fazer cobranças – implícitas ou não, se irritar comigo, não quererem me ver e nem falar comigo e eu não posso. Tudo eu tenho que aceitar passivamente. Parece que é um dado da minha condição. Só que em mim, as coisas fluem sem controle nem filtro. Quando eu leio/vejo/ escuto algo, eu prefiro que seja um masoquismo admitido meu, que não implica, necessariamente que eu vá falar algo sobre isso, tripudiar ou algo parecido. Agora, quanto aos meus sentimentos, sejam eles bons ou ruins, o que eu vejo – e posso (provavelmente devo) ver com olhos cansados e interrogativos – é que eles são sistematicamente ridicularizados, postos a prova a todo instante, sem que eu saiba por que e desacreditados.

Eu quase perco a voz. Ando perdendo a vontade de falar. E não porque eu não quero porque sim, eu preciso me segurar pra não explodir em palavras e a maioria das que eu quero dizer, é boa, muito boa (eu acho, pelo menos). Mas isso me é negado a partir do momento que, ao que eu falo, não é dado crédito algum, é quase ignorado. O que me faz ter quase a certeza de um certo desamor.

Quando eu penso numa decisão mais de duas vezes em menos de uma semana, e da mesma maneira, é porque pode ser um prenuncio de uma mudança. Mas outras mudanças também perpassam meu pensamento pendularmente. Num vai e vem constante sem nunca chegar ao instante zero.

Eu já estive muito perto de casar, ao menos no meu pensamento e já meio que casei de verdade. Separei. Hoje em dia, a desesperança é tanta que eu acho que eu nunca estive tão longe. Na verdade, eu não tenho certeza absoluta de quase nada, nesses tempos. Só o que jaz aqui, do lado de dentro. Eu ando me sentindo uma fraude, resignada a um lugar que não é bem o meu mas do qual eu não consigo sair. Estagnada. Talvez esteja tão longe porque, nesse momento, eu não pareça do tipo casável. Não sei qual é a condição de alguém querer ficar comigo.

Há uma certa mitologia em volta de mim, que eu tento derrubar mas que acaba sendo erigida sempre e de novo independente da minha vontade. Eu detesto ter que me dividir nessas mil Mayras. A Mayra sexy, a Mayra escritora, a Mayra pós graduanda que fala alguns idiomas e que é muito inteligente, a Mayra doce. Eu não sei encaixar a Mayra de verdade no meio disso que as pessoas enxergam e querem que eu seja. Então me vejo contribuindo pra esses mitos e é claro, nunca consigo sustentá-los. O que é a causa do fracasso de todos os meus relacionamentos até hoje. As pessoas se desencantam. Percebem que não é bem isso, que não é tudo isso. E eu fico aqui dizendo: mas eu avisei.

E por que tenho eu que, mais uma vez passar por isso tudo? E porque quando eu tenho a possibilidade de ser um eu mais próximo do que imagino que seja o eu, isso não é levado a sério e nem ao menos em consideração? Quantas coisas eu preciso deixar passar por poucas horas de preenchimento?

Voltando à Fernandinha, eu ando tentando tranquiliza-la que, apesar dessas coisas todas que passamos, nosso coração não se calcificará face a tantos já calcificados. Mas será mesmo? Quem vai me devolver a inocência de realmente achar que não?


Os túneis

 “these thoughts have no meaning. they are idiot mantras that exist in a prearranged cycle. i’m no good, i’m the angel of death, i’m stupid, i can’t do anything. thinking the first thought triggers the whole circuit. it’s like the flu: first a sore throath, then, inevitably, a stuffy nose and a cough.
once, these thoughts must have had a meaning. they must have meant what they said. but repetition has blunted them.”

KAYSEN, Susanna. Girl, Interrupted


Meu Deus, se o Senhor existir, favor tirar um pouco do mel e do açucar de mim.Grata.


A tarde

Então, novamente, o Largo do Machado no entardecer. Centenas de pessoas andando de lado para outro. Entrando e saindo de lojas, farmácias, bares e restaurantes. Juntamente com moradores de rua, gente entrando e saindo do metrô, pontos de ônibus e transportes coletivos lotados na hora do rush carioca.

Em meio a esse bololô urbano, eu, pequena e quase oprimida pela falta do que fazer com meu tempo que me sobrava em mãos como há muito não acontecia. Eu tendo que matar minutos a esmo, andando pelas ruas que não só conheço bem, como já fotografei bem. Me sentei na borda daquela aguá suja, perto de tantos casais e velhos e comecei, livros recém comprados na bolsa e tudo e comecei, a fotografar novamente. A igreja recém iluminada e a lua crescente, despontando desde muito cedo, com o céu ainda claro.

Tem lugares que são só lembranças. Não contém neles nenhum som, nenhuma palavra. Só memória. São sagrados.


Gaga Love II

Russian Roulette is not the same without a gun
And baby when it’s love if its not rough it isn’t fun


Amor Fati

” A dor também é alegria. A maldição também é benção, a noite também é sol – vão ou aprendam: um sábio é também um louco.

Alguma vez disseram sim a uma alegria? Ó meus amigos, então disseram ao mesmo tempo sim a todas as dores. Todas as coisas estão encadeadas, enlaçadas, enamoradas. – Alguma vez desejaram que uma mesma coisa se repetisse; alguma vez disseram: “Agrada- me, felicidade! Instante! Momento”!  Então desejaram o retorno de todas as coisas! – voltando todas de novo, todas eternas, encadeadas, enlaçadas, enamoradas, oh! assim amaram o mundo! – Vocês eternos, o amam eternamente e para sempre, e à dor dizem: “Passe – mas volte depressa”! Porque toda a alegria quer a eternidade!

11

Toda a alegria quer a eternidade de todas as coisas, quer o mel, quer o fel, quer a embriaguez da Meia -noite, quer as sepulturas, quer a consolação das lágrimas fúnebres, que o esplendor dourado do poente.

O que não há de querer a alegria! Ela é mais ávida, mais terna, mais esfomeada, mais terrível, mais secreta do que todos os males; quer a si mesma, morde-se na sua própria carne, nela confirma-se a vontade do ciclo eterno.

Ela quer o amor, quer o ódio; é de uma riqueza superabundante, dá, desperdiça, suplica que se aceitem as suas dádivas, agradece àqueles que aceitam, deseja que a odeiem.

A alegria é tão rica que tem sede de dor, de inferno, de ódio, de opróprio, de enfermidade, de mundo – este mundo que já bem conhece!

(…)

Porque toda a alegria se estima a si mesma – quer também por isso o sofrimento. Oh! felicidade, ó dor! Quebra-se. ó coração!”

NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra; tradução Heloísa da Graça Burati. São Paulo. Rideel, 2005.

A alegria escondida em toda a dor de um coração partido provém do princípio que, se o que estava ali se partiu, é porque um dia ele esteve (e provavelmente ainda está) cheio. Demasiadamente cheio. No momento inicial da dor, tudo foge à mente. A lembrança dos momentos felizes nos aparece em forma de dúvida “mas por que acabou se…?”. A aceitação da dor com alegria – ressalvando que aceitação da dor como compreensão do trágico e absurdo da vida e não como uma denial dos sentimentos negativos – é a também a aceitação de contradições possíveis (?) que não necessariamente sejam excludentes mas coexistem como princípio mundial quiça universal.

A linha é tênue entre amar profundamente alguém e por algum motivo, espumar de ódio e voltar ao amor no dia seguinte e vice e versa. É somente natural.

Não há dúvida. O ciclo pode ser estilizado mas o ponto inicial é o mesmo da chegada. Sem querendo filosofia barata, abraço tudo. Enalteço todo. Ponho no mesmo saco ( e dentro de mim) tudo de uma vez – dor, amor, felicidade, prazer, sofrimento, raiva, ódio, saudade, querer, desejo, tudo, tudo, tudo nada. Tudo de uma vez e agora (imediatismo meu, pós moderno, de pessoa impaciente).  Eu quero. O sofrimento, eu sei que ele vem, vem certo. Que venha, mais por favor, amanhã. Deixa que eu cuido, lambo feridas, choro, grito, deprimo. E passa.

Enquanto isso, a minha potência se carrega em cima de um nome, de um corpo, de um rosto, teu.

Wille zu du


Are we lucky or just plain stupid?

Christopher “Chris” Wilton: The man who said “I’d rather be lucky than good” saw deeply into life. People are afraid to face how great a part of life is dependent on luck. It’s scary to think so much is out of one’s control. There are moments in a match when the ball hits the top of the net, and for a split second, it can either go forward or fall back. With a little luck, it goes forward, and you win. Or maybe it doesn’t, and you lose.


Nola Rice: Men always seem to wonder. They think I’d be something very special.
Christopher “Chris” Wilton: And are you?
Nola Rice: Well, no one’s ever asked for their money back.

They think, don´t they?

*Foto e quotes do filme Match Point.


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