Por que tem que ser sempre o SER?

Eu detesto quando existem pessoas – e elas são muitas – que sabem ou acham que sabem o que é melhor pra você, como você deveria se comportar, ser, estar, tem aquelas idéias pré estabelecidas de relacionamento, sobre o que é ser adulto, sobre o que é ser mulher, sobre o que é ser profissional, acadêmico etc. Me dá raiva eu ter que ficar me contentando e me enfiando e sendo empurrada para esses rótulos, tendo que ser uma coisa em contradição ou detrimento de outra. Não acho que seja bem por aí que a banda toque.

Quando eu viajei, eu comprei – comprei, com o meu dinheiro, que eu ganhei, que não pedi à ninguém, um chaveiro que é um toy art (e não me importa que mais de um milésimo da população não saiba o que é um toy art e nem ache que seja arte mas sim uma desculpa para não crescer e colecionar brinquedos) que é uma vaca em forma de caixinha de leite. É muito inteligente se você parar para pensar. A vaca, o ser vivo, na mesma forma do produto que sai dela – o leite – e não só o produto mas o produto industrializado.

Antes de começar a aula de hoje, um colega meu perguntou porque tinha uma vaca na pendurada na minha mochila. Respondi breve e sinceramente, acariciando -a que porque eu gosto dela. Ele fez uma cara de reprovação e disse algo como: mas é uma vaca! Emputecendo-me, eu disse que ele não podia me sacanear por isso, que eu sou menina e tenho direito a ter essas coisas fofas/inúteis. E ele me respondeu que não sou menina, que sou mulher. Eu, não entendi ou não escutei o que ele disse e repeti o que eu havia dito, ao que ele, por sua vez, repetiu a frase do “você é uma mulher”. Subindo um tom de voz, acabei com a “discussão” com um: você entendeu. Prontamente, ele se tocou de que mulheres são pessoas que detestam ser contrariadas. Percebi isso porque ele só respondeu: Ih, aumentou os decibéis, tá bom. É claro que o aumento do meu tom de voz chamou a atenção dos outros meninos. Eu poderia ter dado mil respostas. Sim, eu sou uma mulher e, ao mesmo tempo, eu sou uma mulher? Acho que a graça está justamente de eu me encontrar ou pelo menos achar que estou num estado transitório. De que eu nunca vou conseguir perder completamente a menina em mim, mesmo sabendo e conseguindo ser muito mulher quando eu tenho que ser. Porém, isso me leva a outra questão: o que é o ser mulher? Como esse colega definiria este estado? O que entende ele por feminilidade ou mesmo o ser mulher em si, ainda que desprovido de feminilidade? Creio que não muita coisa. Até porque, nem eu sei, minhas amigas não sabem, minhas amigas não se denominam mulheres, ainda se chamam de meninas. É um vício. Será que eu sou mulher somente porque ele enxerga em mim uma mulher? Acho estranho que, a impressão que me dá é que os homens enxergam pessoas do sexo feminino como mulheres quando vêem nestas o certo lado sexual da coisa. Eu faço sexo, sou algo confiante com relação à mim, a minha aparência e ao meu “poder de atração”,sou capaz de suscitar desejo, tesão, logo, sou mulher. Mas quantas adolescentes por aí também não o são, as vezes, até muito mais do que eu? O que me torna mulher se, nem meu corpo se parece com o de uma mulher adulta? Sim eu sou mas por que não posso ser não sendo? Ou ser quando quero, quando me é conveniente que eu seja mulher – adulta – profissional – acadêmica ? E por que diabos um chaveiro pode fazer de mim menos mulher?

 Fica no ar…

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About M.

Moira A fatalidade cega. Em grego arcaico, a parte ou quinhão. Em Homero, a parte da vida decretada a cada indivíduo. O destino traçado do qual não se pode fugir e a pré – disposição à tragédia como condição inegável do ser humano. Lei suprema da vida cósmica à qual todos, humanos e Deuses estão sujeitos. Mayra Lopes Intimamente ligada a conceitos. Hardly one. Filosofia e literatura, eros e pathos, hybris e moira. Um conglomerado de hormônios e sensações. Acima de tudo, sensações. Dores e ansiedades. Mais uma fragmentação pós – moderna, com uma diferença: procuro saber de mim. Quero que o mundo se exploda. Eu só ligo para mim e para os meus. Para a arte, o pensamento e as sensações.Felicidade como estado efêmero versus desespero. Suicídio versus a vontade da dor de aprender, a procura. Descendente de espanhóis e poloneses, mantengo uma estima profunda por la lengua que me dice y por la guitarra catalán. Costumo falar de Cortázar e de literatura alemã. Tenho Goethe tatuado nas costas, sobre aquele olhar. Qual? O de todos. Devaneio, entre Miller, Pessoa e nuvens. As vezes também em algodão – doce.A minha escrita, chuva oblíqua. Passo as horas, entre PJ Harvey e um quarto cheio de história. Cheio de mim mas tão cheio de outros, que as vezes, não reconheço. Virgínia Woolf sem a escrita, depressiva. Sei quase tudo sobre os dark places e as pílulas, todas, conheço-as quase todas. Nenhuma nunca me trouxe felicidade, só torpor. Brinquei de Susanna Kaysen por três dias, me internei, me dei alta; no meio tempo, me chamaram pra fugir. Gosto de dar flores de presente mas ganhei poucas. As minhas preferidas são margaridas. É, simples assim. Detesto pleasure delayers. Não vejo sentido. Se tiver que ser algo melhor, vai ser, durante dias, meses, anos. Não há necessidade de adiar nada por causa disso. Eu sei o que eu quero, detesto jogo ( mas sei jogar como ninguém). Meus exs/minhas exs não realmente saem da minha vida. Estão todos por aqui, orbitando. Falo da maioria com carinho de como se as coisas estivessem acontecido ontem. Costumo ser amigas deles e delas. Tenho uma tendência a lembrar primordialmente das coisas boas. Na tela, de preferência a Europa e seus idiomas entre os filmes.Os finais da Lola e os meus possíveis finais. Entrei para Letras, achando que letras é alguma coisa da qual se vive, para descobrir que, apesar de uns e outros, eu não vivo, respiro. Aqui, onde a menina cresce e a mulher se esconde. Isto ainda não sou eu. “I open once and you call me Devil`s gateway”. Prazer, M. View all posts by M.

One response to “Por que tem que ser sempre o SER?

  • Bruna

    Julgamentos, né? Cada um parte de um argumento para defender o que compreende como ser ou não mulher.

    Pelo que li, dentro do contexto do cara ter perguntado pela vaquinha, deu a impressão que “ser mulher” foi mais empregado num sentido de ser adulta, crescida. Mas não sei, né? Não sou o cara.

    Acho que cada momento exige uma coisa… Tem horas que a gente pode ser mais “menina” e abusar nisso até (rs), e tem outras que precisamos ser mais adultas. E é isso, nada mais, na minha opinião. Cabe ao adulto (!) saber o momento em que agir como “menina” é natural e possível, e se deixar viver essa liberdade; e saber também quando é preciso ser mais centrada. Ter noção de que ambas as coisas coexistem, mas que cada momento é um momento. Assim penso.

    Vou confessar que tenho o mesmo vício também de dizer que sou “uma menina isso”, “uma garota aquilo”… haha… E é curioso quando alguém diz “mulher” porque vem toda a rede de sentidos que isso implica.

    Beijos!

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