Monthly Archives: September 2010

O mundo é um moinho

Ainda é cedo amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora da partida
Sem saber mesmo o rumo que iras tomar

Preste atenção querida
Embora eu saiba que estás resolvida
em cada esquina cai um pouco tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és

Ouça-me bem amor
Preste atenção o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões à pó

Preste atenção querida
Em cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavastes com teus pés

[ O mundo é um moinho – Cartola ]

O meu corpo reclama a qualquer sinal de estar sendo má sucedida em meus planos pessoais. Mesmo que ele envolvam coisas que não necessariamente são pessoais. Meu corpo se nega a trabalhar em certas condições, em determinados humores, e, principalmente, perante a uma certa insatisfação de alma.

Meu corpo sente que não estou onde deveria estar, que mesmo que, agora já ambientalizada, eu possa seguir fluindo por vias que não são as minhas. Por hora, estas vias são as únicas que me são dadas. Sou grata a elas. Porém, não me satisfazem, não me desafiam, e, o mais importante não só não me estimulam como me desestimulam, toda vez que o despertador toca.

Está difícil levantar e querer sair para essa vida mais -ou – menos de rebanho que levo durante a semana. Algumas situações surpreendem, mas fora isso, palavras são digitadas ou perguntas são feitas mecanicamente sem que eu veja nomes ou pense em números. Na verdade, nem chego mais a pensar em algo. Vou falando, vou marcando e quando há uma tentativa de sermão ou um ponto hesitante, meu olhar já se tolda, os olhos rolam e os cílios abaixam numa atitude de puro tédio onde eu penso: é objetivo. Sim ou não, só isso.

Não quero ouvir histórias. Quero ler histórias, quero viver histórias. Por enquanto, isso só me é permitido de madrugada ou aos fins de semana.

Meu corpo então ejeta qualquer injeção de ânimo. Café e banho já não me acordam mais normalmente. Nem o Cartola cantando O mundo é um moinho no meu despertador  faz com que eu acorde mais feliz. Meu corpo grita, assim como eu. Ambos reclamamos do que não está sendo feito, ambos reclamamos insatisfação, ambos apressamos a lerdeza alheia.

Meu mundo, meu corpo, minha psiquê, tudo o mesmo moinho.

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Eureka

Lied von Kindsein

Als das Kind Kind war,
ging es mit hängenden Armen,
wollte der Bach sei ein Fluß,
der Fluß sei ein Strom,
und diese Pfütze das Meer.

Als das Kind Kind war,
wußte es nicht, daß es Kind war,
alles war ihm beseelt,
und alle Seelen waren eins.

Als das Kind Kind war,
hatte es von nichts eine Meinung,
hatte keine Gewohnheit,
saß oft im Schneidersitz,
lief aus dem Stand,
hatte einen Wirbel im Haar
und machte kein Gesicht beim fotografieren.

Als das Kind Kind war,
war es die Zeit der folgenden Fragen:
Warum bin ich ich und warum nicht du?
Warum bin ich hier und warum nicht dort?
Wann begann die Zeit und wo endet der Raum?
Ist das Leben unter der Sonne nicht bloß ein Traum?
Ist was ich sehe und höre und rieche
nicht bloß der Schein einer Welt vor der Welt?
Gibt es tatsächlich das Böse und Leute,
die wirklich die Bösen sind?
Wie kann es sein, daß ich, der ich bin,
bevor ich wurde, nicht war,
und daß einmal ich, der ich bin,
nicht mehr der ich bin, sein werde?

Als das Kind Kind war,
würgte es am Spinat, an den Erbsen, am Milchreis,
und am gedünsteten Blumenkohl.
und ißt jetzt das alles und nicht nur zur Not.

Als das Kind Kind war,
erwachte es einmal in einem fremden Bett
und jetzt immer wieder,
erschienen ihm viele Menschen schön
und jetzt nur noch im Glücksfall,
stellte es sich klar ein Paradies vor
und kann es jetzt höchstens ahnen,
konnte es sich Nichts nicht denken
und schaudert heute davor.

Als das Kind Kind war,
spielte es mit Begeisterung
und jetzt, so ganz bei der Sache wie damals, nur noch,
wenn diese Sache seine Arbeit ist.

Als das Kind Kind war,
genügten ihm als Nahrung Apfel, Brot,
und so ist es immer noch.

Als das Kind Kind war,
fielen ihm die Beeren wie nur Beeren in die Hand
und jetzt immer noch,
machten ihm die frischen Walnüsse eine rauhe Zunge
und jetzt immer noch,
hatte es auf jedem Berg
die Sehnsucht nach dem immer höheren Berg,
und in jeden Stadt
die Sehnsucht nach der noch größeren Stadt,
und das ist immer noch so,
griff im Wipfel eines Baums nach dem Kirschen in einem Hochgefühl
wie auch heute noch,
eine Scheu vor jedem Fremden
und hat sie immer noch,
wartete es auf den ersten Schnee,
und wartet so immer noch.

Als das Kind Kind war,
warf es einen Stock als Lanze gegen den Baum,
und sie zittert da heute noch.

Peter Handke

Foi voltando do supermercado que, finalmente eu tive a idéia do que eu quero trabalhar na monografia da pós de filosofia. Finalmente. A boa notícia, no entanto, veio seguida da má. Provavelmente eu estarei restrita a apenas uma pessoa para me orientar, nem terei opção e a minha opção dorme todo dia em Teresópolis com uma galinha d´angola.


Ar

– No que você está pensando?

Ela não conseguia falar. Depois de cinco minutos, começa a esboçar uma reação, abre a boca embora a voz ainda lhe falte enquanto o peito arfa.

– Não estou pensando em nada, está tudo preto.

– Não está pensando nele não, né?

– Nele? Que nele? Não estou pensando em ele nenhum, ela nenhuma, nem em mim estou conseguindo pensar.

– Por que então você estava tão longe?

– Eu não consigo re-pi-rar.


Instruções direcionadas à mim

” Deixando de lado os motivos, atenhamo-nos à maneira correta de chorar, estendendo por isto um choro que não penetre no escândalo, que não insulte o sorriso com sua semelhança desajeitada e paralela.

O choro médio ou comum consiste numa contração geral do rosto e um som espasmódico acompanhado de lágrimas e muco, este no fim, pois o choro acaba no momento em que a gente se assoa energeticamente.

Para chorar, dirija a imaginação a você mesmo, e se isto lhe for impossível por ter adquirido o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas e nesses golfos do estreito de Magalhães nos quais não entra ninguém, nunca.

Quando o choro chegar, você cobrirá o rosto com delicadeza, usando ambas as mãos com a palma para dentro. As crianças chorarão esfregando a manga do casaco na cara, e de preferência num canto do quarto. Duração média do choro, três minutos.”

CORTÁZAR, Julio; Histórias de Cronocópios e de Famas.Tradução: Gloria Rodriguez, 3a. edição – Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira S.A., 1977

texto: Instruções para chorar.

Creio que tenho a sorte de ter leitores esclarecidos no meu blog, que sabem apreciar Cortázar como um dos melhores escritores sul- americanos contempoâneos (ou pós – moderno, que seja), assim como sua ironia.

No entanto, instruções para chorar de maneira menos escandalosa, enxugando a ironia do texto, me fariam bem.


Alice practice

“hi
scars will heal soon
you shrug it off
except that you don’t

better, it surely
it don’t fall out
said,
i live low
i lisp, i die
sugar shooting
bled with deadbeats
only crawl
so your sad eyes
quite christian
blood

drop it, it’s dead
we drop it
and took the body home
sad eyes”

[ Alice Practice – Crystal Castels]

Eu fui a poucos shows na vida. Tenho pressão baixa, não aguento ficar no meio de multidão. Tudo começa a girar de um jeito ruim e eu acabo a noite na enfermaria. Até ontem, Los Hermanos/ Kraftwerk/ Radiohead tinha sido o melhor show da minha vida mesmo que durante o show tenham rolado tantas lágrimas e acontecido tantas coisas ruins.

Até ontem.

Ainda hoje as pessoas me dizem que minha vida é louca demais para parecer de verdade, que tantas coisas incríveis – sejam elas ruins ou boas – acontecem, SEMPRE, que eu não poderia desperdiçar isso. Apesar de já ter tentado, menos intensidade é algo que não funciona pra mim, por que não funciona em mim. Isso não é bom. As vezes acho que também não é ruim.

Ontem eu perdi a voz, caí, vi o chão, gritei, dancei, pulei. Ontem eu vivi. Até demais.

Ontem, foi a melhor vez que saí esse ano. Foi … surreal.


Desuperficializando

Desuperficializando… Hoje, reparei que perdi a vontade de falar com certas pessoas. O que ontem o Pedro Rios disse que sentia, essa desmotivação ante às coisas porque as pessoas são emburrecidas cotidianamente, portanto não têm a capacidade de compreensão que deveriam ter, tem alguma razão de ser. Discordei dele que eu deveria me calar por isso porque, se eu pelo menos consefuir afetar uma pessoa, já é UMA pessoa.

Hoje indo pra terapia, entrei num  café onde fiquei exatos quinze minutos. Antes de me sentar me encaminhei direto à garçonete à toa no balcão e pedi uma soda italiana. Sentei, com os fones no ouvido, bebi, pedi a conta, paguei e fui embora.

Quando atravessei a rua e andava pela Marquês de Abrantes avistei uma ex crush minha abrindo a boca com uma empada vindo a entupir aquela boca com a qual tantas vezes eu sonhei. Na verdade, não era uma quedinha que eu tinha por ela. Estava mais para queda livre. Do tipo de ficar revoltada com foras que ela tomava da menina que ela era afim e ficar mal e eu ter que ser arrastada por outra amiga pro banheiro porque estava com lágrimas nos olhos e meu punho se fechando na mesa da cantina do décimo primeiro andar na UERJ.

Abri a boca fazendo menção de que ia falar alguma coisa. Desde que ela resolvera se enroscar numa relação com a menina da sala da qual nenhuma de nós gostávamos – burra, escandalosa, marrenta e metida a enfrentar todo mundo , o tipo de mulher extremamente irritante e, que numa faculdade de Letras destoa tanto que parece uma bárbara – que sabíamos que não daria certo, principalmente pelo fato da menina ser hétero, ela nos deixou de lado. É  como se nunca tivéssemos sido amigas. É como se ela nunca tivesse sido a pessoa que eu mais  gostava na UERJ, que abriu a homossexualidade pra mim na casa da matriz no mesmo dia que eu. Era como se nunca tivessemos tido conversas íntimas e ela nunca tivesse me dito o quão gostosa a Ariana era de pijama e como era ridículo ela ficar andando atrás de uma menina hétero que namorava há três anos.

Ela simplesmente passou a borracha em tudo. Meu caso foi um pouco diferente. Ela me magoou. Ela nem sabe disso. E não tem a ver com ela namorar ou ser afim de fulana ou ciclano. Ela só ficou do lado de uma pessoa que fez algo terrível pra mim. Terrível mesmo, não é só exagero de sagitariana.

Já tendo aberto a boca para dar oi, eu desisti e só acenei. Como ela estava comendo, era desculpável que eu não dissesse nada, que eu nem ao menos tivesse parado para conversar. Ela me descartou. E eu acenei. Só isso, eu só acenei.

Não há o que dizer. Não tem nada a ser dito.


Superficializando…

“Im suppose to interfere
Im coming from your fears
When they wander into their cage
Sew their arms and thighs
And their rubber covered eyes
Their skin will never age”

[ Courtship dating – Crystal Castles]

Desaprendi a ouvir. É mais uma questão de não gostar mais de ouvir. Imersa no em mim, eu não consigo me deixar ser arrastada por todas as pessoas que não param de procurar propósitos em tudo.

Eu deixei de querer vê-los, por agora. Por hora, deixei de querer de saber por quês, pra que servirá, qual o propósito. E se não tiver? Eu devo só desistir e ficar em casa?

Ainda que seja um ou dois, eu tenho motivos para sair da cama. E eles não envolvem a minha subsistência. Eu não preciso ir atrás da minha comida, procurar um teto pra dormir, o que me faz levantar da cama, são outras coisas: trabalhar no pré – projeto de mestrado, a lua cheia e o halo dela, os amigos que eu vejo todos os dias – e os que eu vejo nem todos os dias… Os livros da minha prateleira, a minha letra corrida no diário.

Sem questão referentes somente à mim. Vamos deixar que elas venham na hora certa, se tiverem que vir.

Nesse momento, aqui, na sala, segundos antes de me encaminhar para a minha cama e voltar à leitura do Makine, pré dia de trabalho/terapia / show do Crystal Castels.


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