Monthly Archives: October 2010

Diálogos sofridos

– Você já teve isso?

– O quê?

– Amor?

– Não sei.

Calou a vontade de dizer que já, já teve. Como se poderia viver uma vida sem amor, meu Deus. Ela só não sabe, mas já teve. Quisera que tivesse ou – sentisse – agora também.

E se você achar que não é amor, eu morro, meu bem, eu morro. Impossível que você não saiba o que somos.

 


Would you like me better?

“Make me a pretty person
Make me feel like I belong
Make me hard and make me happy
Make me beautiful

The emptiness
The craziness
Satisfy this hungriness

Darling
How would it feel?

If we sleep together
Nothing satisfies me baby
If we sleep together
I’ll wear something pretty baby
If we sleep together
Give me what I crave now baby
If we sleep together
Save the rest for later baby
If we sleep together
You will drive me crazy baby
If we sleep together
I save it all for you my baby”

[ Sleep together]

So what am I for you? Would you ever care to tell me? are we something we can call? Or are we just fog that dissolves in a haze early in the morning?

Are you in love with me, or better yet, do you love me? Or I am just an attemp for you to forget this year deaths? Am I not good enough or I would have to die to you? That´s what it takes for you to embrace or at least admit love? Why won´t you? What if I choose to leave, would you run after me?

What would I choose to leave? I crave for you, every day and every hour and every minute.

But I can never say the words. I have to watch you suffer and doing nothing, pretend that I don´t know…

If I said that I may have weaknesses and that I can cheat too and I can hurt too. Would you love me then?


A new addiction: to HEAR.


O motorista e eu

O primeiro ônibus que chegou para mim fora o mais lento, o que faz o trajeto mais longo e me deixa a uma maior distância da Universidade. A esta hora, pensei, vai este mesmo.

O motorista parecia ter acordado que nem eu: ou melhor, não ter acordado. Acordei, e achei ter desligado o despertador. Dez minutos depois ele tocou novamente. Dessa vez, desliguei. Acordei muito mais tarde. Mas estava me sentido mal, estou me sentindo mal, há desculpas. Contanto que eu acordasse à tempo para a aula à tarde.

Ah sim, o ônibus. Desculpa, ia me esquecendo.

O motorista do quatro- três – oito ia distraído e devagar, se arrastando pelo asfalto, se assustando com os outros carros, dando freadas violentas porque não via quem passava, deixava qualquer um ultrapassar, pra quê pressa? Se movia vagarosamente ao que impaciente, um passageiro gritava após cada parada: Bora piloto!

Era como se eu e ele não quisessemos chegar aos nossos destinos. Sabíamos o que nos esperava, sabíamos que chegaríamos lá, o que desestimulava, era a certeza de ter de fazer tudo outra vez. Com um ou outro detalhe diferente. Um ou outro nervosismo subtraído ou adicionado. Mas no fundo, no fundo, a mesma coisa.


Imaginary chart

Assim Joana entrava numa casa desconhecida. Ao primeiro olhar de penumbra, nada além de uma escada.  Renata a havia silenciosamente dito para subir. Na verdade, ela não disse quase nada depois que resolveu se calar. Talvez tenha se arrependido. Talvez eu não devesse estar aqui – essas eram as palavras de Renata ou as minhas próprias?

Nada além de um gato, um cachorro, um banheiro, uma entre-sala, um quarto e uma porta fechada pra ela. Não fizeram nenhum barulho para subir.

Renata já entrava em casa ligando todos os aparelhos, numa ânsia de ter coisas a fazer e não conversar, Joana se sentava desconfortavelmente no chão, o gato e o cachorro silenciosos, o gato já vindo se enroscar sm suas pernas.

– Vem.

Foi e se sentou na beira da cama. – Ainda acho que minha presença aqui é inaudita, devo ser o brinquedinho novo. – Preciso tirar ela daqui.

Ah, se referia à gata. A essa altura Renata já tinha levantado a bichana do chão, tinha tirado-a das mãos de uma Joana carente, ela usava um short vermelho e um top branco. Joana, vestida dos pés à cabeça.

Fechou a porta e deitou na cama. – É agora que devo fazer alguma coisa, mostrar serviço? Tudo muito protocolar, pensou Joana. Essa menina não está pensando direito. Será que uma vez já esteve? Será aquele papo todo de “que bom que você tem a idade que tem” não era só mais uma certeira tentativa de me agradar? A julgar pelo número dela, experiência não deve faltar para dizer a coisa certa, na hora certa. Um ano e não sei quantos meses de diferença – talvez nenhum Joana- se essa menina não for sagitariana ou escorpiana, só te sobra supôr que ela seja de gêmeos.

A voz no fundo da cabeça que teve de lhe dizer: Ela ainda está esperando, Joana. Do jeito que está bêbada, é melhor andar logo ou ela vai dormir. – Ah, é…

Trocaram poucas vezes de representações. Havia sido exatamente como Joana sempre achou que seria, só que pior. E Renata ainda cismava em tapar-lhe a boca. – Pára de querer me tirar o ar.

Ela dormiu. Ela dormiu no meio do sexo, não estou acreditando nisso, pensou Joana. – Mas é claro – de novo a voz lhe sussurrando de dentro da própria cabeça – você pensou muito, hesitou muito.

– Pode ser. Deitou do lado da cama que não gosta e cochilou. Acordou, se levantou e se vestiu, passou uma àgua no rosto sem se olhar no espelho e foi murmurar no ouvido dela: Devem te ligar daqui a pouco, eu estou indo. Abre a porta pra mim. – súplica fervorosa.

Renata somente balançou a cabeça sem sequer abrir os olhos, enrolou-se no edredom, parecendo pelo menos umas quatro vezes maior de corpo do que já era, ainda sem abrir os olhos e nem precisar tatear nos objetos em volta ou na porta. Enquanto umedecia os lábios, com os olhos fechados, estendeu na direção de Joana um sonoro “bom dia” , quase um grito. Assustou. – Desce a escada, é a primeira à direita, disse mecanicamente.

– Quantas vezes será que ela já repetiu esse breve itinerário pra outras mulheres? se perguntava Joana ao seguir a direção e dar de cara não com um andar debaixo mas com o elevador. – Que tipo de casa/ esconderijo é essa?  Ela ainda não entendera.

Não viu em que andar estava, nem o número do prédio. Se viu somente em plena manhã ensolarada na rua ao lado da Cobal. – Como foi que não prestei atenção ontem em onde estava indo?

Poderia escolher em descer à rua chegando à Voluntários ou subir para o lado contrário.

– Melhor eu pegar um ônibus.

 


Posseiro

O Outeiro da Glória para ela, assim, visto de baixo, bem de baixo e longe era o sinal mais palpável do desejo e da proibição concomitantes. Como a espada em Tristão e Isolda (suas referências sempre melancólicas e trágicas). Lembrava da última vez que lá estivera, sempre carregando com si a mesma companhia, como se aquele fosse um dos muitos lugares delas. Mas aquele de longe, parecia um dos mais simbólicos. Elas tinham dias a lembrar… o dia em que se conheceram, o dia em que passaram na Glória em uma andança infinita pelo Rio de Janeiro e não podiam estar juntas, ao 26 de dezembro. Uma morria por dentro enquanto a outra queria… andar.Tinham o dia do término no café, o dia da volta, em pleno carnaval, a noite da festa da Katylene.

Um dia, de novo juntas, voltaram a andar por aquele pedaço de terra entre sol e nuvens, chuviscos e mato. Andaram novamente pelo parque, re-tirando fotos ( que dessa vez contivesse pelo menos uma delas), uma se juntava com as nuvens a pensar na vida, no sentido da existência, nos passarinhos cantando, a outra entrava em comunhão com a natureza e o vento salgado.

– Vamos para o MAM?

No meio do caminho, como saído de um clipe do Beirut, músicos, malabaristas, muitas crianças correndo, pessoas fazendo piquenique na grama, gente bonita e que se conhecia. Sentaram também. Enquanto uma se sentia um peixe fora d´água dentro de suas roupas pretas que chamavam atenção justamente pela inconsonância com o lugar, a outra mais e mais em casa.  A primeira então, deitou no colo dela. – Quero sentir o que você sente.

Ao verem o mar, G. a tinha dito que aquele dia estava sendo lindo. Que bom que tinham resolvido sair de casa. Mas ficar em casa é ter o mundo! É ter o mundo em você. Não entendia essa necessidade dela de ver o mundo além delas. Os seus mundos interiores sendo tão ricos, com tanta coisa inexplorada.

Depois do mal – estar e do convite para deixar-lhe em casa, o sono no ônibus de volta, resolvera toda em impulsos que nunca tinha: – vamos comer na padaria? – vamos.

-Não, vamos naquele café que você ia terminar comigo? – VAMOS!

Estava fechado. Foram mesmo no café do cinema. A outra enquanto montava em pensamento e palavras, muitas palavras que não pararam de sair de sua boca durante todos os dias do fim de semana, já decorando a casa que ainda nem tinha: – Odeio quando você me fala dos presentes que ia me dar.

– São sempre coisas que você quer, não é? – Filha da puta, me conhecia! pensou ela.

– Vamos no sebo? Ah não!!!!

Depois de um breve beijo na boca tinha dito:

-olha como estamos bem integradas ao ambiente! – Tá bom, vamos.

Fazê-la se sentir um casal sempre funcionava como mágica. Depois de umas andadas e mexidas pelas coisinhas do sebo, sentaram-se no chão. N. lendo livros de poesia em português de  Portugal em voz , fazendo as vozes de criança e do adulto, sem tentar imitar sotaques que não conseguiria reproduzir a Maria Bethânia cantava Terezinha no som da loja.

Ouviram os donos falando mal de uma gringa que passara muito tempo andando por lá.- Será que vão falar da gente também?

Pelo menos vamos comprar livros. N. havia aberto um livro da Coleção “Nossos Clássicos” de Matias Aires, página 31:

“Todos conhecemos os delírios, a que a vaidade nos incita, mas nem por isso deixamos de os seguir. Parece que cada um de nós tem duas vontades sempre opostas entre si; ao mesmo tempo queremos, e não queremos; ao mesmo tempo condenamos, e aprovamos; ao mesmo tempo buscamos e fugimos; amamos e aborrecemos. Temos uma vontade própria para conhecer, e detestar o vício; mas também temos outra pronta para o abraçar; uma vontade nos inclina, a outra arrasta-nos: a vontade dominante é a que segue o partido da vaidade; por mais que queiramos ser humildes, e que tenhamos vontade de desprezaro fausto, a vontade contrária sempre vence, e se acaso se conforma, a violência com que o faz, é um sacrifício. A vaidade é uma espécie de concupiscência, não se lhe resiste com as fôrças do corpo, com as do espírito sim; a carne não é frágil só por um princípio, mas por muitos, e a vaidade não é o menor deles.

Assim que N. pronunciou essas palavras, disse: Vou comprar.

Era impressionante como tinha o dom de abrir sempre um livro na página certa. Que mais é isso senão um delírio nosso? G. respondeu: me empresta quando terminar.

Mal sei como ele se chama mas entendo o que ele quer
Se deitou na minha cama e me chama de mulher
Foi chegando sorrateiro e antes que eu dissesse não
Se instalou feito um posseiro dentro do meu coração

Em flash- back, resoaram as palavras da noite anterior: – Um brinde a quem vai trepar essa noite, enquanto batia com o copo de cerveja no dela.

Não, meu bem, vamos fazer amor.

Teve que concordar: o dia foi lindo.


Da beleza

Lembro que uma vez fiquei sabendo que uma das minhas melhores amigas, do tempo de infância, colégio, disse prum outro amigo nosso que eu não era bonita mas sabia me arrumar de modo que eu parecesse bonita.

O que me entristeceu, na época, não foi o fato dela me achar bonita ou feia. Se for parar para analisar, eu nunca a achei bonita também. O que me entristeceu foi pensar que, quando se lida com pessoas cujo afeto envolvido é muito grande, beleza não existe. Ou melhor, é só o que existe. A beleza É o amigo.

Eu concordo com ela. Não sou uma pessoa bonita. Não sei se sou o que se diz de “pessoa bonita por dentro”. Talvez não. É provável que não. Muitas vezes o que vejo no espelho me agrada, mas, a um olhar mais atento, no lugar do meu rosto, eu só consigo enxergar um ponto de interrogação.

Eu não me conformo em ter uma aparência ou ser uma aparência. Sou o tipo de egoísta que tem confiança em si. Eu chego numa loja, num shopping, numa boate, achando que tudo é meu e que eu sou o centro. Uma vez que você convence a si mesmo, as pessoas não precisam ser convencidas, elas só acreditam, ou melhor, compram.

O resultado disso, são inúmeros elogios vazios de gente que não me enxerga, puxadas pelo braço, cantadas, cair no chão ficando com alguém, sexo, gemidos, gritaria. Pronto, compraram a idéia de mim.

Existem várias idéias de Mayra que eu possa identificar:

– Mayra bonitinha de boate: aquela bonequinha que as pessoas querem como troféu ou decoração – apenas temporária – de cama e que foge quando pensa no enojante superficialismo da coisa.

– Mayra inteligente: aquela que lê lê lê lê e lê. Aquela que estuda e se isola do resto da casa, aquela que fala três idiomas e é capaz de discutir literatura, gramáticas, palavras, filosofia, sociologia, educação, dos assuntos os mais variados. Geralmente é a Mayra que encanta.

Apesar da Mayra inteligente ser uma das Mayras possíveis, ela não é a única e sustentar o rótulo da inteligência o tempo todo, cansa. Me deixa ansiosa, faz com que eu sinta que TENHO QUE ser aquilo 24 horas por dia, sete dias por semana para que o interesse por mim dure mais do que uma noite, uma semana, um mês.

Mayra questionadora: Inconformada com o mundo e com a chamada “realidade”, prefere se abster deste e criar realidades paralelas. Quando, de fato está nesse mundo, entra em discussões ferrenhas e em militância burguesa, aquela que se faz do computador, deitada na cama.

Mayra confusa: Aquela que escreve, rabisca e apaga, tentando consertar o ponto de interrogação que o espelho lhe deu. A de uma busca incessante e irreal pelo seu conceito de em mim, de eu, de amor, de relacionamentos, de vida. Aquela que se pergunta sem parar e que não descansa nem na hora que deita a cabeça no travesseiro.

Mayra superficial: Não gosta de falar de trabalho em casa. Não entra em discussões sobre política e/ou religião. Assiste programas de tv pouco ou nenhum pouco edificantes para poder relaxar.

Mayra louca (também conhecida como neurótica bipolar): Lida mal com qualquer forma de relacionamento e contato com o outro. Entra em constantes crises, chora, chora muito, chora mais lágrimas do que é capaz de dar. Xinga, se debate, cobra, é uma pessoa insuportável. Fica esperando inutilmente que algum dia alguém ache toda a sua loucura engraçadinha, como acham o Woody Allen. Em vão. Ninguém consegue ficar muito tempo perto dela.

Mayra má: auto – explicativo. Primeiro eu. É má e pronto. Muitas das vezes imagina que sua maldade é legitimizada por explicações que sempre soam completamente incoerentes pros outros ( e talvez seja mesmo).

Mayra boa: se preocupa genuinamente com os sentimentos de quem está perto. Vê seus pedidos de desculpas não como forma de se fazer sentir melhor mas tem tamanha empatia com a dor alheia que ao saber que influgiu dor a alguém de quem gosta, fica muito, muito aflita. Se sente dolorida ao causar mal a alguém querido. Ama seus amigos e se desespera se eles mostram qualquer sinal de estarem muito mal. Faz verdadeiras loucuras por eles, ama seus irmãos e seus gatos as vezes mais do que a si mesma.

e por aí vai… Não sei contabilizar as Mayras em mim. Só sei dizer que Luiza tinha razão. Acho que não sou uma pessoa bonita.


Senhas

Eu não gosto do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto

Eu aguento até rigores
Eu não tenho pena dos traídos
Eu hospedo infratores e banidos
Eu respeito conveniências
Eu não ligo pra conchavos
Eu suporto aparências
Eu não gosto de maus tratos

Mas o que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto

Eu aguento até os modernos
E seus segundos cadernos
Eu aguento até os caretas
E suas verdades perfeitas

O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto

Eu aguento até os estetas
Eu não julgo competência
Eu não ligo pra etiqueta
Eu aplaudo rebeldias
Eu respeito tiranias
E compreendo piedades
Eu não condeno mentiras
Eu não condeno vaidades

O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Não, não gosto dos bons modos
Não gosto

Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem

[ Adriana Calcanhoto ]


Desacerto de passos

Uma vez eu me sentei com a * e a expliquei realmente porque eu havia “sumido”. Porque é que não tínhamos ficado juntas. Não era culpa de ninguém. Seria injusto – e até estanho dizer que foi por culpa dela. Não foi. As neuroses são minhas, os sentimentos em descompasso, eram os meus.

Sentei para essa conversa quando eu estava solteira e sem procurar nada/ninguém. Justamente para não dar a impressão errada de “agora que estou feliz, posso resolver minhas pendências” e nem a impressão de “estou considerando voltar”. Não era nem uma coisa nem outra. Pode ser que esse acerto de contas, por assim dizer, fosse só mais uma das minhas tentativas de ficar bem comigo mesma. Pode ser não, era, com quase toda certeza. Entretanto, quando você passa por certas coisas, você sabe o que causa nos outros. Que reações, que impressões, que sensações. Quando eu saí daquele quarto com a pretensão de não voltar mais, eu sabia muito bem o que aquela pessoa jogada na cama aos prantos estava sentindo, afinal, quantas vezes eu mesma não senti issso?

Então eu fui explicar que… eu não sou capaz de suportar uma adoração. Não sou capaz de levar um relacionamento onde a pessoa com a qual eu esteja faça o que eu quero ao meu levantar de telefone. Se eu disser ” não posso hoje” e só, sem nenhum tipo de explicação e isso for aceitado mais de uma vez, eu acho estranho porque… eu não ligar, não perguntar e não poder é sinal de desinteresse. Sinal de que as coisas podem estar dando certo, conforme estejam mas que, eu preciso de mais. Eu sempre preciso de mais. Eu sinceramente nem sei enumerar tudo o que há de errado comigo e não entendo por que, no começo, eu possa ser algo fascinante, encantador e perigoso, até. Aliás, de tudo o que eu sou no começo dos relacionamentos, é só isso que costuma durar no final: a sensação de perigo perto de mim.

Acho que ainda não mudei porque não sei exatamente o que mudar. Eu dependo dos outros mas, se alguém depende muito de mim, eu não sei como lidar com isso. Não sei como sair do meu auto – centrismo. É com certeza uma das coisas que eu preciso melhorar mas, ainda não descobri como.

Só que, incomoda a mim também, essa impossibilidade de abrir, de esperar mais um pouco, de entender como eu posso estar do lado de alguém que precise muito de mim.

Não é pessoal. Eu tenho que entender como acertar o passo.

Ontem eu andava por um bairro que venho evitado há um tempo. Tive duas reações:

– Peguei o telefone. Mas aí, pensei: – O que vou dizer? Oi, estou aqui na frente do seu prédio? (seria ridículo). Ou que mais? – Depois de amanhã eu também devo passar aí por perto. (outra vez, ridículo).

– Caminhar mais devagar. – Em determinado momento, me vi pensando comigo mesma: sua idiota, ela não vai estar andando na rua a esta hora!

Hoje, enquanto o ônibus acabava de passar pela praia de Botafogo, é que pensei que, talvez tivesse tomado a decisão errada.


Letting it out

Ao invés de reclamar e bradar aqui a minha falta de felicidade em tantos setores – ainda mais quando você tem que dormir chorando por falta de compreensão alheia (pra certas coisas não se precisa de paciência e sim, compreensão e respeito pela pessoa que você é), vou mostrar algo melhor e que quiçá, surtirá mais efeito.

Em um espisódio da série Glee, existe um menino, Kurt, que é homossexual. Ele é filho de um viúvo meio bronco e vivia com medo do pai, que o pai descobrisse sobre ele e o expulsasse de casa, ficasse bravo, coisas assim. Na verdade, tudo o que ele queria, era ter uma relação normal com esse pai, que ele o aceitasse do jeito que é. Neste episódio, em que ele canta I wanna hold your hand, dos Beatles, ele lembra de diversas cenas da infância onde o atrito não era tão grande, tempos dos quais ele sentia falta, pela pacividade de convivência.

Em um outro episódio, o pai dele o pega de collant na sala dançando Single Ladies, sendo que ele era a Beyoncé! Para agradar o pai, ele acaba entrando na equipe de futebol americano e traz a sua contribuição ao time. Como o chute poderoso do time era o dele, o pai se encheu de orgulho. Ao chegar em casa, ele revelou que era gay. O  pai disse que sabia, que sabia desque que ele tinha três anos. Disse que preferia que ele não fosse mas ele é, e que estava tudo bem. Reação tipicamente televisiva. Com a maioria de nós não foi nada assim.

Quanto à mim, vamos voltar um pouco: Eu sou uma pessoa quieta. Acho que sempre fui. Senão sempre, desde que a minha irmã nasceu, pelo menos. Quando eu aprendi a ler, fui ficando cada vez mais e mais silenciosa. Eu tinha companhia, eu tinha com quem conversar, tinha um livro nas mãos. Fui uma criança normal. Tinha amigas, brincava, conversava, me machucava, gritava… Mas chegava em casa e, nos momentos nos quais eu não estava brincando com a minha irmã, eu serenava.

Quando a adolescência chegou, tive momentos bastante conturbados e complicados, como todo mundo. Minha maneira de falar, de conversar melhor, se resumia à escrita. E isso permanece, até hoje. Sempre, de uma maneira geral, a melhor parte da minha casa, foi o meu quarto, a minha cama e o meu travesseiro. Eu gosto de me isolar, eu procuro me isolar, eu preciso me isolar. Só assim, penso  melhor. Só assim consigo concatenar as coisas e me sentir mais eu.Eu não desprezo de todo a interação social, longe de mim mas, quando interagir socialmente vira uma obrigação, eu não consigo… Aquilo fica crescendo e se entalando em mim de um jeito ruim. Uma hora, eu tenho que let it out.

E foi.


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