Da beleza

Lembro que uma vez fiquei sabendo que uma das minhas melhores amigas, do tempo de infância, colégio, disse prum outro amigo nosso que eu não era bonita mas sabia me arrumar de modo que eu parecesse bonita.

O que me entristeceu, na época, não foi o fato dela me achar bonita ou feia. Se for parar para analisar, eu nunca a achei bonita também. O que me entristeceu foi pensar que, quando se lida com pessoas cujo afeto envolvido é muito grande, beleza não existe. Ou melhor, é só o que existe. A beleza É o amigo.

Eu concordo com ela. Não sou uma pessoa bonita. Não sei se sou o que se diz de “pessoa bonita por dentro”. Talvez não. É provável que não. Muitas vezes o que vejo no espelho me agrada, mas, a um olhar mais atento, no lugar do meu rosto, eu só consigo enxergar um ponto de interrogação.

Eu não me conformo em ter uma aparência ou ser uma aparência. Sou o tipo de egoísta que tem confiança em si. Eu chego numa loja, num shopping, numa boate, achando que tudo é meu e que eu sou o centro. Uma vez que você convence a si mesmo, as pessoas não precisam ser convencidas, elas só acreditam, ou melhor, compram.

O resultado disso, são inúmeros elogios vazios de gente que não me enxerga, puxadas pelo braço, cantadas, cair no chão ficando com alguém, sexo, gemidos, gritaria. Pronto, compraram a idéia de mim.

Existem várias idéias de Mayra que eu possa identificar:

– Mayra bonitinha de boate: aquela bonequinha que as pessoas querem como troféu ou decoração – apenas temporária – de cama e que foge quando pensa no enojante superficialismo da coisa.

– Mayra inteligente: aquela que lê lê lê lê e lê. Aquela que estuda e se isola do resto da casa, aquela que fala três idiomas e é capaz de discutir literatura, gramáticas, palavras, filosofia, sociologia, educação, dos assuntos os mais variados. Geralmente é a Mayra que encanta.

Apesar da Mayra inteligente ser uma das Mayras possíveis, ela não é a única e sustentar o rótulo da inteligência o tempo todo, cansa. Me deixa ansiosa, faz com que eu sinta que TENHO QUE ser aquilo 24 horas por dia, sete dias por semana para que o interesse por mim dure mais do que uma noite, uma semana, um mês.

Mayra questionadora: Inconformada com o mundo e com a chamada “realidade”, prefere se abster deste e criar realidades paralelas. Quando, de fato está nesse mundo, entra em discussões ferrenhas e em militância burguesa, aquela que se faz do computador, deitada na cama.

Mayra confusa: Aquela que escreve, rabisca e apaga, tentando consertar o ponto de interrogação que o espelho lhe deu. A de uma busca incessante e irreal pelo seu conceito de em mim, de eu, de amor, de relacionamentos, de vida. Aquela que se pergunta sem parar e que não descansa nem na hora que deita a cabeça no travesseiro.

Mayra superficial: Não gosta de falar de trabalho em casa. Não entra em discussões sobre política e/ou religião. Assiste programas de tv pouco ou nenhum pouco edificantes para poder relaxar.

Mayra louca (também conhecida como neurótica bipolar): Lida mal com qualquer forma de relacionamento e contato com o outro. Entra em constantes crises, chora, chora muito, chora mais lágrimas do que é capaz de dar. Xinga, se debate, cobra, é uma pessoa insuportável. Fica esperando inutilmente que algum dia alguém ache toda a sua loucura engraçadinha, como acham o Woody Allen. Em vão. Ninguém consegue ficar muito tempo perto dela.

Mayra má: auto – explicativo. Primeiro eu. É má e pronto. Muitas das vezes imagina que sua maldade é legitimizada por explicações que sempre soam completamente incoerentes pros outros ( e talvez seja mesmo).

Mayra boa: se preocupa genuinamente com os sentimentos de quem está perto. Vê seus pedidos de desculpas não como forma de se fazer sentir melhor mas tem tamanha empatia com a dor alheia que ao saber que influgiu dor a alguém de quem gosta, fica muito, muito aflita. Se sente dolorida ao causar mal a alguém querido. Ama seus amigos e se desespera se eles mostram qualquer sinal de estarem muito mal. Faz verdadeiras loucuras por eles, ama seus irmãos e seus gatos as vezes mais do que a si mesma.

e por aí vai… Não sei contabilizar as Mayras em mim. Só sei dizer que Luiza tinha razão. Acho que não sou uma pessoa bonita.

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About M.

Moira A fatalidade cega. Em grego arcaico, a parte ou quinhão. Em Homero, a parte da vida decretada a cada indivíduo. O destino traçado do qual não se pode fugir e a pré – disposição à tragédia como condição inegável do ser humano. Lei suprema da vida cósmica à qual todos, humanos e Deuses estão sujeitos. Mayra Lopes Intimamente ligada a conceitos. Hardly one. Filosofia e literatura, eros e pathos, hybris e moira. Um conglomerado de hormônios e sensações. Acima de tudo, sensações. Dores e ansiedades. Mais uma fragmentação pós – moderna, com uma diferença: procuro saber de mim. Quero que o mundo se exploda. Eu só ligo para mim e para os meus. Para a arte, o pensamento e as sensações.Felicidade como estado efêmero versus desespero. Suicídio versus a vontade da dor de aprender, a procura. Descendente de espanhóis e poloneses, mantengo uma estima profunda por la lengua que me dice y por la guitarra catalán. Costumo falar de Cortázar e de literatura alemã. Tenho Goethe tatuado nas costas, sobre aquele olhar. Qual? O de todos. Devaneio, entre Miller, Pessoa e nuvens. As vezes também em algodão – doce.A minha escrita, chuva oblíqua. Passo as horas, entre PJ Harvey e um quarto cheio de história. Cheio de mim mas tão cheio de outros, que as vezes, não reconheço. Virgínia Woolf sem a escrita, depressiva. Sei quase tudo sobre os dark places e as pílulas, todas, conheço-as quase todas. Nenhuma nunca me trouxe felicidade, só torpor. Brinquei de Susanna Kaysen por três dias, me internei, me dei alta; no meio tempo, me chamaram pra fugir. Gosto de dar flores de presente mas ganhei poucas. As minhas preferidas são margaridas. É, simples assim. Detesto pleasure delayers. Não vejo sentido. Se tiver que ser algo melhor, vai ser, durante dias, meses, anos. Não há necessidade de adiar nada por causa disso. Eu sei o que eu quero, detesto jogo ( mas sei jogar como ninguém). Meus exs/minhas exs não realmente saem da minha vida. Estão todos por aqui, orbitando. Falo da maioria com carinho de como se as coisas estivessem acontecido ontem. Costumo ser amigas deles e delas. Tenho uma tendência a lembrar primordialmente das coisas boas. Na tela, de preferência a Europa e seus idiomas entre os filmes.Os finais da Lola e os meus possíveis finais. Entrei para Letras, achando que letras é alguma coisa da qual se vive, para descobrir que, apesar de uns e outros, eu não vivo, respiro. Aqui, onde a menina cresce e a mulher se esconde. Isto ainda não sou eu. “I open once and you call me Devil`s gateway”. Prazer, M. View all posts by M.

One response to “Da beleza

  • Bruna Maria

    Beleza é algo tão pessoal, cada um tem seu ponto de vista, caso não nos deixemos levar pela maré de achar belo o que todo mundo acha que é bonito. Acredito mais numa agregação de traços, físicos e de personalidade, que acabam sendo essa beleza, afinal…
    É bom ser tão plural, eu acho. Não parei pra pensar em tantas subdivisões assim que levem meu nome, por exemplo, mas acho que não chegaria a tantos “estados de Mayra”, rs.
    Beijooos!

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