Posseiro

O Outeiro da Glória para ela, assim, visto de baixo, bem de baixo e longe era o sinal mais palpável do desejo e da proibição concomitantes. Como a espada em Tristão e Isolda (suas referências sempre melancólicas e trágicas). Lembrava da última vez que lá estivera, sempre carregando com si a mesma companhia, como se aquele fosse um dos muitos lugares delas. Mas aquele de longe, parecia um dos mais simbólicos. Elas tinham dias a lembrar… o dia em que se conheceram, o dia em que passaram na Glória em uma andança infinita pelo Rio de Janeiro e não podiam estar juntas, ao 26 de dezembro. Uma morria por dentro enquanto a outra queria… andar.Tinham o dia do término no café, o dia da volta, em pleno carnaval, a noite da festa da Katylene.

Um dia, de novo juntas, voltaram a andar por aquele pedaço de terra entre sol e nuvens, chuviscos e mato. Andaram novamente pelo parque, re-tirando fotos ( que dessa vez contivesse pelo menos uma delas), uma se juntava com as nuvens a pensar na vida, no sentido da existência, nos passarinhos cantando, a outra entrava em comunhão com a natureza e o vento salgado.

– Vamos para o MAM?

No meio do caminho, como saído de um clipe do Beirut, músicos, malabaristas, muitas crianças correndo, pessoas fazendo piquenique na grama, gente bonita e que se conhecia. Sentaram também. Enquanto uma se sentia um peixe fora d´água dentro de suas roupas pretas que chamavam atenção justamente pela inconsonância com o lugar, a outra mais e mais em casa.  A primeira então, deitou no colo dela. – Quero sentir o que você sente.

Ao verem o mar, G. a tinha dito que aquele dia estava sendo lindo. Que bom que tinham resolvido sair de casa. Mas ficar em casa é ter o mundo! É ter o mundo em você. Não entendia essa necessidade dela de ver o mundo além delas. Os seus mundos interiores sendo tão ricos, com tanta coisa inexplorada.

Depois do mal – estar e do convite para deixar-lhe em casa, o sono no ônibus de volta, resolvera toda em impulsos que nunca tinha: – vamos comer na padaria? – vamos.

-Não, vamos naquele café que você ia terminar comigo? – VAMOS!

Estava fechado. Foram mesmo no café do cinema. A outra enquanto montava em pensamento e palavras, muitas palavras que não pararam de sair de sua boca durante todos os dias do fim de semana, já decorando a casa que ainda nem tinha: – Odeio quando você me fala dos presentes que ia me dar.

– São sempre coisas que você quer, não é? – Filha da puta, me conhecia! pensou ela.

– Vamos no sebo? Ah não!!!!

Depois de um breve beijo na boca tinha dito:

-olha como estamos bem integradas ao ambiente! – Tá bom, vamos.

Fazê-la se sentir um casal sempre funcionava como mágica. Depois de umas andadas e mexidas pelas coisinhas do sebo, sentaram-se no chão. N. lendo livros de poesia em português de  Portugal em voz , fazendo as vozes de criança e do adulto, sem tentar imitar sotaques que não conseguiria reproduzir a Maria Bethânia cantava Terezinha no som da loja.

Ouviram os donos falando mal de uma gringa que passara muito tempo andando por lá.- Será que vão falar da gente também?

Pelo menos vamos comprar livros. N. havia aberto um livro da Coleção “Nossos Clássicos” de Matias Aires, página 31:

“Todos conhecemos os delírios, a que a vaidade nos incita, mas nem por isso deixamos de os seguir. Parece que cada um de nós tem duas vontades sempre opostas entre si; ao mesmo tempo queremos, e não queremos; ao mesmo tempo condenamos, e aprovamos; ao mesmo tempo buscamos e fugimos; amamos e aborrecemos. Temos uma vontade própria para conhecer, e detestar o vício; mas também temos outra pronta para o abraçar; uma vontade nos inclina, a outra arrasta-nos: a vontade dominante é a que segue o partido da vaidade; por mais que queiramos ser humildes, e que tenhamos vontade de desprezaro fausto, a vontade contrária sempre vence, e se acaso se conforma, a violência com que o faz, é um sacrifício. A vaidade é uma espécie de concupiscência, não se lhe resiste com as fôrças do corpo, com as do espírito sim; a carne não é frágil só por um princípio, mas por muitos, e a vaidade não é o menor deles.

Assim que N. pronunciou essas palavras, disse: Vou comprar.

Era impressionante como tinha o dom de abrir sempre um livro na página certa. Que mais é isso senão um delírio nosso? G. respondeu: me empresta quando terminar.

Mal sei como ele se chama mas entendo o que ele quer
Se deitou na minha cama e me chama de mulher
Foi chegando sorrateiro e antes que eu dissesse não
Se instalou feito um posseiro dentro do meu coração

Em flash- back, resoaram as palavras da noite anterior: – Um brinde a quem vai trepar essa noite, enquanto batia com o copo de cerveja no dela.

Não, meu bem, vamos fazer amor.

Teve que concordar: o dia foi lindo.

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About M.

Moira A fatalidade cega. Em grego arcaico, a parte ou quinhão. Em Homero, a parte da vida decretada a cada indivíduo. O destino traçado do qual não se pode fugir e a pré – disposição à tragédia como condição inegável do ser humano. Lei suprema da vida cósmica à qual todos, humanos e Deuses estão sujeitos. Mayra Lopes Intimamente ligada a conceitos. Hardly one. Filosofia e literatura, eros e pathos, hybris e moira. Um conglomerado de hormônios e sensações. Acima de tudo, sensações. Dores e ansiedades. Mais uma fragmentação pós – moderna, com uma diferença: procuro saber de mim. Quero que o mundo se exploda. Eu só ligo para mim e para os meus. Para a arte, o pensamento e as sensações.Felicidade como estado efêmero versus desespero. Suicídio versus a vontade da dor de aprender, a procura. Descendente de espanhóis e poloneses, mantengo uma estima profunda por la lengua que me dice y por la guitarra catalán. Costumo falar de Cortázar e de literatura alemã. Tenho Goethe tatuado nas costas, sobre aquele olhar. Qual? O de todos. Devaneio, entre Miller, Pessoa e nuvens. As vezes também em algodão – doce.A minha escrita, chuva oblíqua. Passo as horas, entre PJ Harvey e um quarto cheio de história. Cheio de mim mas tão cheio de outros, que as vezes, não reconheço. Virgínia Woolf sem a escrita, depressiva. Sei quase tudo sobre os dark places e as pílulas, todas, conheço-as quase todas. Nenhuma nunca me trouxe felicidade, só torpor. Brinquei de Susanna Kaysen por três dias, me internei, me dei alta; no meio tempo, me chamaram pra fugir. Gosto de dar flores de presente mas ganhei poucas. As minhas preferidas são margaridas. É, simples assim. Detesto pleasure delayers. Não vejo sentido. Se tiver que ser algo melhor, vai ser, durante dias, meses, anos. Não há necessidade de adiar nada por causa disso. Eu sei o que eu quero, detesto jogo ( mas sei jogar como ninguém). Meus exs/minhas exs não realmente saem da minha vida. Estão todos por aqui, orbitando. Falo da maioria com carinho de como se as coisas estivessem acontecido ontem. Costumo ser amigas deles e delas. Tenho uma tendência a lembrar primordialmente das coisas boas. Na tela, de preferência a Europa e seus idiomas entre os filmes.Os finais da Lola e os meus possíveis finais. Entrei para Letras, achando que letras é alguma coisa da qual se vive, para descobrir que, apesar de uns e outros, eu não vivo, respiro. Aqui, onde a menina cresce e a mulher se esconde. Isto ainda não sou eu. “I open once and you call me Devil`s gateway”. Prazer, M. View all posts by M.

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