Imaginary chart

Assim Joana entrava numa casa desconhecida. Ao primeiro olhar de penumbra, nada além de uma escada.  Renata a havia silenciosamente dito para subir. Na verdade, ela não disse quase nada depois que resolveu se calar. Talvez tenha se arrependido. Talvez eu não devesse estar aqui – essas eram as palavras de Renata ou as minhas próprias?

Nada além de um gato, um cachorro, um banheiro, uma entre-sala, um quarto e uma porta fechada pra ela. Não fizeram nenhum barulho para subir.

Renata já entrava em casa ligando todos os aparelhos, numa ânsia de ter coisas a fazer e não conversar, Joana se sentava desconfortavelmente no chão, o gato e o cachorro silenciosos, o gato já vindo se enroscar sm suas pernas.

– Vem.

Foi e se sentou na beira da cama. – Ainda acho que minha presença aqui é inaudita, devo ser o brinquedinho novo. – Preciso tirar ela daqui.

Ah, se referia à gata. A essa altura Renata já tinha levantado a bichana do chão, tinha tirado-a das mãos de uma Joana carente, ela usava um short vermelho e um top branco. Joana, vestida dos pés à cabeça.

Fechou a porta e deitou na cama. – É agora que devo fazer alguma coisa, mostrar serviço? Tudo muito protocolar, pensou Joana. Essa menina não está pensando direito. Será que uma vez já esteve? Será aquele papo todo de “que bom que você tem a idade que tem” não era só mais uma certeira tentativa de me agradar? A julgar pelo número dela, experiência não deve faltar para dizer a coisa certa, na hora certa. Um ano e não sei quantos meses de diferença – talvez nenhum Joana- se essa menina não for sagitariana ou escorpiana, só te sobra supôr que ela seja de gêmeos.

A voz no fundo da cabeça que teve de lhe dizer: Ela ainda está esperando, Joana. Do jeito que está bêbada, é melhor andar logo ou ela vai dormir. – Ah, é…

Trocaram poucas vezes de representações. Havia sido exatamente como Joana sempre achou que seria, só que pior. E Renata ainda cismava em tapar-lhe a boca. – Pára de querer me tirar o ar.

Ela dormiu. Ela dormiu no meio do sexo, não estou acreditando nisso, pensou Joana. – Mas é claro – de novo a voz lhe sussurrando de dentro da própria cabeça – você pensou muito, hesitou muito.

– Pode ser. Deitou do lado da cama que não gosta e cochilou. Acordou, se levantou e se vestiu, passou uma àgua no rosto sem se olhar no espelho e foi murmurar no ouvido dela: Devem te ligar daqui a pouco, eu estou indo. Abre a porta pra mim. – súplica fervorosa.

Renata somente balançou a cabeça sem sequer abrir os olhos, enrolou-se no edredom, parecendo pelo menos umas quatro vezes maior de corpo do que já era, ainda sem abrir os olhos e nem precisar tatear nos objetos em volta ou na porta. Enquanto umedecia os lábios, com os olhos fechados, estendeu na direção de Joana um sonoro “bom dia” , quase um grito. Assustou. – Desce a escada, é a primeira à direita, disse mecanicamente.

– Quantas vezes será que ela já repetiu esse breve itinerário pra outras mulheres? se perguntava Joana ao seguir a direção e dar de cara não com um andar debaixo mas com o elevador. – Que tipo de casa/ esconderijo é essa?  Ela ainda não entendera.

Não viu em que andar estava, nem o número do prédio. Se viu somente em plena manhã ensolarada na rua ao lado da Cobal. – Como foi que não prestei atenção ontem em onde estava indo?

Poderia escolher em descer à rua chegando à Voluntários ou subir para o lado contrário.

– Melhor eu pegar um ônibus.

 

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About M.

Moira A fatalidade cega. Em grego arcaico, a parte ou quinhão. Em Homero, a parte da vida decretada a cada indivíduo. O destino traçado do qual não se pode fugir e a pré – disposição à tragédia como condição inegável do ser humano. Lei suprema da vida cósmica à qual todos, humanos e Deuses estão sujeitos. Mayra Lopes Intimamente ligada a conceitos. Hardly one. Filosofia e literatura, eros e pathos, hybris e moira. Um conglomerado de hormônios e sensações. Acima de tudo, sensações. Dores e ansiedades. Mais uma fragmentação pós – moderna, com uma diferença: procuro saber de mim. Quero que o mundo se exploda. Eu só ligo para mim e para os meus. Para a arte, o pensamento e as sensações.Felicidade como estado efêmero versus desespero. Suicídio versus a vontade da dor de aprender, a procura. Descendente de espanhóis e poloneses, mantengo uma estima profunda por la lengua que me dice y por la guitarra catalán. Costumo falar de Cortázar e de literatura alemã. Tenho Goethe tatuado nas costas, sobre aquele olhar. Qual? O de todos. Devaneio, entre Miller, Pessoa e nuvens. As vezes também em algodão – doce.A minha escrita, chuva oblíqua. Passo as horas, entre PJ Harvey e um quarto cheio de história. Cheio de mim mas tão cheio de outros, que as vezes, não reconheço. Virgínia Woolf sem a escrita, depressiva. Sei quase tudo sobre os dark places e as pílulas, todas, conheço-as quase todas. Nenhuma nunca me trouxe felicidade, só torpor. Brinquei de Susanna Kaysen por três dias, me internei, me dei alta; no meio tempo, me chamaram pra fugir. Gosto de dar flores de presente mas ganhei poucas. As minhas preferidas são margaridas. É, simples assim. Detesto pleasure delayers. Não vejo sentido. Se tiver que ser algo melhor, vai ser, durante dias, meses, anos. Não há necessidade de adiar nada por causa disso. Eu sei o que eu quero, detesto jogo ( mas sei jogar como ninguém). Meus exs/minhas exs não realmente saem da minha vida. Estão todos por aqui, orbitando. Falo da maioria com carinho de como se as coisas estivessem acontecido ontem. Costumo ser amigas deles e delas. Tenho uma tendência a lembrar primordialmente das coisas boas. Na tela, de preferência a Europa e seus idiomas entre os filmes.Os finais da Lola e os meus possíveis finais. Entrei para Letras, achando que letras é alguma coisa da qual se vive, para descobrir que, apesar de uns e outros, eu não vivo, respiro. Aqui, onde a menina cresce e a mulher se esconde. Isto ainda não sou eu. “I open once and you call me Devil`s gateway”. Prazer, M. View all posts by M.

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