Monthly Archives: October 2010

Senhas

Eu não gosto do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto

Eu aguento até rigores
Eu não tenho pena dos traídos
Eu hospedo infratores e banidos
Eu respeito conveniências
Eu não ligo pra conchavos
Eu suporto aparências
Eu não gosto de maus tratos

Mas o que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto

Eu aguento até os modernos
E seus segundos cadernos
Eu aguento até os caretas
E suas verdades perfeitas

O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto

Eu aguento até os estetas
Eu não julgo competência
Eu não ligo pra etiqueta
Eu aplaudo rebeldias
Eu respeito tiranias
E compreendo piedades
Eu não condeno mentiras
Eu não condeno vaidades

O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Não, não gosto dos bons modos
Não gosto

Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem

[ Adriana Calcanhoto ]

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Desacerto de passos

Uma vez eu me sentei com a * e a expliquei realmente porque eu havia “sumido”. Porque é que não tínhamos ficado juntas. Não era culpa de ninguém. Seria injusto – e até estanho dizer que foi por culpa dela. Não foi. As neuroses são minhas, os sentimentos em descompasso, eram os meus.

Sentei para essa conversa quando eu estava solteira e sem procurar nada/ninguém. Justamente para não dar a impressão errada de “agora que estou feliz, posso resolver minhas pendências” e nem a impressão de “estou considerando voltar”. Não era nem uma coisa nem outra. Pode ser que esse acerto de contas, por assim dizer, fosse só mais uma das minhas tentativas de ficar bem comigo mesma. Pode ser não, era, com quase toda certeza. Entretanto, quando você passa por certas coisas, você sabe o que causa nos outros. Que reações, que impressões, que sensações. Quando eu saí daquele quarto com a pretensão de não voltar mais, eu sabia muito bem o que aquela pessoa jogada na cama aos prantos estava sentindo, afinal, quantas vezes eu mesma não senti issso?

Então eu fui explicar que… eu não sou capaz de suportar uma adoração. Não sou capaz de levar um relacionamento onde a pessoa com a qual eu esteja faça o que eu quero ao meu levantar de telefone. Se eu disser ” não posso hoje” e só, sem nenhum tipo de explicação e isso for aceitado mais de uma vez, eu acho estranho porque… eu não ligar, não perguntar e não poder é sinal de desinteresse. Sinal de que as coisas podem estar dando certo, conforme estejam mas que, eu preciso de mais. Eu sempre preciso de mais. Eu sinceramente nem sei enumerar tudo o que há de errado comigo e não entendo por que, no começo, eu possa ser algo fascinante, encantador e perigoso, até. Aliás, de tudo o que eu sou no começo dos relacionamentos, é só isso que costuma durar no final: a sensação de perigo perto de mim.

Acho que ainda não mudei porque não sei exatamente o que mudar. Eu dependo dos outros mas, se alguém depende muito de mim, eu não sei como lidar com isso. Não sei como sair do meu auto – centrismo. É com certeza uma das coisas que eu preciso melhorar mas, ainda não descobri como.

Só que, incomoda a mim também, essa impossibilidade de abrir, de esperar mais um pouco, de entender como eu posso estar do lado de alguém que precise muito de mim.

Não é pessoal. Eu tenho que entender como acertar o passo.

Ontem eu andava por um bairro que venho evitado há um tempo. Tive duas reações:

– Peguei o telefone. Mas aí, pensei: – O que vou dizer? Oi, estou aqui na frente do seu prédio? (seria ridículo). Ou que mais? – Depois de amanhã eu também devo passar aí por perto. (outra vez, ridículo).

– Caminhar mais devagar. – Em determinado momento, me vi pensando comigo mesma: sua idiota, ela não vai estar andando na rua a esta hora!

Hoje, enquanto o ônibus acabava de passar pela praia de Botafogo, é que pensei que, talvez tivesse tomado a decisão errada.


Letting it out

Ao invés de reclamar e bradar aqui a minha falta de felicidade em tantos setores – ainda mais quando você tem que dormir chorando por falta de compreensão alheia (pra certas coisas não se precisa de paciência e sim, compreensão e respeito pela pessoa que você é), vou mostrar algo melhor e que quiçá, surtirá mais efeito.

Em um espisódio da série Glee, existe um menino, Kurt, que é homossexual. Ele é filho de um viúvo meio bronco e vivia com medo do pai, que o pai descobrisse sobre ele e o expulsasse de casa, ficasse bravo, coisas assim. Na verdade, tudo o que ele queria, era ter uma relação normal com esse pai, que ele o aceitasse do jeito que é. Neste episódio, em que ele canta I wanna hold your hand, dos Beatles, ele lembra de diversas cenas da infância onde o atrito não era tão grande, tempos dos quais ele sentia falta, pela pacividade de convivência.

Em um outro episódio, o pai dele o pega de collant na sala dançando Single Ladies, sendo que ele era a Beyoncé! Para agradar o pai, ele acaba entrando na equipe de futebol americano e traz a sua contribuição ao time. Como o chute poderoso do time era o dele, o pai se encheu de orgulho. Ao chegar em casa, ele revelou que era gay. O  pai disse que sabia, que sabia desque que ele tinha três anos. Disse que preferia que ele não fosse mas ele é, e que estava tudo bem. Reação tipicamente televisiva. Com a maioria de nós não foi nada assim.

Quanto à mim, vamos voltar um pouco: Eu sou uma pessoa quieta. Acho que sempre fui. Senão sempre, desde que a minha irmã nasceu, pelo menos. Quando eu aprendi a ler, fui ficando cada vez mais e mais silenciosa. Eu tinha companhia, eu tinha com quem conversar, tinha um livro nas mãos. Fui uma criança normal. Tinha amigas, brincava, conversava, me machucava, gritava… Mas chegava em casa e, nos momentos nos quais eu não estava brincando com a minha irmã, eu serenava.

Quando a adolescência chegou, tive momentos bastante conturbados e complicados, como todo mundo. Minha maneira de falar, de conversar melhor, se resumia à escrita. E isso permanece, até hoje. Sempre, de uma maneira geral, a melhor parte da minha casa, foi o meu quarto, a minha cama e o meu travesseiro. Eu gosto de me isolar, eu procuro me isolar, eu preciso me isolar. Só assim, penso  melhor. Só assim consigo concatenar as coisas e me sentir mais eu.Eu não desprezo de todo a interação social, longe de mim mas, quando interagir socialmente vira uma obrigação, eu não consigo… Aquilo fica crescendo e se entalando em mim de um jeito ruim. Uma hora, eu tenho que let it out.

E foi.


Polifonia

O lápis deslizava suavemente nas folhas de papel carimbadas, incomodava um pouco, o grafite parecia um pouco molenga, exigindo de mim um esforço extra para gravar as palavras à letra cursiva no papel- rascunho. Tamanha a força era utilizada que, quando precisava apagar alguma palavra ou mesmo frase inteira, os fragmentos do que tinha sido escrito anteriormente resistiam à borracha. Talvez pelo fato da borracha não ser clara. Eu havia escolhido uma preta.

Do lado detrás da borracha, colada em um pedaço de post- it cor de rosa, jazia uma frase de Mallarmé descontextualizada mas que serviria em determinada discussão se fosse o caso. Não era. Tive que dar um jeito de, discretamente, enfiar aquele papel por dentro do meu apontador. Eu poderia ter decorado a frase mas tantas informações me rodavam a cabeça…

O formalismo russo, o new criticism, a crítica sociológica, a crítica psicanalítica, o estruturalismo, mímeses, narrador… Tudo no mesmo bolo sem sentido solto. Todos os meus cadernos das quatro teorias da literatura e da literatura comparada III cursada duas vezes. O livro do Benjamin, a Teoria da Literatura “Revisitada”.

Antes de entrar na sala, apareceu uma menina a puxar papo com a moça sentada ao meu lado, falava alto e animadamente, me dando vontade de dizer… querida, esses são meus últimos minutos de concentração antes da prova que vai definir meu próximo ano. Por favor, cale a boca.

Durante três horas e meia, tudo menos o silêncio. Praticamente de meia em meia hora, o rapaz atrás de mim soltava um longo suspiro no qual se misturavam tédio e cansaço.

O bom humor de um dos professores fiscais de prova retinia em sorrisos. Ele trouxe uma garrafa térmica de café e nos ofereceu em cortesia por aquele momento. Sabíamos tratar-se também de uma prova de resistência. Ele saltitava pela sala, atendia o telefone e de vez em quando, saía.

O outro mais calmo, se limitava a olhadas a nenhum ponto específico por cima dos óculos de leitura. Fala baixa e serena, respeitada por todos. O maior renome da Univerdade no campo em que desejamos nos especializar.

Os pingos do ar condicionado no carpete do RAV, fazendo com que a sala guardasse um aspecto e odor de mofo difícil de limpar das narinas. Não que fizesse muita diferença uma vez que, a cada dúvida mais forte a respiração era prendida. Como era mesmo o nome do teatro do Brecht? – épico – a resposta vinha soprada do nada, alguns minutos depois.

O texto é um momento de configuração da mimésis. – Em uma intuição de que seria esse um dos temas sorteados, fizera repetir pela escrita umas dez vezes esta mesma frase. De uma forma ou de outra, ela havia que ser encaixada no texto.

Às 16:30 , entrou a professora das aulas sobre o Deslocamento. Aulas que vinha fazendo como ouvinte. Foi aquela mulher já de cabelos grisalhos (mas que no entanto não era velha) que lhe apresentou um dos livros mais lindos que lera no ano. Seu rosto todo era de uma benevolência para com ela, tão empolgada numa aula em que nem sequer seu seminário valeria pontos. Num intervalo de quinze minutos, ela pigarreava. Fazia mais de dois meses que tentava se livrar de uma laringite. Chegou à sala trazendo biscoitos amanteigados com goiabada. No que sentou, sussurrava audivelmente com o outro professor de literatura francesa.

Sentia atrás de mim os olhos daquela dupla insuportável de Latim, do menino que, no primeiro período da graduação eu me recusava a cumprimentar. Ainda que houvesse genuinidade em seu cumprimento, suas feições deixavam entrever uma necessidade de se mostrar para os coleguinhas de classe e, para mim, o ingresso no bloco de concreto simbolizava primariamente a morte do ensino médio, que prolonguei por quatro anos.

Enquanto as canetas já marcavam furiosas o papel almaço, eu ia lentamente passando a limpo aquela correria. Platão, República, Aristóteles,Poética, Idéias, Mímeses, Catarse, Verossimilhança, Tragédia, Idade Média, Renascença, Nascimento do Romance, Modernidade, Aspectos Teóricos, Pós Modernidade e conclusão. Ufa! Enfim…

Zíperes e cliques de estojos e mochilas se abrindo e fechando, os primeiros passos em direção à porta.

Antes do começo da prova, na chamada, Gustavo não tinha esquecido onde se dava a tônica do meu nome. Havia me cumprimentado no corredor, talvez tenha lembrado de que, esse ano, na minha formatura, ele fora o paraninfo e fui eu quem o homenageou. Talvez o corte e a cor do cabelo tenham camuflado minha aparência. À minha saída, o sorriso da Cláudia veio acompanhado das palavras BOA SORTE. E só então… o silêncio.

 


Schecter feelings

“Interpretation of the 14° Sagittarius symbolic degree

“Heaps of documents and books are piled up here and there in the study of a scholar.”

Creative, hard-working, and devoted character. One is endowed with great intellectual capacities, a vivid imagination, and an excellent memory. Brilliant success and fame can be obtained in sciences, theology, history, or literature. The natal chart indicates whether one is wealthy.

Venus in Sagittarius

Venus describes your affective life. On the day of your birth, she is found in Sagittarius. Emotion is always a form of discovery or exploration. Your feelings unfold with unfailing ardour. There is in you a quest of the unknown and an intense thirst for new sensations. A lasting relationship must be enriching, amazing and unpredictable. Love is such an adventure! The partner is constantly to be discovered and passion is to be revived through new-ness, foreign matters and people. Nothing can enlarge your horizon and give your life a new momentum and a new meaning better than your relationships. Everything becomes possible for two persons together: evasion, travelling and discovery. Your fieriness and your enthusiasm work wonders when your ideals are shared. You cannot love without enthusiasm, fieriness and the desire to discover. Therefore, you cannot be satisfied with a still, or perfect, relationship: evolution, again and again, is the key to your affective balance. Your thirst for experiences may be detrimental to your couple if it is too conniving… What remains to be discovered when the two partners know themselves too well, when all secrets are mutually shared? More than anyone, however, you find new reasons to share, to harness your resources and to fuel your love.

Venus in House VIII

Venus expresses her characteristics through the 8th House values. You leave to other people peaceful love stories, and smooth adventures devoid of passion and tears. Your affectivity is well-adapted to crises, thrills, wounds, and healings. It is probable that, more or less consciously, you create some degree of tension within your couple’s life. Love grows on contrasts, transformations, and self-questionings. Your ideal? To die out of love! Your sexual drive is powerful and demanding.

Venus Dominant

If Venus is part of your natal chart’s planetary dominants, in astrology, you are said to be a Venusian: you are a sensual and emotional person particularly receptive to the natural likes and dislikes aroused by your contact with people. You are prone to frequent instinctive aversions and true passions which are exclusively driven by the feeling of love. The heart has its reasons which Reason knows nothing of… Your balance is based on the richness of your affective life. Without love, the Venusian is resourceless, lost, and deprived of any reason for living. You have an obvious and strong will to charm and to arouse the attachments without which you cannot properly function. Every area of your life is thus marked by your affectivity. The danger is that you may “be taken in” by charm. In such cases, you would prefer to keep your emotions under better control. Thus, hyper-sensitivity has its own inconveniences. Nevertheless, better than anyone else, you know how to play with feelings and attractions. Although you are sometimes caught in the traps of an over sensitive emotionalism, feelings remain your best assets in many circumstances. There is another aspect to the Venusian dominant. According to the Tradition, this planet rules the Arts, and you are endowed with some degree of artistic dispositions, ranging from good to excellent.”

site Astrotheme.com

It suits me, right?


Ok ALice. You can chase me like I was your white rabbit. I know you think it´s more fun that way.

But I may be running out of time. For what? I still don´t know.


Heart beats

“I took a deep breath and listened to the old bray of my heart: I am, I am, I am.” (Sylvia Plath – The Bell Jar – cap. 20)

No meu coração martela o eu sou, eu sou, eu sou, em contraposição ao não, não não, enquanto lágrimas me afogam os olhos. A melhor forma de se saber vivo é morrer um pouco. E não é isso o que fazemos a cada dia?

Hoje, eu morri – e me morro em você. Amanhã, nos livros, depois de amanhã, na prova e assim vai. Num ciclo, até voltar para você.

O tiquetaquear dos segundos agora me diz que uma hora da minha vida fora perdida, com o horário de verão. Hoje meu cheiro foi um pouco menos meus, minhas mãos tinha no que tocar e meus lábios o quê beijar. Meu sangue pulsava contente, sem sair pelos poros, contando… eu sou, eu sou, te sou.


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