Prozac Nation

Every depressive is an island
Depois de uma leitura frenética que não me deixava pular páginas ou sossegar enquanto não acabasse, terminei, enfim, de ler Prozac Nation. O impulso dessa leitura é o mesmo que me levou à Garota Interrompida e ao The Bell Jar. Na verdade, a qualquer romance, memória, biografia ou ficcionalização que tenha a ver com depressão, problemas psicologicos e/ou mentais, internação em clínicas mentais e suicídio.

A esperança é que um dia eu ache um livro que eu poderia ou deveria ter escrito. Que tenha tanto de mim que as coisas façam sentido. Elas continuam não sabendo.

Num Afterwords escrito em 1995, Elizabeth Wurtzel parece uma desculpa para si mesma, por ter escrito esse livro. Aparentemente,  ela ajudou muitas pessoas com seu relato e outras tantas disseram : “who cares? You´re not the only young woman on Prozac or with depression”.  Na verdade, em certas partes, como no epílogo, ela tenta comentar de maneira algo crítica como a “depressão” foi quase que uma pandemia e o quanto as industrias farmacêuticas e os médicos estavam enfiando Prozac pela garganta da população americana abaixo. Por isso o ícone dos anos 90 foram a apatia. Nós estamos tristes, na maioria das vezes. Não estamos felizes.

Mas… life on Prozac, não admite que você seja miserável. Então você só não é feliz, nem triste. É apenas, entediante, acha tudo entediante, porque, sob a medicação as cores do mundo são assim, todas cinzas:  Here we are now, entertain us, lembra?

Deixando de lado a confusão de depressão, distúrbio de humor, ciclotimia, distúrbio bipolar (episódios depressivos combinados com episódios de mania), o mais interessante que eu achei, foi a definição de atypical depression. Uma pessoa que sofre de uma depressão crônica – não somente de acessos depressivos e ocasionais episódios de mania. Esses episódios é que fazem a pessoa algo funcional:

“The atypical depressed are more likely to be walking wounded, people like me who are quite functional, whose lifes proceed almost as usual, except that they´re depressed all the time, almost constantly embroiled in thoughts of suicide even as they go through their paces.

Atypical depression is not just a mild malaise – wich is known diagnostically as dysthymia – but one that is quite severe and yet still somehow allows an apperance of normalcy because it becomes, over  time,  a part of life. The trouble is that as the years pass, if untreated, atypical depression gets worse and worse, and its sufferers are likely to comit suicide out of sheer of frustration with living a life that is simultaneously productive and clouded by constant despair.”

Acho que a boa intenção de Elizabeth era, além de por pra fora algo que ela precisava por para fora – podendo ela fazer isso em um diário, por exemplo, é simplesmente mostrar que depressão não é legal. Não é como simplesmente ficar louco e que, nos anos noventa, com toda a indústria promovendo o loser é cool, ser deprimido é cool, muita gente se deixou levar ou ficar. Acho que Elizabeth quis deixar todos enojados, quis mostrar o pânico de ficar confinado num hospital.

Mas, por outro lado, eu acho que exagerou a mão nos episódios de mania – e eles foram muitos. O que, obviamente, rendeu um filme com a Cristina Ricci e sinceramente, não consigo imaginar alguém seriamente deprimido correndo atrás de bandas a noite inteira em Dallas, se embebedando e se drogando como se não houvesse amanhã na esperança de ter alguma coisa que faça a infelicidade ter um sentido, tendo abortos expontâneos sem se saber grávida, dando um accidental blowjob. Indo passar um mês em outros Estados ou outros países. Eu simplesmente não tenho energia para metade disso. Achei estranho, achei irreal.

Plausível sim, os momentos em que nunca algo como a cama desempenham um papel tão crucial que você simplesmente não consegue se levantar dela, não consegue ter energia para abrir a boca e se alimentar ou, levantar pra tomar um banho se torna uma questão filosófica e complicada. Eu concordo. Eu entendo. O esforço para simplesmente pôr o pé no chão e a insuportabilidade desse ato são revoltantes.

Não dá pra julgar ninguém nessas condições. As mutações da depressão tornam cada pessoa sob o efeito da doença, um saco receptório de coisas ruins e de maus relacionamentos, sentimentos exacerbados, lágrimas e desejos funestos.

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About M.

Moira A fatalidade cega. Em grego arcaico, a parte ou quinhão. Em Homero, a parte da vida decretada a cada indivíduo. O destino traçado do qual não se pode fugir e a pré – disposição à tragédia como condição inegável do ser humano. Lei suprema da vida cósmica à qual todos, humanos e Deuses estão sujeitos. Mayra Lopes Intimamente ligada a conceitos. Hardly one. Filosofia e literatura, eros e pathos, hybris e moira. Um conglomerado de hormônios e sensações. Acima de tudo, sensações. Dores e ansiedades. Mais uma fragmentação pós – moderna, com uma diferença: procuro saber de mim. Quero que o mundo se exploda. Eu só ligo para mim e para os meus. Para a arte, o pensamento e as sensações.Felicidade como estado efêmero versus desespero. Suicídio versus a vontade da dor de aprender, a procura. Descendente de espanhóis e poloneses, mantengo uma estima profunda por la lengua que me dice y por la guitarra catalán. Costumo falar de Cortázar e de literatura alemã. Tenho Goethe tatuado nas costas, sobre aquele olhar. Qual? O de todos. Devaneio, entre Miller, Pessoa e nuvens. As vezes também em algodão – doce.A minha escrita, chuva oblíqua. Passo as horas, entre PJ Harvey e um quarto cheio de história. Cheio de mim mas tão cheio de outros, que as vezes, não reconheço. Virgínia Woolf sem a escrita, depressiva. Sei quase tudo sobre os dark places e as pílulas, todas, conheço-as quase todas. Nenhuma nunca me trouxe felicidade, só torpor. Brinquei de Susanna Kaysen por três dias, me internei, me dei alta; no meio tempo, me chamaram pra fugir. Gosto de dar flores de presente mas ganhei poucas. As minhas preferidas são margaridas. É, simples assim. Detesto pleasure delayers. Não vejo sentido. Se tiver que ser algo melhor, vai ser, durante dias, meses, anos. Não há necessidade de adiar nada por causa disso. Eu sei o que eu quero, detesto jogo ( mas sei jogar como ninguém). Meus exs/minhas exs não realmente saem da minha vida. Estão todos por aqui, orbitando. Falo da maioria com carinho de como se as coisas estivessem acontecido ontem. Costumo ser amigas deles e delas. Tenho uma tendência a lembrar primordialmente das coisas boas. Na tela, de preferência a Europa e seus idiomas entre os filmes.Os finais da Lola e os meus possíveis finais. Entrei para Letras, achando que letras é alguma coisa da qual se vive, para descobrir que, apesar de uns e outros, eu não vivo, respiro. Aqui, onde a menina cresce e a mulher se esconde. Isto ainda não sou eu. “I open once and you call me Devil`s gateway”. Prazer, M. View all posts by M.

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