” Dearest, I feel certain that I am going mad again”

 

” Não, agora nunca mais diria, de ninguém neste mundo, que eram isto ou aquilo. Sentia-se muito jovem; e, ao mesmo tempo, indizivelmente velha. Passava com uma navalha através de tudo; e ao mesmo tempo ficara de fora, olhando. Tinha a perpétua sensação, enquanto olhava os carros, de estar fora, longe e sozinha no meio do mar; sempre sentira que era muito, muito perigoso viver, por um só dia que fosse. Não que se julgasse inteligente, ou muito fora do comum. Nem podia saber como tinha atravessado a vida com os poucos dedos de conhecimento que lhe dera Fräulein Daniels. Não sabia nada; nem línguas, nem história; raramente lia um livro agora, exceto memórias, na cama; mas como a absorvia tudo aquilo, os carros passando e não diria de Peter, não diria de si mesma:sou isto ou sou aquilo.

Seu único dom era conhecer as criaturas quase como instinto, pensava, seguindo seu caminho. Se a deixavam numa sala com alguém, eriçava-se como um gato; ou ronronava.

(…)

Importava então, indagava consigo, encaminhando-se para Bond Street, importava mesmo que tivesse desaparecido um dia, inevitavelmente? Tudo aquilo continuava sem ela. Sentia-o? Ou seria um consolo pensar que a morte acabava com tudo, absolutamente? Ou, de qualquer maneira, pelas ruas de Londres, no fluxo e refluxo das coisas, talvez sobrevivesse, Peter sobrevivesse, vivessem um no outro, ela fazendo parte, estava certa, das árvores de casa; daquela casa ali, tão feia, toda caindo em pedaços como estava; parte da gente que nunca havia se encontrado; espalhando-se como uma névoa, entre as criaturas que melhor conhecia e que a sustentariam nos seus ramos, como vira as árvores sustentar a névoa, embora isso esparzisse tanto a sua vida, e a si própria…”

WOOLF, Virgina. Mrs Dalloway. Tradução de Mário Quintana.1a. Edição. Abril Cultural. Julho de 1972

 

Adeline Virginia Woolf nasceu em vinte e cinco de janeiro de 1882 e faleceu em 28 de março de 1941.Seria redundante dizer que Virginia foi uma das maiores romancistas, ensaístas e contistas de sua época e que, sua influência permanece em muito dos escritos vigente, entre eles, o engenhoso modo de fluxo de consciência que é mostrado em sua plena forma na passagem acima.

Não apenas os escritos de Virginia eram fascinantes e plurais, quase caleidoscópios, como também sua vida, cheia dos tantos altos e muitos, muitos baixos para os quais não conseguiram extrair uma explicação plausível. Uma escritora talentosa, com um marido devoto e que não resistiu. Virginia cumpriu seu legado colocando a melancolia em todas as mulheres, inclusive nas mais planas donas de casa. Em alguma parte de nossos dias, questionamentos como os feitos acima,que nunca envelhecem, podem ser feitos por qualquer mulher no mundo, inclusive no mundo hiper – pós moderno dos dias de hoje. As dores são quase sempre as mesmas. A solidão, o atordoamento perante às luzes, os carros, as tarefas a cumprir, que lugar relegar ao seu amor e quanto se pode extrair de alguém que lhe ama tanto que está pronto a sacrificar a própria vida pela sua?

Após uma das piores crises depressivas, indiagnosticáveis propriamente, como a maioria delas o é, encheu o bolso do casaco de rochas e caminhou, pela última vez até o River Ousen onde se deixou afundar, se levar pela correnteza, finalmente deixando que a água interrompesse as vozes, interrompesse a loucura, interrompesse tantas das coisas das quais não havia como livrar-se. Não nos cabe perguntar o por que. Temos somente que aceitar que não poderia ser de outra maneira. Como viver num mundo em que não é senão um cacto de mundo, em que o amor parece estranho e que a pena é o sentimento que é suscitado pelas pessoas? Como conviver com a idéia de um marido fiel e que abdicou de sua própria carreira em benefício da saúde da bem amada? Como suportar o mundo?

Morrer neste caso, seria egoísmo ou o esgotamento de uma vida pesada mas que, no entanto nos trouxe munição para uma vida inteira?

Thank you, Virgina. Without you, must of us wouldn´t even exist.

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About M.

Moira A fatalidade cega. Em grego arcaico, a parte ou quinhão. Em Homero, a parte da vida decretada a cada indivíduo. O destino traçado do qual não se pode fugir e a pré – disposição à tragédia como condição inegável do ser humano. Lei suprema da vida cósmica à qual todos, humanos e Deuses estão sujeitos. Mayra Lopes Intimamente ligada a conceitos. Hardly one. Filosofia e literatura, eros e pathos, hybris e moira. Um conglomerado de hormônios e sensações. Acima de tudo, sensações. Dores e ansiedades. Mais uma fragmentação pós – moderna, com uma diferença: procuro saber de mim. Quero que o mundo se exploda. Eu só ligo para mim e para os meus. Para a arte, o pensamento e as sensações.Felicidade como estado efêmero versus desespero. Suicídio versus a vontade da dor de aprender, a procura. Descendente de espanhóis e poloneses, mantengo uma estima profunda por la lengua que me dice y por la guitarra catalán. Costumo falar de Cortázar e de literatura alemã. Tenho Goethe tatuado nas costas, sobre aquele olhar. Qual? O de todos. Devaneio, entre Miller, Pessoa e nuvens. As vezes também em algodão – doce.A minha escrita, chuva oblíqua. Passo as horas, entre PJ Harvey e um quarto cheio de história. Cheio de mim mas tão cheio de outros, que as vezes, não reconheço. Virgínia Woolf sem a escrita, depressiva. Sei quase tudo sobre os dark places e as pílulas, todas, conheço-as quase todas. Nenhuma nunca me trouxe felicidade, só torpor. Brinquei de Susanna Kaysen por três dias, me internei, me dei alta; no meio tempo, me chamaram pra fugir. Gosto de dar flores de presente mas ganhei poucas. As minhas preferidas são margaridas. É, simples assim. Detesto pleasure delayers. Não vejo sentido. Se tiver que ser algo melhor, vai ser, durante dias, meses, anos. Não há necessidade de adiar nada por causa disso. Eu sei o que eu quero, detesto jogo ( mas sei jogar como ninguém). Meus exs/minhas exs não realmente saem da minha vida. Estão todos por aqui, orbitando. Falo da maioria com carinho de como se as coisas estivessem acontecido ontem. Costumo ser amigas deles e delas. Tenho uma tendência a lembrar primordialmente das coisas boas. Na tela, de preferência a Europa e seus idiomas entre os filmes.Os finais da Lola e os meus possíveis finais. Entrei para Letras, achando que letras é alguma coisa da qual se vive, para descobrir que, apesar de uns e outros, eu não vivo, respiro. Aqui, onde a menina cresce e a mulher se esconde. Isto ainda não sou eu. “I open once and you call me Devil`s gateway”. Prazer, M. View all posts by M.

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