Tango no chão de madeira

 Noelle só conseguia pensar. Breves eram os momentos de entrega na hora em que mais deveria deixar-se levar. Sabia o que aconteceria mesmo que não tivesse sido planejado. Pelo menos, não por ela. Olívia por baixo, Olívia, uma síntese quase circense das mulheres que mais amara. Nunca tinha dado por isto, até aquele momento e era isso o que lhe distraia. Ora lembrava de uma, ora lembrava da outra. A segunda, demorava-lhe mais em pensamento. Estou aqui, fazendo isto, e ela, o que será que faz, será que dorme? Será que me perdoaria, se soubesse?

Na verdade, Noelle se sentia culpada, como se ambas a destratassem se soubessem que estava ali com Olívia, ainda que tenham sido elas duas que tivessem terminado tudo, da pior maneira possível. Foi como um tango, Noelle rodopiando nas mãos de ágeis bailarinas que a jogavam no chão ou contra as outras, Olívia fora a última que a catara do chão, por hora. Apenas esperava que ela lhe depositasse delicadamente ao chão de tacos de madeira, ao invés de livrar-se dela com força e determinação.

Talvez também Noelle sintetizasse, significasse alguma coisa, por que não? Nunca saberia e nem importa, ambas personificando solidão e desejo por outras pessoas. Não era Olívia que Noelle desejava, não era Noelle que Olívia desejava. Mas, qualquer coisa que as impedisse de dormirem sozinhas. Os braços uma da outra, suas bocas, tão parecidas com aquelas de quem lembravam e, se fechassem os olhos poderiam até fingir. Como Noelle fingia ter tudo sob controle. Como Olívia fingia acreditar que era para ser assim e que Noelle estava ali por inteiro. Não estava. Olívia menos consciente, deixava o corpo pensar mais alto.

Não chegaram a se separar, apenas se abraçaram, de lado, de mãos dadas. – Boa noite, querida.

Amanhã decidimos se vamos mentir e dizermos uma outra de que deveríamos ter feito isso antes ou que nos veremos frequentemente a partir de agora. Foi mais que o medo de dormir sozinha. Foi a desgraça de ser constantemente jogada ao chão de tacos de madeira.

Advertisements

About M.

Moira A fatalidade cega. Em grego arcaico, a parte ou quinhão. Em Homero, a parte da vida decretada a cada indivíduo. O destino traçado do qual não se pode fugir e a pré – disposição à tragédia como condição inegável do ser humano. Lei suprema da vida cósmica à qual todos, humanos e Deuses estão sujeitos. Mayra Lopes Intimamente ligada a conceitos. Hardly one. Filosofia e literatura, eros e pathos, hybris e moira. Um conglomerado de hormônios e sensações. Acima de tudo, sensações. Dores e ansiedades. Mais uma fragmentação pós – moderna, com uma diferença: procuro saber de mim. Quero que o mundo se exploda. Eu só ligo para mim e para os meus. Para a arte, o pensamento e as sensações.Felicidade como estado efêmero versus desespero. Suicídio versus a vontade da dor de aprender, a procura. Descendente de espanhóis e poloneses, mantengo uma estima profunda por la lengua que me dice y por la guitarra catalán. Costumo falar de Cortázar e de literatura alemã. Tenho Goethe tatuado nas costas, sobre aquele olhar. Qual? O de todos. Devaneio, entre Miller, Pessoa e nuvens. As vezes também em algodão – doce.A minha escrita, chuva oblíqua. Passo as horas, entre PJ Harvey e um quarto cheio de história. Cheio de mim mas tão cheio de outros, que as vezes, não reconheço. Virgínia Woolf sem a escrita, depressiva. Sei quase tudo sobre os dark places e as pílulas, todas, conheço-as quase todas. Nenhuma nunca me trouxe felicidade, só torpor. Brinquei de Susanna Kaysen por três dias, me internei, me dei alta; no meio tempo, me chamaram pra fugir. Gosto de dar flores de presente mas ganhei poucas. As minhas preferidas são margaridas. É, simples assim. Detesto pleasure delayers. Não vejo sentido. Se tiver que ser algo melhor, vai ser, durante dias, meses, anos. Não há necessidade de adiar nada por causa disso. Eu sei o que eu quero, detesto jogo ( mas sei jogar como ninguém). Meus exs/minhas exs não realmente saem da minha vida. Estão todos por aqui, orbitando. Falo da maioria com carinho de como se as coisas estivessem acontecido ontem. Costumo ser amigas deles e delas. Tenho uma tendência a lembrar primordialmente das coisas boas. Na tela, de preferência a Europa e seus idiomas entre os filmes.Os finais da Lola e os meus possíveis finais. Entrei para Letras, achando que letras é alguma coisa da qual se vive, para descobrir que, apesar de uns e outros, eu não vivo, respiro. Aqui, onde a menina cresce e a mulher se esconde. Isto ainda não sou eu. “I open once and you call me Devil`s gateway”. Prazer, M. View all posts by M.

2 responses to “Tango no chão de madeira

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: