Monthly Archives: May 2011

“ Diante do fracasso de sua tentativa de viver “uma história perfeita – aquela que não precisava ser escrita” (p. 121), M.M. se vê condenado ao mito do escritor que deve sacrificar a vida em nome da arte. Vida e escritura parecem excluir-se uma a outra. Embora deseje tanto experimentar sensações com o próprio corpo – ou talvez por isso mesmo – , M.M. encena o sujeito contemporâneo, com suas experiências mediatizadas por infinitas representações e simulações, colecionando sua vida, ao invés de vivê-la. Ou melhor dizendo, vivendo-a enquanto a coleciona, inventando e reinventando o dentro e o fora, o “si mesmo” e o “real”, o público e o particular.”

VIEGAS, Ana Cláudia. A “ invenção de si” na escrita contemporânea

in JOBIM, José Luís e PELOSO, Silvano (org.) Identidade e Literatura, Rio de Janeiro, Roma: de Letras, Sapienza, 2006

M.M. se refere ao escritor Marcelo Mirisola e as aspas dentro das aspas, uma frase do romance Joana a contragosto deste mesmo autor.


Das frustrações

Esse ano, era para ser diferente. Era para ser a distância – maior – dos anos que se passaram. Não digo em termos pessoais (acho que faz tempo que deixei de esperar que minha vida pessoal/amorosa/ o que quer que se entenda por isto seja diferente). Mas no profissional, no acadêmico.

Não está sendo, por enquanto.

Mas calma, só estamos em maio. Não, calma não! Já estamos em maio!!! Já passou carnaval, páscoa, a coisa toda e vai começar a andar quando? E vai começar a empolgar quando? E vai ser minha e parecer que é minha quando?

Pois é…

Enquanto isso tem que lutar com a vontade incontrolável de não começar uma crise de choro assim que abro meus olhos, todas as manhãs.


Das marcas

Vejo uma necessidade de me marcarem e de eu ser marcada. Mais do que gado, mais do que com ferro em brasa. São bocas e unhas, tesão e um sentimento de posse absurdo. Creio, no entanto, não ser posse de mim que necessitam. É a pura e simples posse do meu corpo, do meu ser físico, que não cansa. A posse de algo que não é aquele eu, aquele EU insuportável depois de alguns meses.

Então as marcas impressas à pele branca e delicada. Não as gosto aparentes mas as pessoas querem se inscrever em mim com o nome escrito em vermelho,um estouro em meus vasos sanguíneos. Sangue jorrando por dentro e fora de mim. Eu gostaria antes de uma marca na barriga, um roxo não muito grande em que eu pudesse dizer: tá vendo aqui, seu nome, temporariamente tatuado.

Não ligo para marcas, eu gosto delas, as quero. Ligo para o motivo delas, ligo para uma ostentação que não quero. Minhas marcas, assim como minhas cicatrizes não precisam ser aparentes e nem um chamariz pros outros. Precisam fazer sentido entre nós, enquanto casal. Algo para se olhar e rir junto, passando a mão em cima. Algo para que eu olhe e sinta falta, saudade.

(0:08 – ainda sangro)


I’m sick, you’re tired, let’s dance

“Tonight your ghost will ask my ghost,
Where is the love?
Tonight your ghost will ask my ghost,
Who here is in line for a raise?
Tonight your ghost will ask my ghost,
Where is the love?
Tonight your ghost will ask my ghost,
Who put these bodies between us?”

[ Calcutation theme – Metric ]


Eletrochoque

Caindo – porque vez ou outra também estou sujeita a isto – no meu clichê geracional e nas leituras que andam me enfiado goela abaixo, aí vão alguma(s) declaração(ões):

Hoje eu acordei como se tivesse

cheirado 10 carreiras de pó,

comido 2 kg de açucar,

 tomado 20 expressos.

Mas nada aconteceu ontem, nem hoje e nem amanhã. Sem motivo, passei o dia rindo, pulando e dançando. A melancolia chega agora, na hora que afasto o sono e penso nela. E penso nelas. E a saudade e meu corpo clamando pela reprodução e, e, e… ter que decidir que homem é homem pra mim, que mulher é homem pra mim, pra que homem eu posso ser mulher, para que mulher eu posso ser mulher. E, e, e…


João Paulo e o Garfield

Não tomo vergonha na minha cara que não aparenta meus vinteecinco anos. Um singelo caderno com a capa do Garfield faz as minhas vezes de scrapbook e anda até meio gordinho.

Eu não leio jornal. NUNCA. Pra quê? Morte, morte, morte, violência, assalto, chuva, terremoto, atentado e a coluna social que… boring demais prestar atenção em socialites que ninguém reconhece e sub – celebridades. Mas eu tenho uma sorte de pegar o jornal nas horas certas e ter comigo certas peças, artigos, resenhas, críticas e crônicas bem interessantes.

Garfield não discrimina. Nele há desde textos de apoio para que eu escrevesse minhas dissertações à época do Ensino Médio, a resenhas de coletâneas de contos, contos de verdade (de outras pessoas, claro), artigos sobre leituras essenciais (alguns exemplos? Goethe, Shakespeare, Guimarães Rosa, Pessoa, Proust, Kafka, Borges, Cortázar, Pessoa, Machado. Woolf… não importa. Clássicos que as pessoas tem que ler para se tornarem bons leitores, críticos e livre pensantes – e bons escritores também). Reportagem que marcou meu medo da publicação, chamado “Pilha das Ilusões”, sobre a pilha de livros enviados por esperançosos pretensos escritores às editoras e que estão fadados a uma vida em conjunto com as traças, crônicas sobre a decadentização da língua, resenhas sobre autores contemporâneos meus e muitas, muitas crônicas do João Paulo Cuenca, da época que ele escrevia em um suplemento semanal do Jornal O Globo (há um blog – abandonado – dessa época). Foi por este suplemento que conheci o trabalho dele. Li dois dos romances, não vi a minissérie. De vez em quando, acompanho as meias palavras que ele deixa escapar no Estúdio I (programa da Globonews).

Mas a escrita pela qual eu me apaixonei, foi a de cronista. Tanto que hoje, retomando e relendo o Garfield, consegui selecionar minhas três crônicas preferidas (as quais não estou conseguindo acessar pela internet e portanto, não poderei linkar). Chamam-se: Lúcio, o lúcido; Presos do lado de fora e, principalmente a crônica cujo título é O que faz valer a pena. A melhor de todas.

Sugiro também a leitura das crônicas escritas em Portugal e no Japão. Sugiro as imagens que as acompanham, e a música da semana. Como, por exemplo… Charlotte Gainsbourg cantando La Collectionneuse (minha música preferida dela) como uma das músicas das semanas.

Favor entrar nestas curtas narrativas sobre o Balneário de San Sebastián ou sobre qualquer outra cidade, no mau humor sobre a futilidade do falecido Tim Festival e na lucidez misturada a neuroses e perguntas, muitas, muitas perguntas. Tantas perguntas que eu decidi retomar meu trabalho em cima destas mesmas crônicas. Das gotas, das pequenas narrativas em que tudo e nada são ditos de forma tão… tão quase impossível, para os dias de hoje.


“As minhas considerações sobre a vida?

– Ah. senhor juiz, – lhe disse – não é possível que eu lhe repita, acredite-me. Veja aqui. veja aqui!

E lhe mostrei a coberta de lã verde, passando delicadamente a mão por cima dela.

– O seu ofício não é recolher e preparar os elementos de que amanhã a justiça se servirá para emitir as suas sentenças? E ainda vem me perguntar quais são as minhas considerações sobre a vida, aquelas mesmas que, para a acusada, foram a razão dela querer me matar? Mas, se eu as repetisse agora, senhor juiz, ficaria com medo que o senhor quisesse matar não a mim, mas a si mesmo, pelo remorso de ter exercido por tantos anos esse seu ofício. Não, não lhe direi nada, senhor juiz! Aliás, é melhor que o senhor tape os ouvidos para não ouvir o terrível barulho causado por um certo rombo na base da barragem, além dos limites que o senhor, como bom juiz, traçou para si e impôs afim de compor sua escrupulosíssima consciência. Tudo isso pode desmoronar – sabia? – num instante tempestuoso como aquele que atingiu a senhorita Ana Rosa. Que rombo? Aquele aberto pela grande enxurrada, senhor juiz! O senhor conseguiu canalizá-lo muito bem nos seus afetos, nos deveres que assumiu, nos hábitos que cultivou. Mas, quando vêm os períodos de cheia, senhor juiz, a enxurrada extravasae sai arrastando tudo o que encontra pela frente. Eu sei. Para mim tudo já está submerso, senhor juiz! Eu me joguei nas águas e agora vou nadando, nadando.

Se o senhor soubesse o quanto já estou longe! Quase não consigo mais vê-lo. Passe bem, senhor juiz, passe bem!”

PIRANDELLO, Luigi. Um, nenhum e cem mil. Tradução: Maurício Santana Dias. Cosac & Naify Edições. São Paulo, 2001.


Comedimento

comedimento

s. m.
1. Moderação.
2. Modéstia.
3. Prudência.

comedir (latim *commetio, -ire, por commetior, -iri, medir, confrontar)

v. tr.
1. Regular convenientemente.
2. Moderar.
v. pron.
3. Tornar-se comedido.
É aquele momento em que você tem vontade de dizer umas poucas e boas para alguém que mereceria ouvir e se cala, porque simplesmente não vale a pena. Não vale nem a pena – além de não saber se pode – julgar essa pessoa de ouvir as tais poucas e boas.
Dá trabalho falar ao vento, a quem tem os olhos e os ouvidos fechados. Uma pena que estas pessoas também não mantenham suas bocas fechadas. Mas também, se mantivessem, seriam fáceis de ignorar.

Buy it, use it, break it, fix it,
Trash it, change it, melt – upgrade it,
Charge it, point it, zoom it, press it,
Snap it, work it, quick – erase it,
Write it, cut it, paste it, save it,
Load it, check it, quick – rewrite it,
Plug it, play it, burn it, rip it,
Drag and drop it, zip – unzip it,
Lock it, fill it, curl it, find it,
View it, coat it, jam – unlock it,
Surf it, scroll it, pose it, click it,
Cross it, crack it, twitch – update it,
Name it, rate it, tune it, print it,
Scan it, send it, fax – rename it,
Touch it, bring it, Pay it, watch it,
Turn it, leave it, stop – format it.

Tech- no- logic

[ Daft Punk ]


Sem nomes – muito menos próprios.

“Quando você tira a roupa
Algo se revela
Você deixa a personagem
E vira atriz”

Tive que re-ver hoje. Odeio a Clarah. Já disse isso aqui algumas vezes. Talvez o ódio, como também já disse aqui seja mais uma questão de proteção, já ante-vendo uma futura (ou não tão futura assim) comparação. Concordo com a exposição a um certo nível e para mim ela tem de ser, de preferência, velada. Não gosto que adivinhem nomes, datas, pessoas, passeios, não gosto que me pensem e achem que me adivinhem a vida, só porque escrevo, só porque esse blog existe, só porque falo.

Também – novamente um comentário repetido – não concordo com a Anaïs Nin falando que os escritores fazem amor com qualquer coisa de que precisem. Ou talvez, concorde em parte. Talvez sim, ela tenha um pouco de razão mas não a toda a razão. O problema é o deixar de fora o leitor, o expectador de arte, o ouvinte de música. Porque sim, e todas estas pessoas que precisam dormir com artistas, escritores, músicos? Porque todo mundo adora se fazer de vítima de nós mas, alguma vez dissemos que precisavamos de algo diferente?

Como vampiros modernos, que tem sede, uma sede infinita, que precisam de corpos e sangue, infligir dor e andar por aí, à luz da lua a procura, à caça. Só que temos então que ser que nem os vampiros “vegetarianos” e bonzinhos da Stephanie Meyer, castos e éticos, puros? Não. E todas as vezes em que a caça somos nós? Desculpe mas, rejeitar a carne oferecida porque… por que mesmo?

E quanto a generalização… não são todos (as) que traem ou que precisam de estímulos constantes e múltiplos o tempo todo, só que sim, a gente inventa. Mas não somos nós, que passamos dias, passamos horas, nos caçando em linhas alheias, em quadros e fotografias, em músicas e acordes. Não seremos nós a apontar com o dedo  e gritar: VOCÊ! É sua culpa.

Vocês já sabiam. No começo, é excitante. Você se vê retratado caleidoscopicamente, de maneiras que nunca esperava. Mas quem disse que um você quer dizer o você? E quem disse que esse eu que escreve sou O eu? Quebro o pacto e o rasgo, com os dentes. Eu não prometi nada e acreditar no que não é prometido, não é ilusão minha, ou de quem me lê, de quem vem por acaso, parar aqui.

Sinto muito mas eu não sinto muito.

p.s. Isso não é um post diarístico. Não tem absolutamente nada a ver com o atual conteúdo de minha vida particular se é que algum dia já teve.


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