O mundo perfeito sem mim

As redes sociais como simulacros de vida.

Todo mundo, os programas de tv, os livros, artigos, monografias e dissertações na Academia, os textos publicados online, falando sem parar sobre como a vida das pessoas da geração y e z anda em conjunto com as redes sociais e avanços tecnológicos já que nascemos e crescemos junto deles e com eles.

Não é só isso. Nossos relacionamentos começam e terminam, na maior parte das vezes, digitalmente. Ou pelo menos são impulsionados – tanto para um começo quanto para um fim.

Deletar se tornou um verbo utilizado para tratar de pessoas. Eu deleto você. Eu exclui você. Eu e você não existe porque EU cliquei em um botão e puf! VOCÊ desaparece. Ou assim as pessoas gostam de pensar.

Engraçado como no começo, você deleta uma pessoa com a qual houve um término que foi feio ou doloroso e você precisa de um tempo, precisa se recuperar, pode ser até que você ainda ame a pessoa e nem esteja com raiva. Mas você precisa daquele tempo para deixar que as coisas saiam de você (como se isso realmente acontecesse). E você não quer ver e nem saber se a pessoa está a percorrer todo o circuito de bares da cidade, fazendo a louca na Lapa, pegando qualquer um(a) que aparece e que bate os cílios. Você também não quer saber se a pessoa está sofrendo muito, tanto ou mais que você, chorando e cantando saudades. Você só precisa de distância, alguma distância. É necessário, é saudável.  Então, alguém deleta alguém. Não há aviso prévio, no geral. Geralmente quem é deletado sabe porque está sendo deletado e, se não sabe, desconfia.

As vezes machuca. Pode ser algo temporário mas pode significar um: você não faz parte da minha vida, eu não quero que você faça parte da minha vida. Não sou seu(sua) amigo(a).

Quando a pessoa acha que passou tempo suficiente, ela pode te readicionar, como quem diz: ok, passou um tempo, te esqueci, estou pronto(a).

Mas e quando, mesmo com a mágoa, permanece ali, aquele nome na sua timeline e você lê e vê todos os dias, torce por aquela pessoa, espera poder um dia falar com aquela pessoa. Você e aquela pessoa, que não simulam vida nas redes sociais, que não se excluem e nem deletam por algum(alguns) motivo(s). E eles podem ser fortes ou fracos, secretos ou todo mundo pode saber quais são. O fato é que, mesmo não se falando, de alguma forma vocês ainda estão um na vida do outro e sabem disso e não fingem que não estão. Mesmo com a mágoa, mesmo com as ofensas, mesmo com as coisas que vocês esperam ver e com as coisas que vocês não querem ver.

E então, um dia uma dessas pessoas deleta a outra. Como quem diz mesmo que não te quer e nem precisa de você na vida dela, que nunca precisou. Ela te DELETA. Nada existiu? O que pode doer tanto a ponto de se retirar de uma vida em que você não estava nem presente – e que nem cutucava ou se fazia presente e, se tentava se fazer, não seria por compreender que era por algum tipo de sentimento bom que essa pessoa nutria ou nutre?

Por que manter por meses uma pessoa que faz mal e assim, sem mais nem menos, deletar?  Essa necessidade de cortar as pessoas, eu não entendo. Como pensei… acho que é normal que as pessoas realmente não consigam entender o próprio teor nocivo. Mas como começar a tentar entender se não há diálogo, se ele é vedado porque “dói demais” ou porque você “soa sedutor (ou sedutora) demais”, mesmo não tendo intenção alguma de seduzir. Uma pessoa não se seduz sozinha, se ela se deixa seduzir, não deve ser por algum motivo? E, meine Liebe, tudo, absolutamente tudo, dói demais.

Então é isso. Um clique, um aperto de botão, um switch entre on e off e uma pessoa é cortada, ela sai da sua vida. E quando nos esbarrarmos na rua? É para atravessar também e corroborar com o seu mundo perfeito, sem mim?

Se incomoda se eu não curtir?

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About M.

Moira A fatalidade cega. Em grego arcaico, a parte ou quinhão. Em Homero, a parte da vida decretada a cada indivíduo. O destino traçado do qual não se pode fugir e a pré – disposição à tragédia como condição inegável do ser humano. Lei suprema da vida cósmica à qual todos, humanos e Deuses estão sujeitos. Mayra Lopes Intimamente ligada a conceitos. Hardly one. Filosofia e literatura, eros e pathos, hybris e moira. Um conglomerado de hormônios e sensações. Acima de tudo, sensações. Dores e ansiedades. Mais uma fragmentação pós – moderna, com uma diferença: procuro saber de mim. Quero que o mundo se exploda. Eu só ligo para mim e para os meus. Para a arte, o pensamento e as sensações.Felicidade como estado efêmero versus desespero. Suicídio versus a vontade da dor de aprender, a procura. Descendente de espanhóis e poloneses, mantengo uma estima profunda por la lengua que me dice y por la guitarra catalán. Costumo falar de Cortázar e de literatura alemã. Tenho Goethe tatuado nas costas, sobre aquele olhar. Qual? O de todos. Devaneio, entre Miller, Pessoa e nuvens. As vezes também em algodão – doce.A minha escrita, chuva oblíqua. Passo as horas, entre PJ Harvey e um quarto cheio de história. Cheio de mim mas tão cheio de outros, que as vezes, não reconheço. Virgínia Woolf sem a escrita, depressiva. Sei quase tudo sobre os dark places e as pílulas, todas, conheço-as quase todas. Nenhuma nunca me trouxe felicidade, só torpor. Brinquei de Susanna Kaysen por três dias, me internei, me dei alta; no meio tempo, me chamaram pra fugir. Gosto de dar flores de presente mas ganhei poucas. As minhas preferidas são margaridas. É, simples assim. Detesto pleasure delayers. Não vejo sentido. Se tiver que ser algo melhor, vai ser, durante dias, meses, anos. Não há necessidade de adiar nada por causa disso. Eu sei o que eu quero, detesto jogo ( mas sei jogar como ninguém). Meus exs/minhas exs não realmente saem da minha vida. Estão todos por aqui, orbitando. Falo da maioria com carinho de como se as coisas estivessem acontecido ontem. Costumo ser amigas deles e delas. Tenho uma tendência a lembrar primordialmente das coisas boas. Na tela, de preferência a Europa e seus idiomas entre os filmes.Os finais da Lola e os meus possíveis finais. Entrei para Letras, achando que letras é alguma coisa da qual se vive, para descobrir que, apesar de uns e outros, eu não vivo, respiro. Aqui, onde a menina cresce e a mulher se esconde. Isto ainda não sou eu. “I open once and you call me Devil`s gateway”. Prazer, M. View all posts by M.

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