Monthly Archives: September 2011

Low profile

Talvez a tag ela devesse ser extinta, já que perdeu sua força. Imagino que ela não figurará mais por aqui. Talvez deletar essa tag seja um sinal de comprometimento com a empresa a que me propus. To let go. Deixar tudo ir, sair de mim, ainda que lentamente, ainda que a cada dia, eu tenha que procurar com atenção por algum pedaço dela que, por acaso ainda esteja incrustado demais em mim, e esfregar, até sangrar, exigindo que saia. Não que eu pense que não existam coisas que valham a pena ser guardadas mas ela precisa sair e creio eu que, sua intensa presença que me sobrecarregava e ao mesmo tempo era tão fugidia, essa presença que eu parecia ser feita para correr atrás (e acolher em mim). Algum dia, pode ser que exista uma outra ela. E os pronomes pessoais do caso reto femininos, se chocarão.

No momento, eu precisa de espaço para se alargar e acolher e tomar conta de si mesma. Eu em primeiro plano e fugindo de vida pessoal, querendo e forçando a vida pública, da carreira em avanço para poder seguir com o ciclo de dedicação – o outro, eu , o outro, eu, os outros, agora. Os alunos, os colegas e os professores, os livros e as palavras.

Sem ela, sem ele, sem nomes. O eu precisa se esconder, se apagar um pouco.


Enjoy the ride

No embalo etílico proporcionado por destilados puríssimos dos seus países de origem, sentindo pulsar uma animação quase despropositada para quem teve um dia cheio e cansativo, inevitavelmente, o telefone nas mãos, passeava pela sua agenda a pensar em quem poderia estar acordado e na rua. Sentia-se sortuda por ainda estar com uma idade em que poderia telefonar de madrugada para alguém que estaria acordado, e atenderia. Coisas de juventude.

E naquele momento, com o embaraço do álcool, esqueceu que havia a mentira e confiou plenamente. Confiou no que já conhecia, confiou numa história que achava que detinha e que era comum. Só no dia seguinte deu-se conta de que, um pacto de silêncio entre dois amantes (ou dois amantes em potencial) era muito mais poderosa do que uma pretensa sinceridade entre um ex- casal.  Se alguém lhe perguntar, não há porque negar o interesse na resposta para a sua “pergunta pessoal”.  Paradoxalmente, tanto a mentira quanto o silêncio fazem sentindo, afinal, quem poderia imaginar alguma reação?

Talvez a melhor reação seja um dar de ombros e pensar que não importa se sim ou não. Se algo aconteceu, não aconteceu, ou se existe um certo platonismo. Não se está falando de um triângulo amoroso mas, de muitos passados e coisas e pessoas que se desejam esquecer. O problema todo, ao começo, é a consternação que estas relações quase incestuosas trazem.

No fim das contas, a confirmação ou negação de algo não fez diferença alguma, nem ao menos trouxe lágrimas. Talvez seja verdade que só tenha um número limitado de sofrimento que você pode sentir com relação a uma pessoa. Ao fazer uma escolha, ela havia passado do ponto de se deixar machucar tão docilmente.

Se fosse possível, desejaria ainda que fossem felizes. Mas a felicidade para este casal seria algo tão tênue, delicado, momentâneo e superficial que, o único desejo realmente verdadeiro que se possa ter é o de que enjoy the ride.

 


A aprendizagem e as (não) dúvidas que a envolvem

Trabalhar dando aulas de outro idioma faz com que se tenha consciência de um uso e percepção ingênua da linguagem, da busca desesperada por significado, por relação entre coisa e signo, por idioma e cultura de um e o nosso, conhecido e familiar.

Dependendo do idioma e da necessidade – muito maior ou menor que pode se ter dele, o quão aberta a pessoa está não somente a assimilar cegamente um conteúdo sem entender que, o conhecimento de um novo idioma o levará a uma ampliação não só da sua cultura mas inclusive da sua gama de expressão de sentimentos, uma vez que existem vocábulos “intraduzíveis” que representam algo ao qual as vezes precisamos nos referir mas não tínhamos meios para tal.

Vejo essa necessidade da tradução, de palavras que se adequem exatamente umas às outras ignorando toda e qualquer diferença, uma falsa sensação de que, se controlarem algumas palavras um texto ou um discurso, tudo estará circuncrito dentro dessa zona de controle que não existe. Aulas de idiomas são locais que frequentemente deixam as pessoas desconjuntadas, principalmente se elas não conseguem sequer formarem uma frase.

Metáforas são ignoradas, até nomes de banda “precisam fazer sentido”. Que sentido é esse que precisa existir e quem incutiu uma idéia de correspondência. Qual é esse cerne da palavra a que se tenta chegar? Ninguém parece se perguntar o que é a palavra e, nem se maravilhas com as possibilidades de expressão, beleza, criação e (des)construção que as línguas oferecem.


Fink wele

As palavras, assim como tudo o mais, escaparam.

Os revisores reclamam – e você nunca tem certeza se é também do seu livro que eles estão falando. Mas, eles nunca tiveram que corrigir provas, não sabem nada sobre ter que passar noites revendo métodos de ensino, pensando e ruminando em soluções, passar uma cultura inteira através de uma língua, captar essas primeiras palavras de mãos dadas com eles e ir soltando, aos poucos, enquanto eles balbuciam.

Eu tenho respeito por vocês. O trabalho com a linguagem é o mesmo construir e destruir para ambos. Mas eu estabeleço as bases e vocês, já as querem prontas.


Cuidado, frágil!

Em horários e locais impossíveis, ouço vozes que bem podem ser as dela e paro, no meio da rua, congelada e com lágrimas me subindo aos olhos, scaneando a rua para procurar possíveis esconderijos, rotas de fuga. As vezes elas não existem, como também não existe a sua voz que ouvi. Você não está no bar pelo qual passei, gargalhando de mim. Talvez você esteja perto, mas eu não sei.

Andam me protegendo de mim, perto de ti. Mal comecei a restaurar os cacos deste vidro delicado que bombeia sangue para meu corpo franzino.

Por dentro de um plástico bolha, numa caixa de papelão, o adesivo diz: cuidado, frágil.

e danificado.


Message in a bottle

This words I drop in emails from abroad, like messages in a bottle. I´m just hoping to find someone with courage enough to kidnap me.


“Pode-se fingir reportar, publicar a autobiografia de alguém. tentando fazer passá-la por real; mas se esse alguém não é o autor, único responsável pelo livro, nada feito. Escapariam a esse critério apenas os casos de embuste literário que são muito raros – e essa raridade não se deve ao respeito pelo nome de outrem ou medo de sanções. Quem me impediria de escrever a autobiografia de um personagem imaginário e publicá-la usando seu nome? (…) Isso é raro porque há poucos autores capazes de renunciar a seu próprio nome.

(…)

a) Autor e pessoa: a autobiografia é o gênero literário que, por seu próprio conteúdo, melhor marca a confusão entre autor e pessoa, confusão em que se funda toda a prática e a problemática da literatura ocidental desde o fim do século 18. Daí a espécie de paixão pelo nome próprio, que ultrapassa a simples “vaidade de autor”, já que, através dela, é a própria pessoa que justifica sua existência. O tema profundo da autobiografia é o nome próprio. (…)O desejo de glória e de eternidade tão cruelmente desmistificado por Sartre, em As palavras, repousa integralmente no nome próprio que se tornou nome de autor. Como imaginar hoje a possibilidade de uma literatura anônima? Valéry já sonhava com isso há 50 anos. “

LEJEUNE, Philippe. O Pacto Autobiográfico: De Rousseau à Internet. BH: Editora UFMG,2008

*na referência do texto estudado, não há o nome da pessoa que fez a tradução do texto.


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