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Para quem acredita que o tempo supera


“rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra o seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é; por isso, ninguém em nossa casa há de dar nunca o passo mais largo que a perna: dar o passo mais largo que a perna é o mesmo que suprimir o tempo necessário à nossa iniciativa; e ninguém na nossa casa há de colocar o carro à frente dos bois: colocar o carro à frente dos bois é o mesmo que retirar a quantidade de tempo que um empreendimento exige; e ninguém ainda em nossa casa há de começar nunca as coisas pelo teto: começar as coisas pelo teto é o mesmo que eliminar o tempo que se levaria para erguer os alicerces e as paredes de uma casa; aquele que exorbita no uso do tempo, precipitando-se de modo afoito, cheio de pressa e ansiedade, não será jamais recompensado, pois só a justa medida do tempo dá a justa natureza das coisas, não bebendo do vinho quem esvazia num só gole a taça cheia. mais fica a salvo do malogro e livre da decepção de alcançar aquele equilíbrio, é no manejo mágico de uma balança que está guardada toda a matemática dos sábios, num dos pratos a massa tosca, modelável, no outro, a quantidade de tempo a exigir de cada um o requinte do cálculo, o olhar pronto, a intervenção ágil ao mais sutil desnível”
NASSAR, Raduan. Lavoura Arcaica – 3a. edição- São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

e não respeita esse tempo, que dizem curandeiro
e nem a dor,
e nem o luto.

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I hope for something but it´s always nothing.


Para amar:

É preciso estar durante a maior parte do tempo num estágio de admiração profunda, quase sagrada pelo outro ser, que este outro desperte um lampejo qualquer de respeito profundo, espanto, compaixão  : uma motivação fora do comum pelo seu trabalho seja por estar fazendo o que ama, seja porque quer fazer a diferença – qualquer que seja ela – em qualquer âmbito, queira difundir algo, formar, discutir, propagar. Ter uma relação consigo mesmo e com o trabalho/estudo que religue esta pessoa ao mundo, à humanidade, a  um sentimento órfico, uma das maneiras de entender e aceitar algo além, fazer disso uma faceta do divino em si e para si (e outros).

Ou uma (pré) disposição ilimitada pra a doação de si ao outro, para o amor, a criação de mundos entre risadas e lençóis em dias de domingo, delicadezas, um acompanhar mesmo em trevas, se pôr inteiramente nele, sentir tanto e tão junto que, se um sofre o outro (pres)sente, sofrendo também. A possibilidade de enxergar uma outra face no além, o divino em um sinal na pele amada.

É preciso que esta pessoa seja um conglomerado de quereres e sentires incessantes que ora a aproximam ora a afastam de todo o mais, entusiasmando-lhe e deprimindo-lhe ao mesmo tempo, forçando a um movimento. A movimentação ao invés da inércia e do escapismo barato por substâncias.

Sem essa admiração, a ruína chega. O sentimento não se sustenta. Não há troca possível com quem não tenha sonhos para dividir ou não faça absolutamente nada para que estes mesmos, ainda que utópicos, passem a ser possibilidade.


Hoje, não.

Depois de algum tempo vivendo, aprende-se que: embora nunca possamos ser capazes de explicar (e tentemos achar milhões de explicações) de por que um amor “acaba”, por que alguém entedia-se, por que deixa-se o outro, essas pessoas que esquecem, que abandonam, que resolvem largar não sentem ou não sentiam aquilo. Não importam frases ou meias explicações como “não sou capaz de manter um relacionamento por mais de x tempo”, ou “eu sou assim mesmo”, “é meu jeito” e similares. É desamor ao outro, principalmente se esse outro deixa de ser uma grande fonte de entretenimento e prazer e vira sinônimo de vida – normal e adulta.

Não sei qual foi o motivo (talvez tenha sido um engano, mas nunca saberei) de.

Hoje, com o trânsito no centro endoidecido num centro da cidade endoidecido por uma passeata incitada pelo governador e uma reunião marcada justamente no centro, para tratar de um assunto desagradável, tive de descer do ônibus na Primeiro de Março, em frente àquela rua. Atravesei o sinal, mas,ao invés de entrar na rua, e me deparar com figuras passadas, de gente que abandona, continuei na Primeiro de Março e entrei na próxima. Perfeito, caí na Rua da Quitanda, a rua certa.

Hoje não era dia de encontrar ninguém, nem por acaso. Digo não e dou meia volta à possibilidade de assombrações, não me deixo ser perseguida por mais do que lembranças,quero que tudo que me chegue seja intocável, invisível, inaudível e impalpável. Se eu fui abandonada, me detenho no papel e me deixo estar longe das vistas, longe de notícias, de radar, longe de tudo, longe de quem quase sempre esteve longe.

Hoje, eu me resguardo e me protejo.

Hoje, não.


Dear not a not a journal

Impressiona-me como “leitores leigos” têm a capacidade de jogar fora, descartar mesmo, anos de teorização com certezas absolutas que aprenderam há anos atrás e que nunca os preocupou.

Por coincidências, são questões com as quais eu lidei e lido na minha vida acadêmica cotidianamente.

As primeiras (e únicas) opiniões que recebi sobre estes escritos que foram transformados em livro e pararam nas mãos das pessoas esta terça, vieram da família.

– Mas, não são contos. Parece um diário.

(E se eu mencionasse as últimas vezes que li Bakthin e Lukács, e toda a problematica dos gêneros literários E dos gêneros discursivos? E se mencionasse uma das minhas últimas aulas do mestrado, na qual especulávamos como os novos formatos de comunicação [e-mail, sms] quem sabe um dia fariam as vezes de epístola em algum romance). Ainda tentei argumentar que a escrita diarística se dá num âmbito privado, sem a intenção (pelo menos, a priori) de publicação, que é datada e contém uma certa cronologia, encadeamento dos fatos, e pode visar um certo propósito de causa e efeito. Não adiantou. Recebi de resposta:

– Você me entendeu.

Depois, escolhe-se a parte preferida, do meio pro fim, onde, supostamente, há um maior desprendimento, uma ficcionalidade maior. Engraçado como se pode achar detectar exatamente aqui ou exatamente ali índices maiores ou menores de ficcionalidade, sendo todo o mais relegado à autobiografia, diarismo.

“You don´t write, you journal.”

Diário por diário, melhor seria continuar com o puramente privado, não?


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