Him

Burroughs and cat

“Os antigos egípcios pranteavam a perda de um gato e raspavam as sobrancelhas. E porque a perda de um gato não pode ser tão tocante e sentida quanto qualquer perda?As pequenas mortes são as mais tristes como mortes de macacos.”*

Quincy. Quincy Frajola. Quin Quin. Um espécie preto e branco. Tão preto quanto branco, por igual. Olhos âmbar e um focinho cor- de – rosa com uma mancha negra. Manhoso e mal humorado, entre Garfield e Frajola nos seus melhores dias de caçador, quando chegou a abater uma cigarra, a qual torturou. O grande querido das vizinhas – tanto a loira quanto a morena, o grande querido das outras gatas e, é claro, o grande querido das mulheres da casa. O amor da minha vida, era um gato que morreu.
Pensar em ir à casa que ia toda semana sem ele, é como imaginar ir a uma casa vazia, onde ninguém me esperará com uma aconchegante pelúcia bicolor a se espalhar ao meu lado, ninguém para determinar que é chegada a hora de chupar o dedo, nenhum miado pela manhã, ninguém para avisar que o leite está fervendo.
Obrigada a viver, passando o meu luto quase como se ele não existisse, com a alma amputada e sabendo que aqueles olhos não mais recairão em mim, que eu não poderei mais esfregar meu nariz no dele e que, quando estiver chorando, não virá ninguém a ficar de vigília ao meu lado, sem arredar o pé e sem dizer nada e nem pedir nada, só querendo que eu melhore, só estando ali para mim. Dizer “amor”, é pouco. Era uma simbiose de espíritos. Nós éramos.

“Eu já disse que gatos servem como Familiares, companheiros psíquicos.”Eles são mesmo uma companhia”. Os Familiares de um velho escritor são suas memórias, cenas e personagens de seu passado, real ou imaginário. Um psicanalista diria que eu estou simplesmente projetando essas fantasias em meus gatos. Sim, de maneira bem simples e literal, os gatos servem como telas sensitivas para atitudes bastante precisas quando escalados em papéis apropriados. Os papéis podem mudar e os gatos podem assumir vários papéis: minha mãe,minha esposa, Joan, Jane Bowles; meu filho, Billy; meu pai; Kiki e outros amigos;Denton Welch, que me influenciou mais do que qualquer outro escritor, apesar de nunca termos nos conhecido.Os gatos podem ser meu último elo com uma espécie moribunda.”
*BURROUGHS, William. O gato por dentro – Porto Alegre, RS: L&PM, 2007

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About M.

Moira A fatalidade cega. Em grego arcaico, a parte ou quinhão. Em Homero, a parte da vida decretada a cada indivíduo. O destino traçado do qual não se pode fugir e a pré – disposição à tragédia como condição inegável do ser humano. Lei suprema da vida cósmica à qual todos, humanos e Deuses estão sujeitos. Mayra Lopes Intimamente ligada a conceitos. Hardly one. Filosofia e literatura, eros e pathos, hybris e moira. Um conglomerado de hormônios e sensações. Acima de tudo, sensações. Dores e ansiedades. Mais uma fragmentação pós – moderna, com uma diferença: procuro saber de mim. Quero que o mundo se exploda. Eu só ligo para mim e para os meus. Para a arte, o pensamento e as sensações.Felicidade como estado efêmero versus desespero. Suicídio versus a vontade da dor de aprender, a procura. Descendente de espanhóis e poloneses, mantengo uma estima profunda por la lengua que me dice y por la guitarra catalán. Costumo falar de Cortázar e de literatura alemã. Tenho Goethe tatuado nas costas, sobre aquele olhar. Qual? O de todos. Devaneio, entre Miller, Pessoa e nuvens. As vezes também em algodão – doce.A minha escrita, chuva oblíqua. Passo as horas, entre PJ Harvey e um quarto cheio de história. Cheio de mim mas tão cheio de outros, que as vezes, não reconheço. Virgínia Woolf sem a escrita, depressiva. Sei quase tudo sobre os dark places e as pílulas, todas, conheço-as quase todas. Nenhuma nunca me trouxe felicidade, só torpor. Brinquei de Susanna Kaysen por três dias, me internei, me dei alta; no meio tempo, me chamaram pra fugir. Gosto de dar flores de presente mas ganhei poucas. As minhas preferidas são margaridas. É, simples assim. Detesto pleasure delayers. Não vejo sentido. Se tiver que ser algo melhor, vai ser, durante dias, meses, anos. Não há necessidade de adiar nada por causa disso. Eu sei o que eu quero, detesto jogo ( mas sei jogar como ninguém). Meus exs/minhas exs não realmente saem da minha vida. Estão todos por aqui, orbitando. Falo da maioria com carinho de como se as coisas estivessem acontecido ontem. Costumo ser amigas deles e delas. Tenho uma tendência a lembrar primordialmente das coisas boas. Na tela, de preferência a Europa e seus idiomas entre os filmes.Os finais da Lola e os meus possíveis finais. Entrei para Letras, achando que letras é alguma coisa da qual se vive, para descobrir que, apesar de uns e outros, eu não vivo, respiro. Aqui, onde a menina cresce e a mulher se esconde. Isto ainda não sou eu. “I open once and you call me Devil`s gateway”. Prazer, M. View all posts by M.

One response to “Him

  • Bruna Maria

    Lamento, Mayra. De verdade e muito. Já perdi gatos e já chorei por isso. Vivo com medo de perder os atuais. “Perder” a gente perde a presença física; porque eles ficam nos ambientes em que mais gostavam e nas lembranças que nos deixam. O que é muito insuficiente. Infelizmente….
    Vou torcer para que você fique bem.
    Beijo.

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