Menos eu

Foi no começo do ano, depois de uma marcação de Facebook, em uma vergonhosa foto de criança guardada pela menina que era minha melhor amiga naqueles tempos, no Colégio da Mabe, que soube que, o colégio onde passei a maior parte da minha infância, faliu.

No ano passado, foi o colégio onde minha irmã passou a maior parte da infância dela, o Princesa Isabel, que faliu.

O Colégio da Mabe estava longe de ser um ótimo colégio (coisa que ficou explícita quando cheguei no Pedro II sem saber conjugar ao menos o verb to be e fiquei em recuperação logo no meu primeiro ano no colégio novo. Mas o ambiente era perfeito.

Sem contar que, eu tive a sorte (sim, sorte porque isso é quase raro) de ter uma excelente alfabetização. A Mabe foi o local onde uma relação muito estreita com a leitura foi travada, já na infância.

Minha mãe frequentemente demorava para buscar a mim e a minha irmã e, neste meio tempo, entre o fim das aulas e a ida para casa, eu ia para a pequena biblioteca, conversar com a Tia Penha (a bibliotecária) e namorar um pouco os livros. Um por semana, no mínimo.

Mas é do ambiente que sinto falta. Eu tinha amigos, falava com a classe praticamente toda – um ou outro desafeto, é normal, não há como gostar de todos. A Mabe retinha lembranças demais: as minhas primeiras letras, a primeira vez que coloquei sapatilhas de balé, o primeiro amor, o pentear os cabelos das professoras (eu era a preferida para a tarefa), enquanto os demais alunos faziam o dever, a sensação de ter os cabelos lisos e sedosos da Tia Ana Cláudia escorrendo pelos meus dedos.

Com o fechamento da Mabe, sinto o centro do Rio, o bairro de Fátima cada vez menos meu. Minhas lembranças sendo empurradas para lugares dispersos. Faz muito tempo em que pisei lá pela última vez. Já depois de adulta, revendo todas as tias e querendo tudo aquilo de volta. Passo em frente quase todos os dias, separada por janelas de ônibus.

Não sei o que acontecerá com o prédio amarelo e verde. Tampouco sei o que faço com essas memórias.

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About M.

Moira A fatalidade cega. Em grego arcaico, a parte ou quinhão. Em Homero, a parte da vida decretada a cada indivíduo. O destino traçado do qual não se pode fugir e a pré – disposição à tragédia como condição inegável do ser humano. Lei suprema da vida cósmica à qual todos, humanos e Deuses estão sujeitos. Mayra Lopes Intimamente ligada a conceitos. Hardly one. Filosofia e literatura, eros e pathos, hybris e moira. Um conglomerado de hormônios e sensações. Acima de tudo, sensações. Dores e ansiedades. Mais uma fragmentação pós – moderna, com uma diferença: procuro saber de mim. Quero que o mundo se exploda. Eu só ligo para mim e para os meus. Para a arte, o pensamento e as sensações.Felicidade como estado efêmero versus desespero. Suicídio versus a vontade da dor de aprender, a procura. Descendente de espanhóis e poloneses, mantengo uma estima profunda por la lengua que me dice y por la guitarra catalán. Costumo falar de Cortázar e de literatura alemã. Tenho Goethe tatuado nas costas, sobre aquele olhar. Qual? O de todos. Devaneio, entre Miller, Pessoa e nuvens. As vezes também em algodão – doce.A minha escrita, chuva oblíqua. Passo as horas, entre PJ Harvey e um quarto cheio de história. Cheio de mim mas tão cheio de outros, que as vezes, não reconheço. Virgínia Woolf sem a escrita, depressiva. Sei quase tudo sobre os dark places e as pílulas, todas, conheço-as quase todas. Nenhuma nunca me trouxe felicidade, só torpor. Brinquei de Susanna Kaysen por três dias, me internei, me dei alta; no meio tempo, me chamaram pra fugir. Gosto de dar flores de presente mas ganhei poucas. As minhas preferidas são margaridas. É, simples assim. Detesto pleasure delayers. Não vejo sentido. Se tiver que ser algo melhor, vai ser, durante dias, meses, anos. Não há necessidade de adiar nada por causa disso. Eu sei o que eu quero, detesto jogo ( mas sei jogar como ninguém). Meus exs/minhas exs não realmente saem da minha vida. Estão todos por aqui, orbitando. Falo da maioria com carinho de como se as coisas estivessem acontecido ontem. Costumo ser amigas deles e delas. Tenho uma tendência a lembrar primordialmente das coisas boas. Na tela, de preferência a Europa e seus idiomas entre os filmes.Os finais da Lola e os meus possíveis finais. Entrei para Letras, achando que letras é alguma coisa da qual se vive, para descobrir que, apesar de uns e outros, eu não vivo, respiro. Aqui, onde a menina cresce e a mulher se esconde. Isto ainda não sou eu. “I open once and you call me Devil`s gateway”. Prazer, M. View all posts by M.

One response to “Menos eu

  • Dimas

    EU TAMBÉM ESTUDEI LÁ EM 1970 E 1971. SINTO MUITAS SAUDADES DAQUELE COLÉGIO. GOSTEI DO SEU TEXTO MUITO LEGAL E MUITO SENSÍVEL. PARABÉNS. DIMAS

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