Monthly Archives: June 2012

Nostalgia

Nostalgia

(vídeo por Autores e Livros )


Nicht dich habe…

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Nicht dich habe ich verloren,

sodern die Welt.

BACHMANN, Ingeborg in Eine Art Verlust


O que é vida, agora?

Estas horas se apresentam a mim como as únicas em que me sinto sendo, integralmente. Tenho rido muito e falado pouco. As horas da madrugada são as únicas em que a casa reina silenciosa – embora o lado de fora sempre barulhento e meu interior, sempre turbulento.

A estas horas, acostumei-me ao estado totalmente desperto porque é somente nelas que não ouço acordes de choro infantil.

Aos  primeiros rumores deste choro, pela manhã, não desperto. Porém, lágrimas se acumulam em meus canais e, durante o dia porfiam-se em quase descer por motivos pífios. Sofro porém rio.

Coloco o riso nessa delicadeza problemática, escondo privações e incômodos.

Rio, sorrio, calo.


Se deu conta de que, quanto menos falar, sempre melhor. O que fica, além de um mistério calculado, é a aparente delicadeza que dará lugar a surpresa. Quase ninguém imagina que ela seja boa de cama. Quase porque é preciso talento para sacá-la, já que é sim, uma vadiazinha escondida atrás de óculos de aros grossos.

O perigo maior não era que Maria se apaixonasse ou fizesse alguém se apaixonar por ela, o perigo era o retorno de Dolores. Ela voltando, o mundo de Maria ampliaria somente para Dolores andar. As demais pessoas dissolveriam em pontos luminosos que serviam para enfeitar os um amoroso aquecimento de sua vida.

Temporário e finito.

Dolores passava para prostrar Maria e nunca deixá-la esquecer: sou eu. E será sempre eu.


Não dá para deixar de falar sobre a Marcha.

Há uma semana atrás, no sábado, dia 26 de maio, tivemos, em vários locais do mundo a MARCHA DAS VADIAS.

Para quem ainda não sabe, a Marcha começou no Canadá, quando um policial dissera em uma palestra que se as mulheres não se vestissem como umas vadias, não sofreriam violência. Será mesmo?

Se fosse assim, senhoras de idade e que andam “respeitosamente vestidas” não seriam, também elas, violentadas.

Eu não pude ir na Marcha mas meu apoio está com eles. Eu realmente não me considero uma feminista mas não dá para fechar os olhos com relação a algumas questões que deveriam ser discutidas e não o são por tabu, preconceito, ou por qualquer outro motivo.

O que ficou, infelizmente, da experiência das Marchas, é o preconceito galopante, a ignorância alheia e a hipocrisia. Isso, sem contar, no moralismo tão elevado que, sinceramente, me leva ao desespero.

Muita gente questionando o nome da Marcha, dizendo que não dá para respeitar por causa do nome.  Não entendem que é proposital. A linguagem é provavelmente o meio que mais perpetua preconceito. Esta palavra, vadia, existe tão somente para denegrir a mulher, rebaixá-la. Enquanto o seu equivalente masculino, vadio, tem o sentido de “homem preguiçoso, que não trabalha”. Vadia é só um dos exemplos. Existe um sem número de palavras ofensivas às mulheres. Esvaziando seu significado ofensivo, vadia, pode ser qualquer uma de nós, se assim escolher. Ter qualquer tipo de comportamento sexual que queira, contanto que proteja a si e as pessoas com as quais se deita. Poder usar a roupa que quiser, sem se preocupar em despertar desejo demais, o que talvez possa levar a uma situação de violência.  Naturalizar a própria nudez, ter seu corpo nu visto não (somente) como um corpo sexual mas como algo natural e portanto, belo e não indecente.

Indecente é querer tolhir  a liberdade individual de cada mulher, a essa altura do século XXI ao invés de ensinar: não estupre.

Me espanta como as pessoas ainda acham que feminismo é a oposição direta ao machismo, ou seja, que o feminismo, seria uma espécie de machismo de saias. Não é. Existem feministas intolerantes? É claro que sim. Porém, intolerância reina em todos os grupos. Não entendo porque no feminismo isto é tão marcado. Na história do feminismo, fala – se em ondas do feminismo. Elas são três.

A primeira onda, que aconteceu no final do século XIX e início do século XX, tinha como prioridade,  que as mulheres tivessem direitos básicos que lhes seriam inalienáveis, como o voto, igualdade nos direitos contratuais e de propriedade e oposição a casamentos arranjados.

A segunda onda,  teria começado na década de 60 e ido até a de 80,  onde as maiores  preocupações eram, além do sufrágio (grande preocupação durante a época da primeira onda),questões igualitárias e o fim da discriminação.

Já a terceira onda, que começou no início dos anos 90 mas acontece concomitantemente com a segunda onda, é o feminismo da micropolítica, menos pautado em mulheres brancas de de classe média. Entram nesta discussão, por exemplo, questões raciais. É o “feminismo da diferença”, aquele que leva em conta diferenças que nós, mulheres temos com relação aos seres humanos do sexo masculino (porque, embora as feministas das duas primeiras ondas quisessem apagar estas diferenças ao máximo, inclusive endurecendo a si mesmas, tornando-se elas mesmas algo masculinizadas, não podemos negar estas diferenças.) ,  levam em conta também as diferenças entre as próprias mulheres.  Somos muitas. Ser mulher é só uma das coisas que somos. Ser mulher pode querer se regozijar com a maternidade e a possibilidade de gerar vida, quanto (o meu caso), negar completamente a máxima de que toda mulher precisa ser mãe e, é infeliz não for mãe. Algumas de nós não sentem que carregam dentro de si esse “gene maternal”, digamos assim. Não é somente falta de vontade, é também inaptidão. O que leva a outra luta: o direito ao aborto.

E é dentro dessa terceira onda que se encaixa a Marcha das Vadias, na celebração das diferenças e no direito de ser como é. Creio que, baseadas em minhas roupas, pelo menos, dificilmente alguém me chamaria de vadia mas isso não dá a mim, nem a ninguém, o direito de achar que a “mulher vadia” pede para ser violentada.

Uma coisa que eu achei incrível (e não no bom sentido) foi a quantidade de críticas às mulheres de seios de fora nas Marchas. É a sociedade que erotiza o corpo feminino mas, isto que é o anti natural. Os seios, antes de fonte de desejo, são fonte de alimento a qual todos nós precisamos recorrer. E onde está o erótico nisso?

Por que então, seios de fora são indecentes? É surreal que façam comparações como “é como se os homens começassem a andar com o pênis exposto”. Gente, o que é isso? Que tipo de comparação é esta? Seios não são a mesma coisa que genitália e ninguém (pelo menos nenhuma mulher) estava com a genitália exposta. Já em Brasília, um homem achou que seria legal se expôr.

Para quem ainda tem dúvidas ou não entendeu, segue o link Marcha das Vadias for dummies.

E pra quem pensa que o protesto é somente feito por mulheres, aí vai:

p.s. Uma leitura que eu sugiro, é Helena o eterno feminino, de Junito de Souza Brandão. Não achei nenhuma sinopse bem feita para compartilhar e, como eu já li faz tempo, também não saberia escrever uma a altura. Mas é um livro muito interessante que discorre sobre o lugar da mulher (essencialmente o da mulher na Grécia antiga), sobre o papel que nos foi relegado a partir de Pandora, Helena de Tróia e Eva: a causa das maiores mazelas do mundo, as pecadoras, ardilosas e que usam seu corpo e sexualidade para dissuadir e tirar o homem do bom caminho. E como isto foi usado para a repressão e cerceamento de todas as liberdades e direitos femininos, durante séculos e séculos.


Só escreve quem consegue sonhar.

Ou viver.

E faz tempo que eu não sonho.

Ou vivo.


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