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O que se quer dizer e sempre se cala

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E mais uma vez assistindo, aquela sensação. De que eu passei anos – e estou passando anos perdida por experiências que não desejo ter mas das quais não posso me desvincilhar porque é o que tem. São as únicas coisas que existem.

O que quero mesmo, desejo, anseio, embora à distância de um toque de telefone, não disponível. A menos que tudo aqui vá mal (de mal a pior). Mal ao ponto de não ser nem eu quem pede por ajuda.

E eu ainda fico tentando saber que palavras são as que faltam, assim que o telefone é desligado. O que se quer dizer e sempre se cala.


All your history´s like a fire from a busted gun*

O som das mensagens é uma batida na porta. Há algumas noites atrás, deitada na cama, o telefone ao lado, chegavam-lhe aos ouvidos sons de batidas na porta. A cada batida, seu peito inchava, o coração recebendo mais sangue, mais rápido, o peito batia na cama e não encontrava mais espaço para se expandir.

Enquanto isso, o gato lhe subiu às costelas e se aboletou. A única sensação que continuaria a ter, eram daqueles pêlos lhe roçando a pele. Ele encontrou sua mão, que jazia às costas. Pediu um carinho que não conseguia dar, naquele momento.

O que tentava ensinar-se a si é que gostar é um verbo que abarca a multiplicidade. Deve-se preparar para isso. O gostar e somente gostar inclui quantidade, nunca exclusividade. É vulgar demais. Já teria usado outra palavra mas ainda é cedo. São muitos os medos que lhe assolam, um dos piores é o de assustar a correrias.

O problema é que gostava de ficar pendurada em palavras. Se agarra a significados que são só seus, só existem para si e, sempre precisa ouvir que não é para tanto. São só outras palavras vulgares, que utilizam-se com todo mundo.

Embora tenha algum talento verbal, ele nunca é o suficiente para reter atenção por tempo demasiadamente longo.Sempre serve momentaneamente a todo mundo. A todo mundo não, porque seu gostar é privilégio único. Porém, logo ali na esquina de outra cidade, haverá alguém melhor. Sempre há alguém melhor que desperta um gostar e mais, que se engatilha mais rápido, que seduz mais facilmente. Talvez sirva mais e melhor. Talvez não esteja sempre disponível e seja essa a graça. Talvez muitas coisas,que deveria aprender a fazer e outros fazem sempre melhor.

E então esta ciranda de nomes repetidos e sentimentos que no fundo, devem ser unilaterais. Um sentimento sempre serve a um outro. Deixar-se servir,não é o problema. O problema é saber quando é tão somente um deixar-se servir que em alguns momentos vira um deixar-se açoitar e ainda ter que fingir que não viu, ou não sentiu.

*NARC – Interpol


“Ivan me pergun…

“Ivan me pergunta no meio da noite: Por que só há um muro das lamentações, por que nunca alguém construiu um muro das jubilações?
Feliz. Eu sou feliz.
Se Ivan quiser, construirei um muro das lamentações em volta de toda Viena, onde ficavam os antigos bastiões e onde fica a Ringstrasse, ou até mesmo um muro da felicidade em torno do cinturão feio de Viena. Poderíamos, então, ir todos os dias a esses novos muros e extravasar nossa alegria e nossa felicidade, pois a palavra é feliz, nós somos felizes.
Ivan pergunta: Devo apagar a luz?
Não, deixe uma acesa, deixe por favor uma luz!
Mas um dia eu vou apagar todas as luzes, durma enfim, seja feliz.
Eu sou feliz.
Se você não for feliz…
O quê, então?
Então nunca poderá fazer algo bom.
E eu digo a mim que, feliz, poderei fazê-lo.
Ivan sai de mansinho do quarto e vai apagando as luzes ao passar; eu o ouço partir; estou deitada, calma, feliz.”

BACHMANN, Ingeborg. Malina. São Paulo: Siciliano, 1993


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