Monthly Archives: August 2013

Sonhei que dançava para você, seu apartamento, que não é grande, inteiro iluminado por velas de todos os tamanhos. Nem a luz da rua, nem da lua ou da TV da vizinha. Enquanto eu dançava, 50 mil vozes egípcias entoavam um canto de terra e as moedas penduradas em finíssimas camadas de filó lilás furta-cor reluziam como jóias com o peso das velas juntas.

Você não estava em casa. Quando abriu a porta, eu, agonizante entre chamas. Metais e tecidos colados ao corpo carbonizado. E o CD, riscado.


Você

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Qualquer pessoa racional sabe que precisa de uns dias para voltar à realidade, que não se pode sair, achando que não se entrou, querendo retomar o que nem começou.

O problema foi que eu nunca antes soube o que era a realidade. Eu ando pelas ruas, vejo as coisas, olho as pessoas, os vendedores, os produtos, tudo a minha volta. Não sei o que significa, para que servem, porque vivem, ou comem, respiram ou riem.

Vejo lugares lindos e consigo ter alguma ideia do por que foram construídos mas vivem depredados, em obras, em lixos.

Uma vez eu li em um livro que, não era “sem mais nem menos” mas, gradualmente, a depressão, é um dia ter medo de acordar, não querer mais. Eu choro.

E, se o resto da minha vida for feito de sensações indescritíveis com você, em você, para você e para mim, que colore o dia, fecha o sol quando ele incomoda e abraça, então só posso entender isso, como sentir, como realidade.


You made it behave

“I’m a stem now
Pushing the drought aside
Opening up
Fanning my yellow eye
On the ferry
That’s making the waves wave
Illumination
This is how my heart behaves”

Feist – This is how my heart behavesheart

Me sinto menos eu a cada vez que a água, cada vez mais fria enche meu corpo com coisas desconhecidas. Folhas, comidas, remédios.

Menos eu quando, logo eu, sendo tão vaidosa, tendo tanta, tanta coisa que nem cabem nos espaços do meu quarto, não quero nada, não vejo nada. Tiro esmaltes, corto as unhas, o básico, me despersonalizo. E assim, o valor vem de que, mesmo sem isso tudo, gente consegue me enxergar e me incitar o riso, me incitar sentimentos, às vezes, até calma e serenidade.

Me sentia nua sem todas as minhas coisas mas, quando o sentir é tanto e tão hiperbólico, quem precisa delas?

Elas voltam.


Caminhos

ervas2

Diversas ervas imersas em uma água escura, algumas eu já vi, reconheço por cheiro, outras, mais secas, não sei o que são. Banho-me. A água quente, delicada, esfrego estas folhas em mim como quem não tem o direito mas precisa. São como lavandas, calêndulas, perfumes delicados que se incrustam no meu corpo, me acalmando, me perfumando. Quase não sei o que fazem. Não sei que significa “abre caminhos” porque não sei se, de fato, meus caminhos andam fechados ou se tive tantos, que desisti de andar por eles. De qualquer forma, algum dia, algum caminho (ou mais de um) começará a se delinear por sonhos e abraços ou por um não necessitar, o segundo, quimera, esperança estranha que não irá se concretizar.

E depois, jogar em alguma árvore, um canteiro qualquer que hoje, parecia mais fraco, menor que ontem, mais castigado pelo inverno, faltando um pedaço. Desbaratei. Mas, sou metódica, gosto dos mesmos pratos, leio do mesmo jeito, uso as mesmas roupas, escolho os mesmos itinerários e quase sempre, ouço as mesmas músicas. De um lado, um mendigo, cheio de coisas, sentado ocupando um banco inteiro com suas coisas e tralhas tão, tão valiosas. Mais valiosas que meu apartamento inteiro. Uma mulher falava com ele. Talvez para dar comida. Na minha esperança altruísta (pois não havia descido com nenhum dinheiro), era o que esperava.

Perto de mim, muitos homens conversando, tramando, prestando atenção em quem ia, quem ficava. Fortes, corpos esculpidos. Quase que pararam a respiração, a menina com os cabelos molhados e penteados, short e suéter se aproximava.

Joguei as folhas na metade do canteiro que ainda havia, como deveria ser.

Rezei.


Ao vento

Dizem que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço. Enquanto houver uma cama, enquanto houver paixão, sempre haverá espaço para dois corpos fundidos, com dores entrelaçadas e abrandadas uma pela outra. Enquanto uma das partes sentia muito, muito frio, a outra a quentura do corpo, das partes baixas, puxando para o lado o edredom pesado. O ventilador ligado vinte e quatro horas por dia, algo que, nem no verão acontecia. O vento batendo nas partes íntimas trazendo um alívio momentâneo, sorriso, calmaria. Tudo bem que o outro corpo quase se contorcesse de frio. Eram as dores entrelaçadas e calmantes. Era a paixão. Era um vento que unia em odores espalhados.

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refugiar (refúg…

refugiar
(refúgio + -ar)
v. tr.
1. Dar abrigo. = ABRIGAR, ASILAR
2. Tornar mais suave (ex.: refugiar a dor).
v. pron.
3. Recolher-se num refúgio. = ABRIGAR-SE, ASILAR-SE
4. Retirar-se para lugar considerado seguro. = ABRIGAR-SE, RESGUARDAR-SE
5. Emigrar para um país estrangeiro por motivo de perseguição política, religiosa, étnica, etc. = ASILAR-SE, EXPATRIAR-SE
6. [Figurado] Buscar proteção ou conforto junto de (ex.: refugiar-se em casa, refugiar-se na leitura).

Chega a ser irônico que algum dia alguém que nem sabe que existe “h” no verbo haver pode se oferecer enquanto refúgio, sendo refugiar-se um tornar mais suave, um abrigar  num abraço cheio de pêlos faciais e corporais. Um asilo humano resguardador de dores numa busca incessante de conforto e proteção.


All my sad and truly books

“(…) and then one day you realize that your entire life is just awful, not worth living,  a horror and a black blot on the white terrain of human existence.

In my case, I was not frightened in the least bit of existence thought that I might have live because I was certain, quite certain that I was already dead. The actual dying part, the withering  away of my physical body were a mere formality. My spirit, my emotional being, whatever you want to call all that inner turmoil has nothing to do with physical existence, were long gone, dead and gone, and only a mass of the most fucking god-awful excruciating pain like a pair of boiling hot togs clamped tight my spine and pressing on all my nerves was left tin its wake. WURTZEL, Elizabeth. Prozac Nation a memoir Young and depressed in America”. Page 19

“A daughter in an  asylum! I had never done that to her. Still she obviously decided to forgive me.

We´ll take up w here we left off., Esther, she had said, with her sweet, marty´s s.  We´ll act as if all this were a bad dream.

To the person in the bell jar, blank and stopped a dead baby, the world itself is the bad dream.

A bad dream.

I remembered everything,

[…]

What was there about us, in Belsize, so different from the girls playing bridge and gossiping and studying in the college to witch I would return? Those girls, too, sat under bell jars of a sort.”

PLATH, Sylvia. The Bell Jar. Page227

“- Vai ficar tudo bem, não vai? – perguntei. Minha voz estava longe de mim e o que eu dizia não era o que eu queria dizer. O que eu queria dizer é que agora estava em segurança, agosa estava de fato louca e ninguém poderia me tirar dali.”

KAYSEN, Susanna. Moça Interrompida.  Página 96

“Por mais distraída que seja a pessoa , ela sabe muito bem que a mudança renove sempre mais uma fatia  de sua experiência – E não há tantas assim no celeiro. Mudar de casa é sempre irreparável.

Algumas dessas trocas são piores que as outras. Quando tudo o que você ama lhe é arrancado sem aviso prévio, o que ocorre é um milagre ao contrário. Onde havia abundância de pães e peixes existe agora o vazio vertiginoso.”

CAMPELLO, Myriam. Como Esquecer Anotações quase inglesas. Página 26

“The headache is always there, waiting, and her long periods of freedom, however long, Always feel provisional. Sometimes the headache simply takes partial possession for an evening or a day or two, then withdraws. Sometimes it remains and increases until she herself subsides at those the headache moves out of her skull and into the world. Everything glows and pulses.”

CUNNINGHAM, Michael. The hours. Pages 70 and 71


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