12 anos de escravidão (ou o que não se pode esquecer).

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Bem no comecinho do ano, a minha melhor amiga de infância, que é negra, postou no Facebook um status sobre uma pessoa branca que chamou (ou chama) pessoas negras de nigga como se fosse um apelido carinhoso. O comentário da minha amiga, claro, foi que em hipótese alguma uma pessoa branca poderia chamar um negro de nigga, ainda mais de forma tão displicente. Só os negros podem fazê-lo. Caso eu, por exemplo, o faça, é um perpetuar de preconceito cristalizado numa palavra cujo tom é pejorativo ao extremo. E porque os negros podem usar esta palavra? Porque somente eles podem esvaziar essa palavra de seu significado original. Durantes anos e anos, negros escravos eram chamados de nigga pelos seus senhores. Era uma das únicas que se referiam a eles. Então um nigga era companheiro de outro porque era seu igual em todos os sentidos.

E é aí que entra o filme que assisti hoje, 12 anos de escravidão (12 years a slave). Essa pessoa, tão displicente com as formas de tratamento que escolhe, deveria ver esse filme e prestar bem atenção ao uso tão pronunciado desta palavra. E deveria se sentir tão mal quanto eu me senti assistindo. Me senti mal de vergonha, constrangimento, dor até. Dor de constatar a selvageria que só um animal como o ser humano é capaz. Vergonha dos meus ancestrais mesmo sem saber se há alguém na minha árvore genealógica que tenha sido senhor de escravos.

Não consegue entrar na minha cabeça como pode, até hoje, uma pessoa ser capaz de privar alguém de sua liberdade, achar-se dono de uma pessoa, considerá-la como um “animal”, um “inferior”. Punir essa pessoa fisicamente até a morte ou quase a morte por desobediências e incapacidades. Animais de estimação eram muito mais bem tratados do que estas pessoas.

12 anos de escravidão conta a história de Solomon Northup, no período anterior ao da Guerra Civil americana. Solomon, um homem livre que morava com a sua família em Nova York. Um artista, músico que fora ludibriado, achando que trabalharia por um tempo em um circo e na verdade, fora sequestrado e vendido como escravo. E durante 12 longos anos, Northup foi obrigado  a servir como escravo de alguns senhores, até conseguir provar sua liberdade  e retornar para o seio familiar.   O ator Chiwetel Ejiofor faz o papel de Northup. Eu sabia que já o tinha visto antes, mas não conseguia me lembrar em que filme. Ejiofor veio de uma série de papéis inexpressivos, que nunca realmente aproveitaram seu talento, dá um banho de interpretação neste filme. Seus olhos contam uma história de tristeza e medo, pânico. Sua carne, sofre. Assim como Lupita Nyong´o, atriz que interpreta uma escrava chamada Patsey, que, além de trabalhar mais duro do que todos os outros escravos na plantação de algodão de seu amo, ainda é obrigada a aceitar as investidas sexuais dele e a ira da esposa de seu amo. Lupita e Chiwetel mereceram sua indicação ao Oscar como  melhor atriz coadjuvante e melhor ator, respectivamente. Assim como Michael Fassbender, como melhor ator coadjuvante.

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Cada humilhação, cada investida indesejada, cada briga, ameaça, cada chibatada cortando o ar, cada verdade dita fere quem assiste de uma maneira que, não nos deixa esquecer de que esse passado, não é tão passado assim. E que não precisamos deitar-nos sobre a ficção de outro país para sabermos destas histórias. Basta abrir o jornal de nosso próprio país, nos dias de hoje, para se dar conta de que a escravidão, ainda é uma infeliz realidade e que temos sim, a responsabilidade social, o dever de não perpetuar os preconceitos de qualquer tipo, até linguísticos. De se colocar contra a barbárie e qualquer forma de intolerância. De tratar o outro como o que ele é: um igual e portanto, dispensar-lhe o mesmo tratamento que você deseja e espera que seja dispensado a você.

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About M.

Moira A fatalidade cega. Em grego arcaico, a parte ou quinhão. Em Homero, a parte da vida decretada a cada indivíduo. O destino traçado do qual não se pode fugir e a pré – disposição à tragédia como condição inegável do ser humano. Lei suprema da vida cósmica à qual todos, humanos e Deuses estão sujeitos. Mayra Lopes Intimamente ligada a conceitos. Hardly one. Filosofia e literatura, eros e pathos, hybris e moira. Um conglomerado de hormônios e sensações. Acima de tudo, sensações. Dores e ansiedades. Mais uma fragmentação pós – moderna, com uma diferença: procuro saber de mim. Quero que o mundo se exploda. Eu só ligo para mim e para os meus. Para a arte, o pensamento e as sensações.Felicidade como estado efêmero versus desespero. Suicídio versus a vontade da dor de aprender, a procura. Descendente de espanhóis e poloneses, mantengo uma estima profunda por la lengua que me dice y por la guitarra catalán. Costumo falar de Cortázar e de literatura alemã. Tenho Goethe tatuado nas costas, sobre aquele olhar. Qual? O de todos. Devaneio, entre Miller, Pessoa e nuvens. As vezes também em algodão – doce.A minha escrita, chuva oblíqua. Passo as horas, entre PJ Harvey e um quarto cheio de história. Cheio de mim mas tão cheio de outros, que as vezes, não reconheço. Virgínia Woolf sem a escrita, depressiva. Sei quase tudo sobre os dark places e as pílulas, todas, conheço-as quase todas. Nenhuma nunca me trouxe felicidade, só torpor. Brinquei de Susanna Kaysen por três dias, me internei, me dei alta; no meio tempo, me chamaram pra fugir. Gosto de dar flores de presente mas ganhei poucas. As minhas preferidas são margaridas. É, simples assim. Detesto pleasure delayers. Não vejo sentido. Se tiver que ser algo melhor, vai ser, durante dias, meses, anos. Não há necessidade de adiar nada por causa disso. Eu sei o que eu quero, detesto jogo ( mas sei jogar como ninguém). Meus exs/minhas exs não realmente saem da minha vida. Estão todos por aqui, orbitando. Falo da maioria com carinho de como se as coisas estivessem acontecido ontem. Costumo ser amigas deles e delas. Tenho uma tendência a lembrar primordialmente das coisas boas. Na tela, de preferência a Europa e seus idiomas entre os filmes.Os finais da Lola e os meus possíveis finais. Entrei para Letras, achando que letras é alguma coisa da qual se vive, para descobrir que, apesar de uns e outros, eu não vivo, respiro. Aqui, onde a menina cresce e a mulher se esconde. Isto ainda não sou eu. “I open once and you call me Devil`s gateway”. Prazer, M. View all posts by M.

One response to “12 anos de escravidão (ou o que não se pode esquecer).

  • J-Chist

    Chiwetel Ejiofor já mostrava a que veio no ótimo Coisas Belas e Sujas. Pena que seu talento não garantiu uma escalada na carreira já naquela ocasião.

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