Afinal, tem alguém que se sente representada pelas “as nega” do Miguel Falabella?

Hoje uma amiga super querida postou no FB que ficou curiosa quanto a série da Globo que deve estar começando daqui a pouco (pode até já ter passado o primeiro episódio quando eu terminar isso aqui). Essa curiosidade levantou uma discussão e, por isso resolvi escrever sobre isso.

Antes de tudo – sou o que qualquer brasileiro classifica como branca, embora tenha plena consciência que, em qualquer outra parte do mundo, eu não sou caucasiana mas latina. Então, não taquem pedra, por favor. Não vim fazer token e nem protagonizar uma luta a qual só posso apoiar, ser simpática.

Dito isso…

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A série, é uma adaptação de Sex in the City. Série essa que eu vi do começo ao fim. Na época, meu conhecimento do feminismo era muito superficial e eu não percebia muita coisa. Percebia que tinha seus fatores positivos sim, a liberdade sexual, um “somos todxs vadias” e aquela relação amorosa com a cidade. Mas, quanto aos relacionamentos? Vi muitas vezes as personagens se anulando, se torturando porque aquele homem tinha que amá-la. E quanto amar a si mesma? Nesse quesito, durante quase toda a série, Samantha deu um show (deu suas escorregadas também mas, quem nunca?)

O sexo e as nega seria uma versão disso. No gueto/ favela, com mulheres comuns com profissões normais. Essa é a premissa, creio. E o discurso  é da inclusão do negro na tv aberta brasileira. Mas, repetindo fórmulas tão batidas? Negro só pode morar na favela ou no gueto? Só pode exercer uma profissão na qual não precise de um diploma universitário? Por quê? Por que, pelo menos na Globo, negros que fazem papéis de classe média ou alta e educados em nível universitário são Lázaro Ramos, Taís Araújo e Camila Pitanga? Os outros não tem cara de negros ricos? Só podem pertencer ao gueto, à cozinha, à senzala? Por que será que a Taís Araújo deu aquela entrevista em que dizia que se sentia mal ao ir a um lugar e só ser atendida por negros? Por que eles não tem as mesmas oportunidades que ela teve? Porque ela sente que ser servida por iguais, é como se jogassem na cara dela constantemente o lugar que ela deveria estar ocupando. Por que será, Falabella? Quem inclui os negros? Você? Ai, olha, não!

Em Sex in the City, a narradora, Carrie Bradshaw, estava inserida no que ela estava falando, estava vivendo aquilo. As dores eram dela também. Ao que me parece, neste, a Cláudia Jimenez será a narradora, olhando de fora com a branquice dela, analisando comportamentos, dando conselhos. Que diabos a Cláudia Jimenez sabe sobre os temas que parece que serão focados, gente? Não faz sentido.

Uma conhecida tocou no assunto do mimimi do nome. Olha, não é mimimi. Por que tem gente ofendida com isso? Porque “as nega”, “suas nega” são expressões extremamente pejorativas e que, até hoje, não foram ressignificadas. Elas continuam a separar a mulher branca pura e intocável da casa grande da negra da senzala (alguém aí lembro de 12 anos de escravidão?) e não tem essa de que acabou a escravidão. O que não falta são casas grandes e senzalas disfarçadas por aí.

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Uma grande amiga minha, negra, disse que sentia como se fossem as novas mucamas. Sempre prontas pro sexo. Sempre querendo quem lhes dê uma vida boa. Hipersexualização não só da mulher como também do homem negro, SEMPRE, né? Afinal, são animais viris, mulheres “com quadril de parideira”, amas de leite etc.O corpo deles foi feito pra isso, não é? Não. O corpo deles lhes pertence. A eles e somente a eles. Vamos parar com essa folclorização. Está feio, chato, rude.

Não caiam nessa populice do Falabella. É engraçado às custas do sofrimento dos outros. Não tem empatia alguma. Não é um humor inteligente. Não é sequer uma boa sátira. É preconceito: racismo, elitismo, machismo. Copio e colo aqui a fala de Bianca Lessa, uma amiga dessa minha amiga, que também entrou na discussão:

“No país do “Somos Todos Macacos”, no país do Pelé dizendo que o Aranha agiu mal diante da torcida, no país da menininha gaúcha chorando na Ana Maria Braga – que também é o país do genocídio nas periferias – , toda tentativa midiática de desmerecer o combate à objetificação da mulher negra será tragicamente bem sucedida.”.

Para fechar, leiam este texto do blogueiras negras.

Quanto as negras, parentes, amigas, conhecidas e desconhecidas: FORÇA. Mais do que vocês já tem. Todo o meu amor para vocês.

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About M.

Moira A fatalidade cega. Em grego arcaico, a parte ou quinhão. Em Homero, a parte da vida decretada a cada indivíduo. O destino traçado do qual não se pode fugir e a pré – disposição à tragédia como condição inegável do ser humano. Lei suprema da vida cósmica à qual todos, humanos e Deuses estão sujeitos. Mayra Lopes Intimamente ligada a conceitos. Hardly one. Filosofia e literatura, eros e pathos, hybris e moira. Um conglomerado de hormônios e sensações. Acima de tudo, sensações. Dores e ansiedades. Mais uma fragmentação pós – moderna, com uma diferença: procuro saber de mim. Quero que o mundo se exploda. Eu só ligo para mim e para os meus. Para a arte, o pensamento e as sensações.Felicidade como estado efêmero versus desespero. Suicídio versus a vontade da dor de aprender, a procura. Descendente de espanhóis e poloneses, mantengo uma estima profunda por la lengua que me dice y por la guitarra catalán. Costumo falar de Cortázar e de literatura alemã. Tenho Goethe tatuado nas costas, sobre aquele olhar. Qual? O de todos. Devaneio, entre Miller, Pessoa e nuvens. As vezes também em algodão – doce.A minha escrita, chuva oblíqua. Passo as horas, entre PJ Harvey e um quarto cheio de história. Cheio de mim mas tão cheio de outros, que as vezes, não reconheço. Virgínia Woolf sem a escrita, depressiva. Sei quase tudo sobre os dark places e as pílulas, todas, conheço-as quase todas. Nenhuma nunca me trouxe felicidade, só torpor. Brinquei de Susanna Kaysen por três dias, me internei, me dei alta; no meio tempo, me chamaram pra fugir. Gosto de dar flores de presente mas ganhei poucas. As minhas preferidas são margaridas. É, simples assim. Detesto pleasure delayers. Não vejo sentido. Se tiver que ser algo melhor, vai ser, durante dias, meses, anos. Não há necessidade de adiar nada por causa disso. Eu sei o que eu quero, detesto jogo ( mas sei jogar como ninguém). Meus exs/minhas exs não realmente saem da minha vida. Estão todos por aqui, orbitando. Falo da maioria com carinho de como se as coisas estivessem acontecido ontem. Costumo ser amigas deles e delas. Tenho uma tendência a lembrar primordialmente das coisas boas. Na tela, de preferência a Europa e seus idiomas entre os filmes.Os finais da Lola e os meus possíveis finais. Entrei para Letras, achando que letras é alguma coisa da qual se vive, para descobrir que, apesar de uns e outros, eu não vivo, respiro. Aqui, onde a menina cresce e a mulher se esconde. Isto ainda não sou eu. “I open once and you call me Devil`s gateway”. Prazer, M. View all posts by M.

2 responses to “Afinal, tem alguém que se sente representada pelas “as nega” do Miguel Falabella?

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