Botty e o desserviço ao feminismo e ao emponderamento feminino

Há pouco tempo – duas semanas talvez – eu fiquei chocada quando, zapeando de canal vi passando na tv um videoclipe da Jennifer Lopez com a Iggy Azalea. O que me fez parar no canal foi a seguinte imagem:

images (4)A música se chama  Botty, pelo que eu entendi, é da Jennifer Lopez (foi escrita para ela), tem participação da Iggy e algum ou alguns versos foram escritos pelo Pitbull. A música é uma ode à bundas grandes. Eu fiquei triste, verdadeiramente triste vendo o clipe. Porque a Jennifer Lopez não para de sacudir a bunda dela um segundo. E ela não o faz de maneira libertadora, tipo meu corpo, minhas regras. Não. Prestem atenção em um dos versos da letra:

“Now find me a bone to sit on
Girls with those cheeks, put they hands in the air
And pop that, pop
Let ’em know that you’re in here
See everybody wanna get a taste”

Cara, é muito triste. Em tradução literal, ela está cantando para achar um homem com uma ereção (bone) para sentar em cima, “meninas com essas – checks seria cada lado da bunda – coloquem as mãos pra cima e sacudam isso, sacudam. Deixe que saibam que vocês estão aqui, veja todo mundo querendo um pouco” images (3) Isso para mim já é chocante o suficiente. Porque é quase uma incitação à pornografia, sei lá. Porque não tem NADA ABSOLUTAMENTE NADA de emponderamento aí, a Jennifer ainda fecha com chave de ouro:” I can guarantee you’ll have the time of your life” (eu posso garantir que você vai se divertir como nunca) (o ao sacudir a bunda está implícito). Amiga, não vamos. Sabe por que? Por que tem mulher que todos os dias, TODOS OS DIAS, se tem uma bunda grande, é cantada na rua. E essa mulher, nunca sabe quando vai ser “só uma cantada”, “só um elogio” ou uma ameaça física real, um estupro. Porque ela tem a bunda grande e não quer – e nem precisa, se não quiser, sacudi-la por aí. É também, por essas e outras, que as pessoas reprodutoras do machismo acham que, se você tem um atributo desses, não precisa de mais nada. Sua vida está feita. Você é bonita, tem um corpo bonito, tem uma bunda grande…

É até estranho porque a gente começa a questionar nossas próprias relações quando ficamos indignadas enquanto feministas. Minha bunda não é particularmente grande. Nem pros padrões brasileiros é normal. É até menor do que o padrão brasileiro. Mas sei lá, tem alguma coisa, deve ser bem feita de formas, algo assim porque, todas, sem exceção, todas as pessoas com as quais me relacionei, falaram dela em algum momento da relação. Positivamente. Mas quanto esse positivo é um elogio real, consciente ou quanto dele é pautado pela cultura do “I like big booties and I cannot lie”? Eu não sei, acho que ninguém sabe.

E eu me lembro que, quando participava do American Idol como jurada, um fã da Jennifer, ainda na fase dos testes cantou um rap que ele escrevera para ela. E num dos versos ele dizia “shake your moneymaker” . Algo como sacuda seu fazedor de dinheiro. E ela ficou extremamente ofendida, como era de se esperar, enquanto os outros dois homens na sala, para intimidar o rapper, perguntavam o que exatamente seria o moneymaker da Jennifer Lopez. Mas, com esse clipe, ela não está colocando sua bunda como seu fazedor de dinheiro? Sim, está. Aliás, está perversamente reproduzindo um discurso machista para lucrar. Não consigo ter sororidade com isso, juro. Não consigo. Porque é a perversidade da cultura pop musical ensinando, entranhando isso na cabeça das mulheres. Esse lixo.

Irmã, você tem que sacudir a bunda quando quiser, SE quiser e não porque vão ficar com inveja do seu swag ou assim você vai atrair a atenção masculina. Nenhuma mulher precisa disso. E você não vai ter o melhor momento da sua vida assim. Provavelmente não.

P.S. antes de escrever esse texto, pesquisei na internet se já havia algo em português escrito sobre isso. Havia essa análise: http://tracklist.com.br/analise-booty-jennifer-lopez-feat-iggy-azelea/21584 escrita por um homem e eu só queria dizer que: amigo, se você ler isso, você está errado. Não cabe a você, um homem julgar o que é ou não comportamento vulgar em uma mulher. Isso não é ser pró feminista. Isso é ser, adivinha? Machista.

Advertisements

About M.

Moira A fatalidade cega. Em grego arcaico, a parte ou quinhão. Em Homero, a parte da vida decretada a cada indivíduo. O destino traçado do qual não se pode fugir e a pré – disposição à tragédia como condição inegável do ser humano. Lei suprema da vida cósmica à qual todos, humanos e Deuses estão sujeitos. Mayra Lopes Intimamente ligada a conceitos. Hardly one. Filosofia e literatura, eros e pathos, hybris e moira. Um conglomerado de hormônios e sensações. Acima de tudo, sensações. Dores e ansiedades. Mais uma fragmentação pós – moderna, com uma diferença: procuro saber de mim. Quero que o mundo se exploda. Eu só ligo para mim e para os meus. Para a arte, o pensamento e as sensações.Felicidade como estado efêmero versus desespero. Suicídio versus a vontade da dor de aprender, a procura. Descendente de espanhóis e poloneses, mantengo uma estima profunda por la lengua que me dice y por la guitarra catalán. Costumo falar de Cortázar e de literatura alemã. Tenho Goethe tatuado nas costas, sobre aquele olhar. Qual? O de todos. Devaneio, entre Miller, Pessoa e nuvens. As vezes também em algodão – doce.A minha escrita, chuva oblíqua. Passo as horas, entre PJ Harvey e um quarto cheio de história. Cheio de mim mas tão cheio de outros, que as vezes, não reconheço. Virgínia Woolf sem a escrita, depressiva. Sei quase tudo sobre os dark places e as pílulas, todas, conheço-as quase todas. Nenhuma nunca me trouxe felicidade, só torpor. Brinquei de Susanna Kaysen por três dias, me internei, me dei alta; no meio tempo, me chamaram pra fugir. Gosto de dar flores de presente mas ganhei poucas. As minhas preferidas são margaridas. É, simples assim. Detesto pleasure delayers. Não vejo sentido. Se tiver que ser algo melhor, vai ser, durante dias, meses, anos. Não há necessidade de adiar nada por causa disso. Eu sei o que eu quero, detesto jogo ( mas sei jogar como ninguém). Meus exs/minhas exs não realmente saem da minha vida. Estão todos por aqui, orbitando. Falo da maioria com carinho de como se as coisas estivessem acontecido ontem. Costumo ser amigas deles e delas. Tenho uma tendência a lembrar primordialmente das coisas boas. Na tela, de preferência a Europa e seus idiomas entre os filmes.Os finais da Lola e os meus possíveis finais. Entrei para Letras, achando que letras é alguma coisa da qual se vive, para descobrir que, apesar de uns e outros, eu não vivo, respiro. Aqui, onde a menina cresce e a mulher se esconde. Isto ainda não sou eu. “I open once and you call me Devil`s gateway”. Prazer, M. View all posts by M.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: