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Duchamp talvez tenha vindo aqui.

(imagem acima gentilmente cedida por um colega de mestrado – não para este fim mas whatever…)

Uma coisa que muito me impressiona, é a atração que a escatologia exerce entre as pessoas. Freud constatou entre as fases do desenvolvimento infantil a fase anal, onde a excreções e fezes atraem a atenção das crianças mas isto se dá entre o primeiro e terceiro ano de vida. Uma pessoa que não passa bem por esta fase, tem duas opções: torna-se um maníaco obsessivo ou um fascinado por escatologia.

Eu não entendo. Devo ter brincado muito de massinha e saciado toda a minha curiosidade. Não entendo quando o humor americano sempre descambra para piadas de mau gosto envolvendo escatologia e por que eles acham que é tão engraçado. Um dia, tirei foto de uma plaquinha no banheiro da casa em que faço terapia. Da plaquinha feminina (havia a masculina). Tirei a foto com um propósito, daí, nasceu o post Repositório. 

O que acontece, é que este é o post mais acessado do meu blog. Não é estimativa. É fato. E todos os dias, pelo menos duas pessoas procuram nos sites de busca as palavras “favor não jogar papel no vaso”, “descarga após usar o vaso sanitário”, “papel higiênico no cesto” e similares.  Sei que estas pessoas não estão procurando meu post mas, também não sei qual o propósito delas. Aprender a advertir as pessoas, fazer com que tenham modos no toalhete? Aprender o que se faz no banheiro? O que? Não consigo mesmo imaginar.

Nas vanguardas européias, houve a figura de Duchamp, o precursor do ready made, que consiste no fato de transportar um elemento da vida comum, mais banal e transportá-lo para o campo artístico. Tal elemento, a priori, não é considerado arte por não ter o caráter de laboração artística e, por isto, grande parte dos críticos não aceitou e nem viu com bons olhos quando Duchamp levou aos museus um urinol cujo título de obra era: A fonte.

Há quem visse na arte de Marcel Duchamp um caráter iconoclasta aproximando o formato deste urinol em particular com as formas femininas. E esta interpretação abre margem para outra, de caráter psicanalítico onde se tem em mente o membro masculino jorrando urina nas formas femininas (olha aí, de novo) – fetiche de muitos, diga-se.

Obviamente que essa iconoclastia nos dias de hoje atingiu níveis como este:

Voltando ao meu post, meu intuito, como acho que deixei bem claro foi a aproximação que nós temos com esses dejetos, estas coisas ora indesejadas ora supervalorizadas através de um fetiche (considerado esquisito) mas todos nós somos em maior ou menor grau, dependendo de vários fatores, dejetos, todos somos diariamente indesejados, descartados, considerados sujos e temos sujeira e temos detritos tacados em nós. Dói porque, na maioria das vezes, temos que assistir a este movimento de maneira passiva. Ironico foi o comentário que diz: “nem todo mundo é assim.
nem todo mundo…” quando isso só confirmou meu pensamento. Todo mundo é assim, todo mundo puxa a descarga.  Me coloquei como sanitário, que sou e que fui, assim como você, assim como aqueles que procuram aqueles termos. Na verdade, eu queria descobrir o duradouro em mim, o atrativo e aquilo é o que sei, a constatação do efêmero.

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A você que procura:

Comigo não, violão.

Nem quero saber por que nos termos procurados pra chegar ao blog, está entre parênteses o namorado de alguém, que há meses, inocentemente fez um comentário breve e inofensivo num post meu. Eu nem sei se era ou não namorado.

De qualquer forma… algo errado. Googlear meu nome e o dele sendo que, não conheço a pessoa, não falo, não tenho contato e nem leio.

Favor me tirar de qualquer coisa que eu não assinei embaixo.

beijos e agradecimentos,

M.


Noticiando

Resolvi… não sei bem porque e nem por quanto tempo… tirar um pouco da poeira e das teias de aranha do This mess we´re in. Eu ia trocar de blogs novamente mas isto dá muita mão de obra pra vocês. Melhor deixar assim… escrevo o que quiser, onde quiser.

O Guia 44 se foi. A vida útil dele não foi longa mas já sabíamos que seria assim.


Nós e a Literatura

Estou fazendo três disciplinas no mestrado. Uma sobre um tema que me interessa mas o corpus ficcional é só dos anos 70 para cá – na verdade, se concentra nos anos 90 e 00;

Uma sobre Fausto de Goethe e de Marlowe – ou seja, abarca o Renascimento e o  chamado Goethezeit ;

E uma sobre o Romance falando da construção (acho que é esta a palavra) e crise do sujeito – nesta disciplina os livros exigidos são: O Vermelho e o Negro de Stendhal, Iracema de José de Alencar e Um, nenhum e cem mil do Pirandello.

Como estou tendo certo acesso privilegiado a um mergulho sobre certas obras, essa primeira disciplina me deixa muito desconcertada. Primeiro, porque como é contemporânea minha, muitas vezes tenho vontade de me empolgar e fazer disso aqui uma extensão clarahaverbuckiana e criar um espetáculo da minha vida. Ou fazer como o Marcelo Mirisola e me jogar no lixo midiático.

Mas… como tenho as outras disciplinas penso – que pobreza é essa de referências da contemporaneidade que está sendo estudada? Por que o que está chamando atenção é essa geração mtv, internet, youtube, facebook, twitter? E citando e se apropriando e se inspirando nesse tal lixo midiático? Que coisa triste!

Eu sei que existe gente por aí escrevendo com referências (impossível não fazer julgamentos de valores aqui) melhores. Vamos selecionar, não é? Vamos elevar a Arte, gente, por que… sinceramente… se dependesse tão somente do lixo midiático, meu diário dava conta de tudo o que quero escrever e eu estava sentada vendo Big Brother (que aliás, só assisti ao primeiro pelo caráter novidade). Favor subir o nível, hein, Literatura!

Acho que nós… (vocês quando lerem saberão quem são), deveríamos nos inspirar em Goethe e Schiller e criar um tipo de Manifesto Clacissista Pós Moderno.

Claro que esta literatura a que me referi acima pode e suscita questões (senão não estaria sendo estudada) mas não deixo de pensar cá comigo que estas questões só são possíveis pelo nosso enorme background. Não creio lá que elas se pretendam grandes coisas. E eu ainda acredito que somos capazes de grandes coisas. O Peter Handke, por exemplo… ok, ele começou a publicar há MUITAS décadas mas ele ainda está vivo e produzindo e ele faz A Literatura. Por que não seguirmos uma linha coerente de valoração artística, hein?

Pensemos…


João Paulo e o Garfield

Não tomo vergonha na minha cara que não aparenta meus vinteecinco anos. Um singelo caderno com a capa do Garfield faz as minhas vezes de scrapbook e anda até meio gordinho.

Eu não leio jornal. NUNCA. Pra quê? Morte, morte, morte, violência, assalto, chuva, terremoto, atentado e a coluna social que… boring demais prestar atenção em socialites que ninguém reconhece e sub – celebridades. Mas eu tenho uma sorte de pegar o jornal nas horas certas e ter comigo certas peças, artigos, resenhas, críticas e crônicas bem interessantes.

Garfield não discrimina. Nele há desde textos de apoio para que eu escrevesse minhas dissertações à época do Ensino Médio, a resenhas de coletâneas de contos, contos de verdade (de outras pessoas, claro), artigos sobre leituras essenciais (alguns exemplos? Goethe, Shakespeare, Guimarães Rosa, Pessoa, Proust, Kafka, Borges, Cortázar, Pessoa, Machado. Woolf… não importa. Clássicos que as pessoas tem que ler para se tornarem bons leitores, críticos e livre pensantes – e bons escritores também). Reportagem que marcou meu medo da publicação, chamado “Pilha das Ilusões”, sobre a pilha de livros enviados por esperançosos pretensos escritores às editoras e que estão fadados a uma vida em conjunto com as traças, crônicas sobre a decadentização da língua, resenhas sobre autores contemporâneos meus e muitas, muitas crônicas do João Paulo Cuenca, da época que ele escrevia em um suplemento semanal do Jornal O Globo (há um blog – abandonado – dessa época). Foi por este suplemento que conheci o trabalho dele. Li dois dos romances, não vi a minissérie. De vez em quando, acompanho as meias palavras que ele deixa escapar no Estúdio I (programa da Globonews).

Mas a escrita pela qual eu me apaixonei, foi a de cronista. Tanto que hoje, retomando e relendo o Garfield, consegui selecionar minhas três crônicas preferidas (as quais não estou conseguindo acessar pela internet e portanto, não poderei linkar). Chamam-se: Lúcio, o lúcido; Presos do lado de fora e, principalmente a crônica cujo título é O que faz valer a pena. A melhor de todas.

Sugiro também a leitura das crônicas escritas em Portugal e no Japão. Sugiro as imagens que as acompanham, e a música da semana. Como, por exemplo… Charlotte Gainsbourg cantando La Collectionneuse (minha música preferida dela) como uma das músicas das semanas.

Favor entrar nestas curtas narrativas sobre o Balneário de San Sebastián ou sobre qualquer outra cidade, no mau humor sobre a futilidade do falecido Tim Festival e na lucidez misturada a neuroses e perguntas, muitas, muitas perguntas. Tantas perguntas que eu decidi retomar meu trabalho em cima destas mesmas crônicas. Das gotas, das pequenas narrativas em que tudo e nada são ditos de forma tão… tão quase impossível, para os dias de hoje.


“Para rebater a negatividade de Genette, diríamos que o que é realmente novidade na autoficção é a vontade consciente, estrategicamente teatralizada nos textos, de jogar com a multiplicidade das identidades autorais, os mitos do autor, e ainda que essa estratégia esteja referendada pela instabilidade de constituição de um “eu”, é preciso que ela esteja calcada em uma referencialidade pragmática, exterior ao texto, uma figura do autor, claro, ele mesmo também conscientemente construído.”

AZEVEDO, Luciene Almeida de. Autoficção e literatura contemporânea.


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