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Deve ser mais fácil quando no meio há um oceano, pensou ela. Mas entre nós há somente terra encharcada, talvez algumas montanhas, muita grama.

Se suas saudades passassem pela água, ela poderia ser embalada pelas ondas, conseguindo dormir tranquilamente sem angústias por pensar que seria sempre uma surpresa o que o mar lhe reservava. Ela nunca poderia saber o que o oceano traria.

No entanto, era terra. Eram milhares de kilometros, ligados por precárias rodovias que formavam um caminho que ela nunca fez.

E que não sabia que iria fazer. Na terra, não havia nada que a ninasse. A terra é dura. Engole ou expulsa.Imagem

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Por dentro

Fecho os olhos rapidamente, a cabeça encostada na janela suja de vidro enquanto o ônibus percorre os traços quase iguais do subúrbio do Rio de Janeiro. O calor dissolvendo as linhas da minha visão, liquefazendo minha máscara de cores neutras e batom vermelho.

Enquanto os olhos descansam, minha cabeça bate na sua cabeceira de madeira, sem bater porque, instantaneamente, sinto a mão cheia de calos me apoiando, enquanto caio, revolvendo -me entre lençóis. Você dentro e eu, ainda mais dentro de mim. Ouço palavras ásperas as quais respondo cegamente, tateante. O que quiser, amor. Ouço respirações anelantes, sentindo âmago que desconhecia porque fora feito para receber.

Nunca antes eu havia recebido. Sem generosidade porque dividimos este pedaço de mim. Meus ouvidos, obstruídos, fecho os olhos e abro a boca, coloco a língua para fora.  Sinto gosto de branco.

Morro ao ponto de, quando reabro os olhos, o tempo não vem, percebo segundos em batidas convulsas de coração e arrepios acordados. Suspiro.

Desperto do descanso ocular com um tranco. Moça, chegamos no ponto final. Perdeu o ponto, foi? Está perdida?


Não dá para deixar de falar sobre a Marcha.

Há uma semana atrás, no sábado, dia 26 de maio, tivemos, em vários locais do mundo a MARCHA DAS VADIAS.

Para quem ainda não sabe, a Marcha começou no Canadá, quando um policial dissera em uma palestra que se as mulheres não se vestissem como umas vadias, não sofreriam violência. Será mesmo?

Se fosse assim, senhoras de idade e que andam “respeitosamente vestidas” não seriam, também elas, violentadas.

Eu não pude ir na Marcha mas meu apoio está com eles. Eu realmente não me considero uma feminista mas não dá para fechar os olhos com relação a algumas questões que deveriam ser discutidas e não o são por tabu, preconceito, ou por qualquer outro motivo.

O que ficou, infelizmente, da experiência das Marchas, é o preconceito galopante, a ignorância alheia e a hipocrisia. Isso, sem contar, no moralismo tão elevado que, sinceramente, me leva ao desespero.

Muita gente questionando o nome da Marcha, dizendo que não dá para respeitar por causa do nome.  Não entendem que é proposital. A linguagem é provavelmente o meio que mais perpetua preconceito. Esta palavra, vadia, existe tão somente para denegrir a mulher, rebaixá-la. Enquanto o seu equivalente masculino, vadio, tem o sentido de “homem preguiçoso, que não trabalha”. Vadia é só um dos exemplos. Existe um sem número de palavras ofensivas às mulheres. Esvaziando seu significado ofensivo, vadia, pode ser qualquer uma de nós, se assim escolher. Ter qualquer tipo de comportamento sexual que queira, contanto que proteja a si e as pessoas com as quais se deita. Poder usar a roupa que quiser, sem se preocupar em despertar desejo demais, o que talvez possa levar a uma situação de violência.  Naturalizar a própria nudez, ter seu corpo nu visto não (somente) como um corpo sexual mas como algo natural e portanto, belo e não indecente.

Indecente é querer tolhir  a liberdade individual de cada mulher, a essa altura do século XXI ao invés de ensinar: não estupre.

Me espanta como as pessoas ainda acham que feminismo é a oposição direta ao machismo, ou seja, que o feminismo, seria uma espécie de machismo de saias. Não é. Existem feministas intolerantes? É claro que sim. Porém, intolerância reina em todos os grupos. Não entendo porque no feminismo isto é tão marcado. Na história do feminismo, fala – se em ondas do feminismo. Elas são três.

A primeira onda, que aconteceu no final do século XIX e início do século XX, tinha como prioridade,  que as mulheres tivessem direitos básicos que lhes seriam inalienáveis, como o voto, igualdade nos direitos contratuais e de propriedade e oposição a casamentos arranjados.

A segunda onda,  teria começado na década de 60 e ido até a de 80,  onde as maiores  preocupações eram, além do sufrágio (grande preocupação durante a época da primeira onda),questões igualitárias e o fim da discriminação.

Já a terceira onda, que começou no início dos anos 90 mas acontece concomitantemente com a segunda onda, é o feminismo da micropolítica, menos pautado em mulheres brancas de de classe média. Entram nesta discussão, por exemplo, questões raciais. É o “feminismo da diferença”, aquele que leva em conta diferenças que nós, mulheres temos com relação aos seres humanos do sexo masculino (porque, embora as feministas das duas primeiras ondas quisessem apagar estas diferenças ao máximo, inclusive endurecendo a si mesmas, tornando-se elas mesmas algo masculinizadas, não podemos negar estas diferenças.) ,  levam em conta também as diferenças entre as próprias mulheres.  Somos muitas. Ser mulher é só uma das coisas que somos. Ser mulher pode querer se regozijar com a maternidade e a possibilidade de gerar vida, quanto (o meu caso), negar completamente a máxima de que toda mulher precisa ser mãe e, é infeliz não for mãe. Algumas de nós não sentem que carregam dentro de si esse “gene maternal”, digamos assim. Não é somente falta de vontade, é também inaptidão. O que leva a outra luta: o direito ao aborto.

E é dentro dessa terceira onda que se encaixa a Marcha das Vadias, na celebração das diferenças e no direito de ser como é. Creio que, baseadas em minhas roupas, pelo menos, dificilmente alguém me chamaria de vadia mas isso não dá a mim, nem a ninguém, o direito de achar que a “mulher vadia” pede para ser violentada.

Uma coisa que eu achei incrível (e não no bom sentido) foi a quantidade de críticas às mulheres de seios de fora nas Marchas. É a sociedade que erotiza o corpo feminino mas, isto que é o anti natural. Os seios, antes de fonte de desejo, são fonte de alimento a qual todos nós precisamos recorrer. E onde está o erótico nisso?

Por que então, seios de fora são indecentes? É surreal que façam comparações como “é como se os homens começassem a andar com o pênis exposto”. Gente, o que é isso? Que tipo de comparação é esta? Seios não são a mesma coisa que genitália e ninguém (pelo menos nenhuma mulher) estava com a genitália exposta. Já em Brasília, um homem achou que seria legal se expôr.

Para quem ainda tem dúvidas ou não entendeu, segue o link Marcha das Vadias for dummies.

E pra quem pensa que o protesto é somente feito por mulheres, aí vai:

p.s. Uma leitura que eu sugiro, é Helena o eterno feminino, de Junito de Souza Brandão. Não achei nenhuma sinopse bem feita para compartilhar e, como eu já li faz tempo, também não saberia escrever uma a altura. Mas é um livro muito interessante que discorre sobre o lugar da mulher (essencialmente o da mulher na Grécia antiga), sobre o papel que nos foi relegado a partir de Pandora, Helena de Tróia e Eva: a causa das maiores mazelas do mundo, as pecadoras, ardilosas e que usam seu corpo e sexualidade para dissuadir e tirar o homem do bom caminho. E como isto foi usado para a repressão e cerceamento de todas as liberdades e direitos femininos, durante séculos e séculos.


Menos eu

Foi no começo do ano, depois de uma marcação de Facebook, em uma vergonhosa foto de criança guardada pela menina que era minha melhor amiga naqueles tempos, no Colégio da Mabe, que soube que, o colégio onde passei a maior parte da minha infância, faliu.

No ano passado, foi o colégio onde minha irmã passou a maior parte da infância dela, o Princesa Isabel, que faliu.

O Colégio da Mabe estava longe de ser um ótimo colégio (coisa que ficou explícita quando cheguei no Pedro II sem saber conjugar ao menos o verb to be e fiquei em recuperação logo no meu primeiro ano no colégio novo. Mas o ambiente era perfeito.

Sem contar que, eu tive a sorte (sim, sorte porque isso é quase raro) de ter uma excelente alfabetização. A Mabe foi o local onde uma relação muito estreita com a leitura foi travada, já na infância.

Minha mãe frequentemente demorava para buscar a mim e a minha irmã e, neste meio tempo, entre o fim das aulas e a ida para casa, eu ia para a pequena biblioteca, conversar com a Tia Penha (a bibliotecária) e namorar um pouco os livros. Um por semana, no mínimo.

Mas é do ambiente que sinto falta. Eu tinha amigos, falava com a classe praticamente toda – um ou outro desafeto, é normal, não há como gostar de todos. A Mabe retinha lembranças demais: as minhas primeiras letras, a primeira vez que coloquei sapatilhas de balé, o primeiro amor, o pentear os cabelos das professoras (eu era a preferida para a tarefa), enquanto os demais alunos faziam o dever, a sensação de ter os cabelos lisos e sedosos da Tia Ana Cláudia escorrendo pelos meus dedos.

Com o fechamento da Mabe, sinto o centro do Rio, o bairro de Fátima cada vez menos meu. Minhas lembranças sendo empurradas para lugares dispersos. Faz muito tempo em que pisei lá pela última vez. Já depois de adulta, revendo todas as tias e querendo tudo aquilo de volta. Passo em frente quase todos os dias, separada por janelas de ônibus.

Não sei o que acontecerá com o prédio amarelo e verde. Tampouco sei o que faço com essas memórias.


Heartbeat

Heartbeat é a exposição da artista Nan Goldin montada para o MAM, incluindo fotos de The Ballad of Sexual Dependency, I´ll be your mirror e All by myself, séries de fotos montadas pela própria.

Inicialmente, a exposição seria no centro cultural Oi Futuro. Porém, devido à censura que sofreu por causa das fotos de crianças despidas (nas quais, segundo a lei brasileira, constituem pornografia), a exposição foi parar no MAM – Rio. O que, de fato, é melhor. O Oi Futuro, a meu ver, não tem estrutura para uma grande exposição.  A exposição de Pierre et Gilles, há uns dois anos, foi uma decepção porque era diminuta demais frente a quantidade (que não exclui qualidade) da obra dos dois artistas.  Os espaços lá são tímidos demais para a importância do que acontece, como a palestra com o Todorov.

Ao entrarmos no terceiro andar do MAM, a maior parte das fotos que vemos são de paisagens, itinerários percorridos com lentes, coração e algo mais que, imagino que eu nunca vá saber. E esse algo, é o que te faz ficar parado em frente de cada fotografia, procurando.

Para ver as demais fotos, as tais “fotos chocantes”, que não poderiam estar em uma galeria de um centro cultural no Flamengo, era preciso entrar em três salas fechadas, onde as fotos eram mostradas da forma como a organização da exposição imaginou, trilha sonora e tudo. Cada uma das salas reunia fotos das três séries acima citadas.

O fato é que as imagens, a meu ver, continham uma pureza inimaginável. E, tirando a superlotação e pessoas que se sentiam tão a vontade que deitavam nas salas de projeção, cada sala te envolvia na atmosfera própria, a começar pela música. Na primeira, era até um pouco difícil permanecer muito tempo sem lacrimejar e uma música da Björk (que tocava mais alto que a música das outras salas) soava em repeat.

As fotografias, o ar, a música… eu me postei (em cada uma das salas de projeção) bem na parede perto da saída, encolhida, e quando tinha oportunidade, me sentava, do mesmo modo. Haviam pessoas falando, risos, telefones tocando mas é preciso certa capacidade de abstração para poder entrar dentro do que se vê.

Aquele algo que Nan Goldin vê (e fotografa) deve ser diferente para cada pessoa, e cada pessoa sai de lá pensando e acha naquelas fotos não somente o que quer, mas o que sente uma vez que, impassividade é a única coisa que aquelas imagens não despertam.

Como toda e qualquer obra de arte, as impressões causadas e marcadas em mim, são certamente diferentes tanto daquelas pessoas deitadas perto das projeções quanto daquelas senhoras que se retiraram rapidamente de cada uma das salas.

Em mim, além de ensimesmamento, restou, mais do que tudo, uma solidão enorme.


Croatian letters

” I also think this felling of loss that you described in your last email when an author sees the printed book begins earlier when you have to cut chunks of what you wrote just because the publisher´s reviewer told that the public may not get something. I know it´s their job but every word that you have to toss is like cutting a little piece of yourself. I wasn´t thinking about market when I wrote most of those thinks and, to be honest, I still not thinking about it. I have no idea how many books were sold. I´m not making any money with it since I didn´t pay for anything to get the book published. They need to recover the money they spent with me, it´s only fair. I can relate to what you said about publishing a book feel like finishing a relationship. It happens to me a lot, every time a relationship ends and I´m doing this mental retrospective, I always catch myself trying to find what or how much of me (Mayra) are in that person and why did I fell in love with her.”

Se isso não fosse tão precioso e tão nosso, Correspondência com um croata soa bem.


Hoje, não.

Depois de algum tempo vivendo, aprende-se que: embora nunca possamos ser capazes de explicar (e tentemos achar milhões de explicações) de por que um amor “acaba”, por que alguém entedia-se, por que deixa-se o outro, essas pessoas que esquecem, que abandonam, que resolvem largar não sentem ou não sentiam aquilo. Não importam frases ou meias explicações como “não sou capaz de manter um relacionamento por mais de x tempo”, ou “eu sou assim mesmo”, “é meu jeito” e similares. É desamor ao outro, principalmente se esse outro deixa de ser uma grande fonte de entretenimento e prazer e vira sinônimo de vida – normal e adulta.

Não sei qual foi o motivo (talvez tenha sido um engano, mas nunca saberei) de.

Hoje, com o trânsito no centro endoidecido num centro da cidade endoidecido por uma passeata incitada pelo governador e uma reunião marcada justamente no centro, para tratar de um assunto desagradável, tive de descer do ônibus na Primeiro de Março, em frente àquela rua. Atravesei o sinal, mas,ao invés de entrar na rua, e me deparar com figuras passadas, de gente que abandona, continuei na Primeiro de Março e entrei na próxima. Perfeito, caí na Rua da Quitanda, a rua certa.

Hoje não era dia de encontrar ninguém, nem por acaso. Digo não e dou meia volta à possibilidade de assombrações, não me deixo ser perseguida por mais do que lembranças,quero que tudo que me chegue seja intocável, invisível, inaudível e impalpável. Se eu fui abandonada, me detenho no papel e me deixo estar longe das vistas, longe de notícias, de radar, longe de tudo, longe de quem quase sempre esteve longe.

Hoje, eu me resguardo e me protejo.

Hoje, não.


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