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Sobre ser bi

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Era pra eu ter escrito isso semana passada. Terça-feira da semana passada, dia 23 de setembro,foi o dia da visibilidade bissexual.Sei que uma parte de vocês lembra que, há pouco tempo atrás houve o dia da visibilidade lésbica e bissexual. Claro que isso é importante mas, além do foco não ser na gente, este dia deixava de fora os homens bi e os gender fluid, gêneros não-binários.O dia da visibilidade bi contempla todos estes gêneros.

Eu resolvi escrever (semana passada teve uma blogagem coletiva) porque no começo de setembro, o canal Sapatomica postou essa gracinha aqui no youtube:

Vídeo no qual a gracinha diz, entre outras que “bi tem que matar, né?” É, eu juro, assistam o vídeo, ela disse isso. Galere querendo dizer que não sabemos interpretar um texto/  um vídeo, querendo forçar uma barra duma ironia que não existe. Tá certo! E é um festival de bifobia vergonhoso.

Então, vamos lá falar dos “lugares- comuns” sobre bissexualidade:

1- Bi é confuso, está em cima do muro. Alguma hora tem que se decidir. Mas olha, não. NÃO, sabe? NÃO, APENAS NÃO. Ninguém aqui está confuso, em cima do muro, conhece uma mulher e um homem interessante e entra numa dúvida existencial. Não é assim que funciona. Quando uma pessoa está em um relacionamento monogâmico com outra, seja de que gênero seja, não vai sentir falta disso ou daquilo. Tem muito mais a ver com personalidade do que com orgão reprodutor. Por favor, entendam.

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2- Se você está em um relacionamento monogâmico, você desconfundiu, “escolheu um lado”, não é mais bi. Mas olha, para com essa merda. Isso é apagar, silenciar uma orientação sexual perfeitamente legítima. Eu já expliquei que não funciona dessa maneira. Eu não vou desgostar de outros gêneros porque estou me relacionando com um e nem vou ficar louca sentindo falta deses outros gêneros quando em um relacionamento. Esse apagamento e silenciamento é perigoso, faz com que as pessoas se sintam compelidas a escolher um lado para agradar os outros, para se adequar à sociedade e, o resultado disso é: mais apagamento, mais silenciamento e mais gente entoando o mantra de que bissexual não existe. Olha, existe. Não somos papai noel nem coelhinho da páscoa. Existimos. A atriz Anna Paquin explicou isso duma maneira fácil de entender.

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3- Bissexual pode pegar todo mundo, tem o dobro de chances. Em vez de ficar falando sobre isso, aqui, vou linkar o vídeo da Daniela sobre o assunto:

E você, hétero ou gay que não quer se relacionar com bissexuais, beleza, ninguém é obrigado. Agora, vamos fazer o favor de não justificar sua opção com bifobia. Principalmente se sua bifobia tem a ver com inseguranças suas. Se você é insegurx, não culpe uma classe inteira de pessoas por isso. Pessoas filhas da puta, existem de todos os gêneros e orientações.

3- Bi é promíscuo, só quer farra. DE NOVO: NÃO. Mesmo para os adeptos do poliamor, há regras. (Não é meu caso mas,sei que rola muita, muuuuuuuuuita conversa, nesses casos). Engraçado que a gente leva a fama de promíscuo mas, geralmente não é a gente que vem cheixs das propostas e intenções. As pessoas simplesmente não querem saber o que a gente acha sobre se relacionar com mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Elas já assumem que você está ok com isso, que você vai querer com certeza. Sinto desapontar mas, não é assim que a banda toca. O mesmo vale pra galera que acha que a gente tem que ficar com elas só porque somos bi e, teoricamente, ficamos com todo mundo. Olha, temos todo o direito de dizer não, de não ter vontade de ficar com alguém, de não nos sentirmos atraídos e não precisamos justificar nossa recusa. Não é não.

Ah, e não adianta, depois da recusa dizer que chamou fulana ou ciclano. Poderia ser um harém. A resposta não vai mudar.

4- Bi VAI trair. A traição pode acontecer em qualquer relacionamento. Não é exclusividade de relacionamentos com bissexuais e não tem mais ou menos chance de acontecer. Tem a mesma porcentagem de chance. Tem a ver com confiança, segurança e respeito. Você pessoa hétero ou gay pode ser a pessoa que pode trair uma pessoa bi, já pensou nisso? Só não pense em justificar a sua traição pelo medo que você tem de ser traidx pela pessoa bi porque isso não é justificativa. É falta de confiança no outro e insegurança. E ninguém está aqui para dar conta das inseguranças alheias.

5- O guarda-chuva bissexual. Na verdade, ser bissexual abarca muitas coisas. Nem todo bi se identifica com todas elas, mas a questão é muito mais ampla do que vocês pensam:

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Então, dá próxima vez que for falar uma gracinha pra alguém que é bi, que for fazer uma proposta porque, claro que a pessoa vai topar, ou que for vomitar bifobia, dê uma pensadinha antes.


Afinal, tem alguém que se sente representada pelas “as nega” do Miguel Falabella?

Hoje uma amiga super querida postou no FB que ficou curiosa quanto a série da Globo que deve estar começando daqui a pouco (pode até já ter passado o primeiro episódio quando eu terminar isso aqui). Essa curiosidade levantou uma discussão e, por isso resolvi escrever sobre isso.

Antes de tudo – sou o que qualquer brasileiro classifica como branca, embora tenha plena consciência que, em qualquer outra parte do mundo, eu não sou caucasiana mas latina. Então, não taquem pedra, por favor. Não vim fazer token e nem protagonizar uma luta a qual só posso apoiar, ser simpática.

Dito isso…

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A série, é uma adaptação de Sex in the City. Série essa que eu vi do começo ao fim. Na época, meu conhecimento do feminismo era muito superficial e eu não percebia muita coisa. Percebia que tinha seus fatores positivos sim, a liberdade sexual, um “somos todxs vadias” e aquela relação amorosa com a cidade. Mas, quanto aos relacionamentos? Vi muitas vezes as personagens se anulando, se torturando porque aquele homem tinha que amá-la. E quanto amar a si mesma? Nesse quesito, durante quase toda a série, Samantha deu um show (deu suas escorregadas também mas, quem nunca?)

O sexo e as nega seria uma versão disso. No gueto/ favela, com mulheres comuns com profissões normais. Essa é a premissa, creio. E o discurso  é da inclusão do negro na tv aberta brasileira. Mas, repetindo fórmulas tão batidas? Negro só pode morar na favela ou no gueto? Só pode exercer uma profissão na qual não precise de um diploma universitário? Por quê? Por que, pelo menos na Globo, negros que fazem papéis de classe média ou alta e educados em nível universitário são Lázaro Ramos, Taís Araújo e Camila Pitanga? Os outros não tem cara de negros ricos? Só podem pertencer ao gueto, à cozinha, à senzala? Por que será que a Taís Araújo deu aquela entrevista em que dizia que se sentia mal ao ir a um lugar e só ser atendida por negros? Por que eles não tem as mesmas oportunidades que ela teve? Porque ela sente que ser servida por iguais, é como se jogassem na cara dela constantemente o lugar que ela deveria estar ocupando. Por que será, Falabella? Quem inclui os negros? Você? Ai, olha, não!

Em Sex in the City, a narradora, Carrie Bradshaw, estava inserida no que ela estava falando, estava vivendo aquilo. As dores eram dela também. Ao que me parece, neste, a Cláudia Jimenez será a narradora, olhando de fora com a branquice dela, analisando comportamentos, dando conselhos. Que diabos a Cláudia Jimenez sabe sobre os temas que parece que serão focados, gente? Não faz sentido.

Uma conhecida tocou no assunto do mimimi do nome. Olha, não é mimimi. Por que tem gente ofendida com isso? Porque “as nega”, “suas nega” são expressões extremamente pejorativas e que, até hoje, não foram ressignificadas. Elas continuam a separar a mulher branca pura e intocável da casa grande da negra da senzala (alguém aí lembro de 12 anos de escravidão?) e não tem essa de que acabou a escravidão. O que não falta são casas grandes e senzalas disfarçadas por aí.

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Uma grande amiga minha, negra, disse que sentia como se fossem as novas mucamas. Sempre prontas pro sexo. Sempre querendo quem lhes dê uma vida boa. Hipersexualização não só da mulher como também do homem negro, SEMPRE, né? Afinal, são animais viris, mulheres “com quadril de parideira”, amas de leite etc.O corpo deles foi feito pra isso, não é? Não. O corpo deles lhes pertence. A eles e somente a eles. Vamos parar com essa folclorização. Está feio, chato, rude.

Não caiam nessa populice do Falabella. É engraçado às custas do sofrimento dos outros. Não tem empatia alguma. Não é um humor inteligente. Não é sequer uma boa sátira. É preconceito: racismo, elitismo, machismo. Copio e colo aqui a fala de Bianca Lessa, uma amiga dessa minha amiga, que também entrou na discussão:

“No país do “Somos Todos Macacos”, no país do Pelé dizendo que o Aranha agiu mal diante da torcida, no país da menininha gaúcha chorando na Ana Maria Braga – que também é o país do genocídio nas periferias – , toda tentativa midiática de desmerecer o combate à objetificação da mulher negra será tragicamente bem sucedida.”.

Para fechar, leiam este texto do blogueiras negras.

Quanto as negras, parentes, amigas, conhecidas e desconhecidas: FORÇA. Mais do que vocês já tem. Todo o meu amor para vocês.


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Estava chovendo. Ela colocou o seu rosto o mais perto possível da janela do ônibus; desta maneira se confundiam entre insosso e salgado, chuva e lágrimas.Ferida, esperando ser lavada daquela raiva que a consumia. Ressentia-se da mulher que um dia disse: eu te amo. O que quer dizer eu te amo quando os relacionamentos parecem brincadeiras de ciranda nas quais você solta a mão de uma pessoa e rapidamente, vem outra e te puxa de volta? E quando você não quer estar de volta na roda porque o girar lhe causa vertigens e as pessoas envolvidas, despertam asco? Ela preferia estar em dupla, na segurança de um banco de concreto, de mãos dadas, sem chuva. Mas as pessoas vão e trocam de lugares, numa quadrilha de afetos sem fim. Só que ela, ela se cansa e para no meio do caminho, ofegante, magoada porque não conseguiu acompanhar, porque não respeitaram o seu tempo.


You made it behave

“I’m a stem now
Pushing the drought aside
Opening up
Fanning my yellow eye
On the ferry
That’s making the waves wave
Illumination
This is how my heart behaves”

Feist – This is how my heart behavesheart

Me sinto menos eu a cada vez que a água, cada vez mais fria enche meu corpo com coisas desconhecidas. Folhas, comidas, remédios.

Menos eu quando, logo eu, sendo tão vaidosa, tendo tanta, tanta coisa que nem cabem nos espaços do meu quarto, não quero nada, não vejo nada. Tiro esmaltes, corto as unhas, o básico, me despersonalizo. E assim, o valor vem de que, mesmo sem isso tudo, gente consegue me enxergar e me incitar o riso, me incitar sentimentos, às vezes, até calma e serenidade.

Me sentia nua sem todas as minhas coisas mas, quando o sentir é tanto e tão hiperbólico, quem precisa delas?

Elas voltam.


Caminhos

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Diversas ervas imersas em uma água escura, algumas eu já vi, reconheço por cheiro, outras, mais secas, não sei o que são. Banho-me. A água quente, delicada, esfrego estas folhas em mim como quem não tem o direito mas precisa. São como lavandas, calêndulas, perfumes delicados que se incrustam no meu corpo, me acalmando, me perfumando. Quase não sei o que fazem. Não sei que significa “abre caminhos” porque não sei se, de fato, meus caminhos andam fechados ou se tive tantos, que desisti de andar por eles. De qualquer forma, algum dia, algum caminho (ou mais de um) começará a se delinear por sonhos e abraços ou por um não necessitar, o segundo, quimera, esperança estranha que não irá se concretizar.

E depois, jogar em alguma árvore, um canteiro qualquer que hoje, parecia mais fraco, menor que ontem, mais castigado pelo inverno, faltando um pedaço. Desbaratei. Mas, sou metódica, gosto dos mesmos pratos, leio do mesmo jeito, uso as mesmas roupas, escolho os mesmos itinerários e quase sempre, ouço as mesmas músicas. De um lado, um mendigo, cheio de coisas, sentado ocupando um banco inteiro com suas coisas e tralhas tão, tão valiosas. Mais valiosas que meu apartamento inteiro. Uma mulher falava com ele. Talvez para dar comida. Na minha esperança altruísta (pois não havia descido com nenhum dinheiro), era o que esperava.

Perto de mim, muitos homens conversando, tramando, prestando atenção em quem ia, quem ficava. Fortes, corpos esculpidos. Quase que pararam a respiração, a menina com os cabelos molhados e penteados, short e suéter se aproximava.

Joguei as folhas na metade do canteiro que ainda havia, como deveria ser.

Rezei.


550760_4945498083388_1238121485_nOutro dia, uma amiga postou essa imagem em uma rede social e me lembrei que, sempre que ouço esta música (frequentemente), eu penso como não existe, em português, uma palavra satisfatória para traduzir “heavenly”. Um advérbio de intensidade que se relacione com a palavra “paraíso”.

Mas mesmo “paraíso” parece não abarcar o significado de “heaven”. Para isto, existe a palavra “paradise”. Sei que “heaven” é o que consideramos o paraíso celeste, em outras palavras, o céu para onde vão as almas boas.

No entanto, “paraíso” e “paradise” me soam profanos demais.Quase como se esse paraíso não contivesse em si nada de  metafísico ou espiritual, como se fosse algo tremendamente bom mas que só conheceríamos em vida.

Chega a ser frustrante não existir uma palavra como heavenly que se pudesse usar correntemente em português. Só quem ama esta música por entender e sentir (ou ter sentido) em todas as células do corpo e em todos os buracos da alma este verso, pode compreender e apreciar o valor (e até a verdade) de que morrer ao lado de alguém, seja uma maneira ´heavenly´de ir.


Sem elo

Mas somos assim mesmo, dois perdidos.

Já não sei mais o que dizer tendo um grande espaço virtual intermediário. Termino perguntando se ele precisa de alguma coisa, mesmo sabendo que, no máximo, ele quer que eu leia algo e dê minha opinião.

Não sei porque depois de dois dias de convivência tão espaçados e de uma ausência tão longa, ele ainda confia seus projetos de filosofia à mim, já que ele sequer sabe a extensão do meu conhecimento, só o pressente.

 


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