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Querendo menos de mim.

Lutando para levar adiante a escritura da dissertação – que anda sofrida levando em consideração a minha recém adquirida dispersão fatal, me deparo com um trecho de The Culture of Narcissism, onde o autor, Christopher Lasch, assinala a ironia do reflexo narcisista na arte contemporânea, ao dizer que,

Ao se tornar narcisista, ela não só falha na criação de uma ilusão de realidade, como também sofre da mesma crise de auto-consciência que aflige o homem da rua. Chamando a atenção para a artificialidade de suas criações, os escritores desencorajam a identificação do leitor com os personagens, mas, assumindo uma postura crítica, eles ao mesmo tempo se tornam tão conscientes de suas técnicas de distanciamento que acabam achando cada vez mais difícil escrever sobre qualquer coisa que não seja a dificuldade de escrever (LASCH: 1979,175)

Emblemático, tendo em vista que nos dois livros que analiso, um dos motes essenciais deles é a dificuldade de narrar, de pôr a experiência em palavras, confirmando as palavras de Benjamin em O narrador.

Eu acrescentaria que, além disto, fica cada vez mais difícil não mergulhar na escrita auto-referencial, metalinguística e metaficcional. Para algumas pessoas, e aqui me incluo, fica difícil não começar partindo de si, tomando a si mesmo como um centro narrativo que não é fixo, desloca-se em seu próprio eixo, continuamente em movimentos translatórios e rotatórios. Ora bastando-se a si mesmo, ora precisando de tudo o mais para começar a recolher seus cacos frequentemente espatifados (como consequencia de ações próprias).
Porque toda estória metaficcional trata de recolhimento de cacos.

Outro dia estava passando na televisão o Histórias de Amor duram apenas 90 minutos, filme no qual o personagem-narrador, um pretenso escritor, reclama também da sua incapacidade de escrever,dizendo que, ao olhar para o mundo, consegue enxergar milhões de histórias, todas muito interessantes mas que acaba sempre escrevendo sobre si mesmo. Seguidamente, conclui se perguntando quem gostaria de ler sobre a vida dele. Ignorando os comentários posteriores sobre uma vida sem graça onde nada acontece, vi que este pensamento me assola diversas vezes. Embora eu ache quase todo o ser humano fascinante, com uma história e visão fascinante porque outra, não consigo me fascinar comigo mesma a ponto de achar que palavras em um livro que se confundam com as minhas próprias devam despertar interesse de quem quer que seja.

Além do mais, quero e preciso calar. Ando escrevendo e apagando, exercitando a auto-censura mais do que nunca e menos do que deveria. Sinto-me atraída por um silêncio sepulcral que não escuto nunca: estou cercada de ruídos e gritos. O excesso de barulho, de calor e outras drogas me confunde ao ponto de eu perder toda a oportunidade de me calar.

Regurgito palavras e me arrependo. Escrevo, publico e apago. Pior é quando elas saem pela boca e não há maneira de voltar atrás. Eu digo tudo o que não deveria ser dito. Meu filtro sempre foi defeituoso.

Por isso eu corro atrás do silêncio, tento me enlaçar a ele e o amo tão profundamente. E quando finalmente o conquistar me atarei a ele por tempo indeterminado.

E se me perguntarem escritora, responderei que não. Já foi um sonho, porém serei muda até nos dedos.

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Nicht dich habe…

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Nicht dich habe ich verloren,

sodern die Welt.

BACHMANN, Ingeborg in Eine Art Verlust


Não dá para deixar de falar sobre a Marcha.

Há uma semana atrás, no sábado, dia 26 de maio, tivemos, em vários locais do mundo a MARCHA DAS VADIAS.

Para quem ainda não sabe, a Marcha começou no Canadá, quando um policial dissera em uma palestra que se as mulheres não se vestissem como umas vadias, não sofreriam violência. Será mesmo?

Se fosse assim, senhoras de idade e que andam “respeitosamente vestidas” não seriam, também elas, violentadas.

Eu não pude ir na Marcha mas meu apoio está com eles. Eu realmente não me considero uma feminista mas não dá para fechar os olhos com relação a algumas questões que deveriam ser discutidas e não o são por tabu, preconceito, ou por qualquer outro motivo.

O que ficou, infelizmente, da experiência das Marchas, é o preconceito galopante, a ignorância alheia e a hipocrisia. Isso, sem contar, no moralismo tão elevado que, sinceramente, me leva ao desespero.

Muita gente questionando o nome da Marcha, dizendo que não dá para respeitar por causa do nome.  Não entendem que é proposital. A linguagem é provavelmente o meio que mais perpetua preconceito. Esta palavra, vadia, existe tão somente para denegrir a mulher, rebaixá-la. Enquanto o seu equivalente masculino, vadio, tem o sentido de “homem preguiçoso, que não trabalha”. Vadia é só um dos exemplos. Existe um sem número de palavras ofensivas às mulheres. Esvaziando seu significado ofensivo, vadia, pode ser qualquer uma de nós, se assim escolher. Ter qualquer tipo de comportamento sexual que queira, contanto que proteja a si e as pessoas com as quais se deita. Poder usar a roupa que quiser, sem se preocupar em despertar desejo demais, o que talvez possa levar a uma situação de violência.  Naturalizar a própria nudez, ter seu corpo nu visto não (somente) como um corpo sexual mas como algo natural e portanto, belo e não indecente.

Indecente é querer tolhir  a liberdade individual de cada mulher, a essa altura do século XXI ao invés de ensinar: não estupre.

Me espanta como as pessoas ainda acham que feminismo é a oposição direta ao machismo, ou seja, que o feminismo, seria uma espécie de machismo de saias. Não é. Existem feministas intolerantes? É claro que sim. Porém, intolerância reina em todos os grupos. Não entendo porque no feminismo isto é tão marcado. Na história do feminismo, fala – se em ondas do feminismo. Elas são três.

A primeira onda, que aconteceu no final do século XIX e início do século XX, tinha como prioridade,  que as mulheres tivessem direitos básicos que lhes seriam inalienáveis, como o voto, igualdade nos direitos contratuais e de propriedade e oposição a casamentos arranjados.

A segunda onda,  teria começado na década de 60 e ido até a de 80,  onde as maiores  preocupações eram, além do sufrágio (grande preocupação durante a época da primeira onda),questões igualitárias e o fim da discriminação.

Já a terceira onda, que começou no início dos anos 90 mas acontece concomitantemente com a segunda onda, é o feminismo da micropolítica, menos pautado em mulheres brancas de de classe média. Entram nesta discussão, por exemplo, questões raciais. É o “feminismo da diferença”, aquele que leva em conta diferenças que nós, mulheres temos com relação aos seres humanos do sexo masculino (porque, embora as feministas das duas primeiras ondas quisessem apagar estas diferenças ao máximo, inclusive endurecendo a si mesmas, tornando-se elas mesmas algo masculinizadas, não podemos negar estas diferenças.) ,  levam em conta também as diferenças entre as próprias mulheres.  Somos muitas. Ser mulher é só uma das coisas que somos. Ser mulher pode querer se regozijar com a maternidade e a possibilidade de gerar vida, quanto (o meu caso), negar completamente a máxima de que toda mulher precisa ser mãe e, é infeliz não for mãe. Algumas de nós não sentem que carregam dentro de si esse “gene maternal”, digamos assim. Não é somente falta de vontade, é também inaptidão. O que leva a outra luta: o direito ao aborto.

E é dentro dessa terceira onda que se encaixa a Marcha das Vadias, na celebração das diferenças e no direito de ser como é. Creio que, baseadas em minhas roupas, pelo menos, dificilmente alguém me chamaria de vadia mas isso não dá a mim, nem a ninguém, o direito de achar que a “mulher vadia” pede para ser violentada.

Uma coisa que eu achei incrível (e não no bom sentido) foi a quantidade de críticas às mulheres de seios de fora nas Marchas. É a sociedade que erotiza o corpo feminino mas, isto que é o anti natural. Os seios, antes de fonte de desejo, são fonte de alimento a qual todos nós precisamos recorrer. E onde está o erótico nisso?

Por que então, seios de fora são indecentes? É surreal que façam comparações como “é como se os homens começassem a andar com o pênis exposto”. Gente, o que é isso? Que tipo de comparação é esta? Seios não são a mesma coisa que genitália e ninguém (pelo menos nenhuma mulher) estava com a genitália exposta. Já em Brasília, um homem achou que seria legal se expôr.

Para quem ainda tem dúvidas ou não entendeu, segue o link Marcha das Vadias for dummies.

E pra quem pensa que o protesto é somente feito por mulheres, aí vai:

p.s. Uma leitura que eu sugiro, é Helena o eterno feminino, de Junito de Souza Brandão. Não achei nenhuma sinopse bem feita para compartilhar e, como eu já li faz tempo, também não saberia escrever uma a altura. Mas é um livro muito interessante que discorre sobre o lugar da mulher (essencialmente o da mulher na Grécia antiga), sobre o papel que nos foi relegado a partir de Pandora, Helena de Tróia e Eva: a causa das maiores mazelas do mundo, as pecadoras, ardilosas e que usam seu corpo e sexualidade para dissuadir e tirar o homem do bom caminho. E como isto foi usado para a repressão e cerceamento de todas as liberdades e direitos femininos, durante séculos e séculos.


desânimo literário

Nunca vou entender que novíssima literatura é essa que anda se resenhando por aí em que todo o “escritor” acha que precisa construir frases com pelo menos três palavrões, idolatrando Bukowski ( e serei bem sincera aqui: não gosto dele. não há nada que me chame a atenção, nada que eu ache genial, a não ser o livro dos gatos, que, pelo tema, não tem como não gostar) e brincando de querer ser o Henry Miller do século XXI.

E as meninas todas leitoras apaixonadas de Fante falando da sua (sim, da delas mesmas) vida íntima e sexual como quem conta o que comeu no o almoço.

Quanto ainda falta para esse modelo de literatura ficar datado para os outros, ao invés de só para mim?

Quantas negativas super educadas terei de lançar para explicar minha recusa em divulgar livros nos quais não acredito?

Em tempo: eu também não acredito no meu mas, pelo menos, não pedi que ninguém divulgasse, ou curtisse. Aliás, depois que seu conteúdo saiu de minhas mãos, ele passou a ser de todos (revisora, editores, diagramadores, vendedores, site da internet, leitores) mas meu, já não é faz tempo. Carrega meu nome mas não sou eu.


Menos eu

Foi no começo do ano, depois de uma marcação de Facebook, em uma vergonhosa foto de criança guardada pela menina que era minha melhor amiga naqueles tempos, no Colégio da Mabe, que soube que, o colégio onde passei a maior parte da minha infância, faliu.

No ano passado, foi o colégio onde minha irmã passou a maior parte da infância dela, o Princesa Isabel, que faliu.

O Colégio da Mabe estava longe de ser um ótimo colégio (coisa que ficou explícita quando cheguei no Pedro II sem saber conjugar ao menos o verb to be e fiquei em recuperação logo no meu primeiro ano no colégio novo. Mas o ambiente era perfeito.

Sem contar que, eu tive a sorte (sim, sorte porque isso é quase raro) de ter uma excelente alfabetização. A Mabe foi o local onde uma relação muito estreita com a leitura foi travada, já na infância.

Minha mãe frequentemente demorava para buscar a mim e a minha irmã e, neste meio tempo, entre o fim das aulas e a ida para casa, eu ia para a pequena biblioteca, conversar com a Tia Penha (a bibliotecária) e namorar um pouco os livros. Um por semana, no mínimo.

Mas é do ambiente que sinto falta. Eu tinha amigos, falava com a classe praticamente toda – um ou outro desafeto, é normal, não há como gostar de todos. A Mabe retinha lembranças demais: as minhas primeiras letras, a primeira vez que coloquei sapatilhas de balé, o primeiro amor, o pentear os cabelos das professoras (eu era a preferida para a tarefa), enquanto os demais alunos faziam o dever, a sensação de ter os cabelos lisos e sedosos da Tia Ana Cláudia escorrendo pelos meus dedos.

Com o fechamento da Mabe, sinto o centro do Rio, o bairro de Fátima cada vez menos meu. Minhas lembranças sendo empurradas para lugares dispersos. Faz muito tempo em que pisei lá pela última vez. Já depois de adulta, revendo todas as tias e querendo tudo aquilo de volta. Passo em frente quase todos os dias, separada por janelas de ônibus.

Não sei o que acontecerá com o prédio amarelo e verde. Tampouco sei o que faço com essas memórias.


como todo mundo

Me chamou pronunciando meu nome errado – como todo mundo.

Não olhei porque não achei que fosse comigo. E de novo, e de novo. Entendi, pelo barulho atrás de mim, que alguém tentava se comunicar comigo. Demorou.

– Você conhece a X.

– Sim, conheço.

– Ela me perguntou se eu conhecia uma… – pronunciou meu nome errado novamente. Eu não a corrigi da primeira vez, deu nisso. – Ela é minha amiga também.

Eu pensei foda-se, mas tenho que encontrá-la uma vez por semana durante três ou quatro meses. Não quero aguentar olhares tortos por tanto tempo. Isso iria consumir energia demais, essa animosidade. Mas continuei olhando para ela, creio que talvez tenha sorrido porque pensava: ela não é minha amiga. Conhecer alguém não é sinônimo de ter amizade por esta pessoa. Aliás, eu não gosto de X. Só que X., não sabe.


Eu sou aquela.

O problema de fazer uma merda fenomenal, ficar com raiva e falar qualquer coisa que você pense na hora da raiva justamente para machucar é que você cai em descrédito, para sempre.

Aquele um momento de descontrole apaga todos os outros vividos e você vira aquilo, afinal, foi ali que mostrou suas “true colors”. É compreensível que, após certas coisas, certas pessoas não queiram mais contato. É mais do que compreensível, até. No lugar dela, você faria o mesmo, cortaria relações. É o saudável a se fazer, se preservar.

Só que então, você, que fez a merda, pára e se arrepende. Tenta se desculpar e não consegue. É esquecido e se entristece, não pelo fato de ser esquecida. Eu, pelo menos, não acredito que eu seja inesquecível.

O se entristecer é que você vai se tornar aquilo. Você será aquela pessoa. E isto só importa porque, apesar de você ter feito merda, apesar de ter magoado uma pessoa, esta pessoa que magoou é importante para você. Mais do que ela pense e muito mais do que você mesmo achava.

E tudo o que você fizer posteriormente àquela merda, vai estar à luz daquilo. Te diminuindo, te tornando cada vez mais odiosa (ainda que a intenção seja boa – e delas, o inferno está cheio, não é mesmo?) aos olhos da pessoa magoada.

 

 

 


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