Category Archives: diálogos

Once upon a time…

 

Há alguns anos atrás, Nívea, Mariana, Carlos e Valério e Fábio em um encontro deslocado na casa de Carlos. O motivo: video game. Video Game desde o fim dos anos oitenta virou o novo “vamos ver um filme lá em casa”.

Nívea não jogava, aquela casa enorme, ela sem poder circular, pouca bebida e tendo que aturar lutas e corridas sem graça numa tela. Em m breve momento, Mariana se desatracou de Fábio e disse:

–         Fica com o Valério.

Valério: Um brucutu de bermudas, regata e havaianas. Esforço zero.

–         Não.

–         Se eu não estivesse com o Fábio e eles não fossem amigos, ficaria com ele. Ele tem cara de sexo sujo.

–         Não mesmo.

Minha querida Mariana…. Esses homens grandes, sabe como é,sempre se achando o máximo. Que sexo sujo. Está mais para um sexo narcisista e egoísta e olhe lá. Vira pro lado e dorme e eu fico encarando a parede ou vendo a não velocidade de ponteiros de relógio.  Tem o agravante que ele vai ficar com medo de mim. Não, ele não vai me achar agressiva (a princípio) mas marco fácil, sou pequena, diminuta, quase quebradiça. Ele vai querer delicadeza, fazer amorzinho debaixo do lençol. Desculpa mas amorzinho não dá. Se for pra ser estrela – do – mar, braços e pernas abertas, imóveis, eu me resolvo comigo mesma e muito obrigada. Mal sabe(rá) ele que eu gosto de ser marcada e jogada de um lado pro outro, pra cima, pra baixo, nos móveis, no chão. Falar ele também não vai falar, não vai xingar. Pouca gente se lembra do ditado “lady na rua e puta na cama” na hora certa. Em resumo, Mari… vai ser uma merda. Eu sou homem demais para ele, ele não é mulher e nem homem para mim. Não vai dar. Eu não sou comida, simplesmente. Assim não rola. O teu problema é que você vê essa barba por fazer e uns músculos proeminentes e imagina. Minha imaginação enreveda por um magrelo bem normal, quem sabe até meio apagadinho. Homem é isso. Se não há um mínimo de privação, não tem esforço e nem troca. Não tem jogo.

E Nívea senta em um canto lendo quadrinhos feliz da vida (por enquanto).

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João Paulo e o Garfield

Não tomo vergonha na minha cara que não aparenta meus vinteecinco anos. Um singelo caderno com a capa do Garfield faz as minhas vezes de scrapbook e anda até meio gordinho.

Eu não leio jornal. NUNCA. Pra quê? Morte, morte, morte, violência, assalto, chuva, terremoto, atentado e a coluna social que… boring demais prestar atenção em socialites que ninguém reconhece e sub – celebridades. Mas eu tenho uma sorte de pegar o jornal nas horas certas e ter comigo certas peças, artigos, resenhas, críticas e crônicas bem interessantes.

Garfield não discrimina. Nele há desde textos de apoio para que eu escrevesse minhas dissertações à época do Ensino Médio, a resenhas de coletâneas de contos, contos de verdade (de outras pessoas, claro), artigos sobre leituras essenciais (alguns exemplos? Goethe, Shakespeare, Guimarães Rosa, Pessoa, Proust, Kafka, Borges, Cortázar, Pessoa, Machado. Woolf… não importa. Clássicos que as pessoas tem que ler para se tornarem bons leitores, críticos e livre pensantes – e bons escritores também). Reportagem que marcou meu medo da publicação, chamado “Pilha das Ilusões”, sobre a pilha de livros enviados por esperançosos pretensos escritores às editoras e que estão fadados a uma vida em conjunto com as traças, crônicas sobre a decadentização da língua, resenhas sobre autores contemporâneos meus e muitas, muitas crônicas do João Paulo Cuenca, da época que ele escrevia em um suplemento semanal do Jornal O Globo (há um blog – abandonado – dessa época). Foi por este suplemento que conheci o trabalho dele. Li dois dos romances, não vi a minissérie. De vez em quando, acompanho as meias palavras que ele deixa escapar no Estúdio I (programa da Globonews).

Mas a escrita pela qual eu me apaixonei, foi a de cronista. Tanto que hoje, retomando e relendo o Garfield, consegui selecionar minhas três crônicas preferidas (as quais não estou conseguindo acessar pela internet e portanto, não poderei linkar). Chamam-se: Lúcio, o lúcido; Presos do lado de fora e, principalmente a crônica cujo título é O que faz valer a pena. A melhor de todas.

Sugiro também a leitura das crônicas escritas em Portugal e no Japão. Sugiro as imagens que as acompanham, e a música da semana. Como, por exemplo… Charlotte Gainsbourg cantando La Collectionneuse (minha música preferida dela) como uma das músicas das semanas.

Favor entrar nestas curtas narrativas sobre o Balneário de San Sebastián ou sobre qualquer outra cidade, no mau humor sobre a futilidade do falecido Tim Festival e na lucidez misturada a neuroses e perguntas, muitas, muitas perguntas. Tantas perguntas que eu decidi retomar meu trabalho em cima destas mesmas crônicas. Das gotas, das pequenas narrativas em que tudo e nada são ditos de forma tão… tão quase impossível, para os dias de hoje.


Imaginariamente…

– Teacher, are you single?

– Yes.

– So, no boyfriend?

* Teacher looks angrily at the student and says in a harsh voice*

– No.

– Girlfriend?

– I suppose you want extra homework today.


Mais uma semana…

– Não vai dar certo.

– E você não vai ficar esperando, hein! Não vá ser a pá desse lixo!

– Não.


Correspondência

” De qualquer forma, divirta-se bastante porque a vida é curta e não vale a pena ficar sofrendo pelos outros. ;)”

parte de um email fofo da Luana, explicando a ausência do meu aniversário.O email que eu mais gostei, destes que recebi.

” Sabe, a gente fica carregando esses relacionamentos imaginários nas costas e… é tão cansativo!
Por que são imaginários. Estamos lidando com duas pessoas que, claramente, não querem se envolver.

(…)

Na verdade, fico sempre esperando essa felicidade que não vem de mim, que não vem dos meus méritos, quase uma necessidade de aprovação, de que alguém fique constantemente afirmando e reafirmando o seu amor por mim. Ok, mommy and daddy fucked me up. Claro, edipo e electra complexes. Mas… quando me sentirei realmente amada e completa? Isso acontecerá algum dia?”

“A pergunta que faço à mim e à vc é… merecemos isto?

Fique bem. Não hesite em me ligar.
eu te amo.”

Trechos de emails meus e da uma grande amiga. Cheios de sofrimentos e dúvidas, cheios de lágrimas num procura incessante por ajuda por, duas especilistas em… serem rejeitada. Mas ainda dói, cada vez, como se fora a primeira.


Grow grow grow

Teach me, Mommy
How to grow
How to catch someone’s fancy
Underneath the twisted oak grove

[ Grow grow grow – PJ Harvey]

– Então é só isso que você tem? Uma crise adiantada de idade?

– Não! Eu não quero casar e mesmo se eu quisesse, não poderia casar agora, VOCÊ não quer casar! É claro que, eu sinto falta de você, sinto falta da gente, não sei o que aconteceu, como ficamos agora, mas isso não é (só) sobre amor.

– É sobre as outras pessoas, de novo, ainda? Você tem que começar a pensar em você.

– Eu sei. E talvez seja esse o problema. Claro que é um pouco de medo de envelhecer. Daqui há cinco anos, eu terei 30. E aí? Eu quero a minha casa, o meu canto, a minha profissão. Lembra, quando você é criança e acha que ter 20 anos é muita coisa, é ser adulto? Eu não era adulta aos 20 anos, mal tinha entrado na adolescência. Tinha acabado de terminar o colégio e entrar na faculdade, tive vários casos, nenhum relacionamento sério ou duradouro. Saía todos os sábados, bebia muito, ocasionalmente, me drogava. Agora eu tenho 25 anos – ou quase. E ainda não tenho nada. Um emprego propriamente dito, uma casa toda e só minha, uma cama que seja minha de verdade e nem uma pessoa pra ligar e perguntar como foi o dia. Tudo que eu tenho são diplomas e notas. Boas notas, mas, de que me vale?

– Eu não quero me privar da sua companhia. Não quero só ser amiga. Ser amiga é estranho, eu não consigo.

– Nem eu. Eu gosto de você.

– Eu também.

Diálogo parcialmente verdadeiro. Há coisas não ditas, há coisas que não se pode deixar de esquecer. Há um certo conforto em certas palavras. E certas presenças.


– Tinha um cara morto ao meu lado.

– O que foi, filha?

– Um cara morto, ao meu lado, no ônibus.

– Não, não tinha.

– Tinha sim, sem camisa, bermuda vermelha, havaianas …Eu conheço aquela falta de expressão. Drogas. Não dá nem para saber se ele está sofrendo. Completamente vazio. Morto. O corpo é um invólucro sem conteúdo. Oco, oco.

– Eu não sei por que você nasceu assim, Beatriz. Odeio quando você vem falar comigo. Não gosto das suas conversas.

– Eu sei.

– Por favor, não faça mais isso.

– Você vai reclamar que eu não converso.

– Eu sei.

– E já te pedi para me chamar de Bia, só.

entrou no quarto.

 


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