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La vie d´Adèle

Eu gostaria de começar explicando porque este filme teve um impacto tão grande em mim. Não sei dizer. Talvez seja meu momento atual, talvez seja a carência de filmes ou séries que representem esta temática ou talvez seja o fato de eu enxergar meus relacionamentos presentes, passados e futuros nele. O caso é: não consigo parar de pensar no filme, até mesmo comprei a graphic novel e fico meio puta com quem fala  mal.

Agora vejo que eu mesma classifiquei o filme errado. O tema do filme, não é o lesbianismo. É o primeiro amor. Aquele arrebatador, que você demora anos para superar, o que você se esfrega o mais forte que pode e, mesmo assim,  ele se recusa a sair de você. No filme, são feitas inúmeras referências a um livro que se chama La Vie de Marianne, que, eu devo admitir,  eu desconhecia completamente. As cenas, as vezes parecem entrecortadas, mas, há diversos fios condutores durante o filme.

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Um deles, o primeiro encontro na rua de Emma e Adèle e no dia seguinte, o professor perguntando o que você sente quando se apaixona à primeira vista? Você se sente mais cheio ou mais vazio? O menino que responde diz que mais vazio pelo arrependimento de não ter falado com a pessoa. Mas, ao mesmo tempo, amar nunca é somente à primeira vista e é o vazio que acaba prevalecendo.

Como não pudemos ler La Vie de Marianne, não sabemos que papel este livro realmente desempenha na história. No entanto, é um livro ainda mais antigo que Madame Bovary. Se Flaubert soube captar um pouco daquela alma feminina em chamas, desesperada por uma vida excitante, sensações magníficas mas que, no fundo acaba em tédio e adultério, Marianne, que veio antes, deve ter vindo para explodir ainda mais estes sentimentos da alma feminina.

E o que seria olhar para alguém e ter esta certeza? Aos poucos anos de idade? O que fazer?

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Outras coisas que me chamaram a atenção, mas num nível menos analítico, digamos assim, são: achei desnecessárias, da primeira vez que eu vi, tantas cenas da Adèle dormindo e babando. Mas me dei conta de que, a cada deitar e acordar, Adèle despertava para um novo dia, uma nova de si que deveria lidar com novas situações. Fossem elas boas, ou más.

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E então, após confusões típicas de adolescente, ela conhece Emma, num bar gay. E já estava predestinado, como nas tragédias gregas. Aliás, o filme segue o modelo das tragédias: a hybris, clímax e catarse. Quando ela conhece Emma, ambas se apaixonam e, tudo culmina, com uma espécie de casamento (onde Adèle se torna a musa de Emma) e uma traição.

É interessante notar as mudanças que também Emma sofre ao longo do filme. Ela deixa de ser uma artista parisiense boêmia, com os cabelos azuis e se torna uma bela loira, que se apaixona por uma mulher que já tem uma filha. Enquanto o cabelo de Emma muda de cor, mudam seus traços, o jeito como ela desenha, ela adiciona cores,as formas mudam.Nesse meio tempo, Adèle também muda, deixa de ser adolescente, arruma um emprego e… começa a vestir predominantemente o azul. Sem contar o bem que faz para os olhos ter a Léa Seydoux no tamanho de uma tela de cinema.

Outra coisa que chama a atenção é o fato de que Adèle nunca parece se sentir bem confortável no papel de lésbica, embora ame Emma. Ela muitas vezes até se esquiva. Em outras, parece ter vergonha. Por isso que não se pode dizer que o filme é sobre o lesbianismo. É sobre amor. Um exemplo disto, é a cena da Parada Gay, na qual ela passa boa parte se sentindo visivelmente deslocada, ou, quando vai visitar os pais de Emma e se surpreende que elas possam se beijar na boca.  Depois de uma passagem de tempo em que estavam juntas, Adèle, entediada com a vida de professora e dona de casa, se dedicando somente a elas, não aguenta e tem um caso.  À la Madame Bovary.

images (11) A esta altura Emma já está loira e é Adèle quem abusa do azul, nas suas roupas e as vezes, nos ambientes que escolhe, num clima meio frio e cinzento. Enquanto isso, Emma pinta as formas abauladas da mulher grávida e colore o preto com azul  representando Adèle e laranja  representando Lise, a sua futura nova esposa.

Além de ser uma história de amor, é uma história de como é difícil largar, abrir mão, parar de sentir saudade daquilo que era para ser para sempre e do que é crescer, se descobrir através de si e pelo outro.

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A verdade é que desisti de ler não somente por ciúmes. Desisti porque nada era direcionado, nada dito para mim. Nenhuma palavra voava em minha direção, nenhuma indireta me atravessava ou me feria. Nenhum eufemismo empregado para encobrir um xingamento.

Era como se eu não fosse. Como se não existisse. Como se nós, tivesse sido uma entidade que criei – e aliementei – na minha cabeça durante anos. (E não são todos os nós do mundo desta maneira?)

Não, não são. O esforço para me esquecer precisa ser tão brutal a ponto de você precisar me remover de si cirurgicamente, bisturi à mão. No entanto restam as sujeiras. Antes que você consiga me desencrustrar de sua pela, na qual me acomodei tão bem, você terá que se esfolar inteira.

Existe sempre um ponto corporal desconhecido, esquecido por nós mesmos em que nos guardaremos. A memória corpórea fará latejar junto com as saudades, os anseios. Algum dia você me tocará, neste lugar desconhecido que no qual me escondo em você.

– Mas já não tirei toda essa merda de mim?
.

.

.

moderato molto dolce – E funcionou?

 


como todo mundo

Me chamou pronunciando meu nome errado – como todo mundo.

Não olhei porque não achei que fosse comigo. E de novo, e de novo. Entendi, pelo barulho atrás de mim, que alguém tentava se comunicar comigo. Demorou.

– Você conhece a X.

– Sim, conheço.

– Ela me perguntou se eu conhecia uma… – pronunciou meu nome errado novamente. Eu não a corrigi da primeira vez, deu nisso. – Ela é minha amiga também.

Eu pensei foda-se, mas tenho que encontrá-la uma vez por semana durante três ou quatro meses. Não quero aguentar olhares tortos por tanto tempo. Isso iria consumir energia demais, essa animosidade. Mas continuei olhando para ela, creio que talvez tenha sorrido porque pensava: ela não é minha amiga. Conhecer alguém não é sinônimo de ter amizade por esta pessoa. Aliás, eu não gosto de X. Só que X., não sabe.


Acontece

No penúltimo dia, pensando ao rolar da cama, soube que seria a história de um homem, no carnaval.  Um homem que decide abandonar uma mulher, um dia antes de começar a festa mas não necessariamente para fazer parte das festividades como seria de se esperar.

Um homem simples, pobre de dinheiro, que mergulha em dias festivos. Tudo quase o contrário de mim, tudo o que nunca foi –  e que, ouso dizer, nunca serei.

Quase tudo, tirando palavras e (alguns) pensamentos.

Ficção.


Gratidão

Deligara o telefone. Para sempre ou, para o que mais se aproximava do sempre: por aquela noite. Tivera de tirar a bateria.Nunca seria deixadaem paz. Pessoas são atraídas, excitadas pelo não, pela ausência, se sentem compelidas a tirar alguém do isolamento, curar as pessoas da depressão, achar que, se matarem a pessoa de carinho, amor, sexo e afeto, que ela voltará ao normal, sorrirá, será doce e gentil.

Acham que será obediente e submissa, e, principalmente, grata.

Ela ficaria mais grata se, ao menos quando sentisse sono, pudesse dormir, se, quem chama à noite de fato, fosse quem ligasse, ou aparecesse. Ela seria grata se não tivesse de atender inúmeras ligações humilhantes, de fazer soluçar ou se não tivesse de aceitar passivamente indiferença alheia.

Não seria mais feliz mas ficaria grata.


Temporariamente

O tempo não vagueia como as minúsculas partículas de areia que descem pela ampulheta. Tempo corre, e escorre liquefeito feito prata – viva. Não é cura, não faz com que as coisas passem, porque é Ele que as traz de volta. Das mais indesejadas às mais dolorosas.  Flui pungentemente e envenena porque nós achamos que é remédio. Insolúvel, intragável só faz com que estejamos mais próximos da morte, de uma morte.

Intoxica-me este tempo a conta – gotas enquanto espero. Um minuto, dois, três. O gosto metálico na boca aumentando. Tempo ausência de vida, consciência de solidão. Meu tempo – rio que nunca é o mesmo do começo e me faz diferente a cada segundo. Mudo posições, mudo desafios, mudo doenças e vícios, mudo vida, não me permite um estagnar consciente, traz presente e futuro consigo e estagna ao não me trazer vida, ao não me trazer atividade, boas notícias. Meu tempo, o tempo em que os ponteiros derretem, desfazem-se em fluídos prateados. Tic tic tic tac.

Não dá para dormir com o barulho de ponteiros circulando o relógio, mesmo dos derretidos. Não dá para ignorar o Tempo, amante infiel e ingrato, ele grita e esperneia: A VIDA, A VIDA!

[ texto ainda em fase de construção/experimentação – eu juro que na minha cabeça ele era bom]


As variações – ou literariedades parte I

Uma das  notícias “literárias” – tenho dificuldades de me exergar como escritora: eu fui a primeira contribuinte do Projeto As Variações Literárias, idealizado pela Bruna Maria. Me senti honrada, como sempre, com convites sempre feitos por ela, idealizadora de Projetos instigantes. A admiração é mútua, assim como a amizade, o carinho e o respeito. Vocês poderão ler mais sobre o Projeto no primeiro link. A primeira variação, é minha. Demorei a divulgar porque queria que a segunda variação já estivesse no ar, para que se pudesse ler mais do que eu, uma vez que não me acho grandes coisas.


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