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Heartbeat

Heartbeat é a exposição da artista Nan Goldin montada para o MAM, incluindo fotos de The Ballad of Sexual Dependency, I´ll be your mirror e All by myself, séries de fotos montadas pela própria.

Inicialmente, a exposição seria no centro cultural Oi Futuro. Porém, devido à censura que sofreu por causa das fotos de crianças despidas (nas quais, segundo a lei brasileira, constituem pornografia), a exposição foi parar no MAM – Rio. O que, de fato, é melhor. O Oi Futuro, a meu ver, não tem estrutura para uma grande exposição.  A exposição de Pierre et Gilles, há uns dois anos, foi uma decepção porque era diminuta demais frente a quantidade (que não exclui qualidade) da obra dos dois artistas.  Os espaços lá são tímidos demais para a importância do que acontece, como a palestra com o Todorov.

Ao entrarmos no terceiro andar do MAM, a maior parte das fotos que vemos são de paisagens, itinerários percorridos com lentes, coração e algo mais que, imagino que eu nunca vá saber. E esse algo, é o que te faz ficar parado em frente de cada fotografia, procurando.

Para ver as demais fotos, as tais “fotos chocantes”, que não poderiam estar em uma galeria de um centro cultural no Flamengo, era preciso entrar em três salas fechadas, onde as fotos eram mostradas da forma como a organização da exposição imaginou, trilha sonora e tudo. Cada uma das salas reunia fotos das três séries acima citadas.

O fato é que as imagens, a meu ver, continham uma pureza inimaginável. E, tirando a superlotação e pessoas que se sentiam tão a vontade que deitavam nas salas de projeção, cada sala te envolvia na atmosfera própria, a começar pela música. Na primeira, era até um pouco difícil permanecer muito tempo sem lacrimejar e uma música da Björk (que tocava mais alto que a música das outras salas) soava em repeat.

As fotografias, o ar, a música… eu me postei (em cada uma das salas de projeção) bem na parede perto da saída, encolhida, e quando tinha oportunidade, me sentava, do mesmo modo. Haviam pessoas falando, risos, telefones tocando mas é preciso certa capacidade de abstração para poder entrar dentro do que se vê.

Aquele algo que Nan Goldin vê (e fotografa) deve ser diferente para cada pessoa, e cada pessoa sai de lá pensando e acha naquelas fotos não somente o que quer, mas o que sente uma vez que, impassividade é a única coisa que aquelas imagens não despertam.

Como toda e qualquer obra de arte, as impressões causadas e marcadas em mim, são certamente diferentes tanto daquelas pessoas deitadas perto das projeções quanto daquelas senhoras que se retiraram rapidamente de cada uma das salas.

Em mim, além de ensimesmamento, restou, mais do que tudo, uma solidão enorme.

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Daniela

Tenho irmã (e irmão). Não seria a mesma coisa sem Daniela. Perfect timing. Daniela antecipa minhas necessidades antes de mim mesma, quando vejo, já agiu. Cuida de mim mesmo à distância, liga pra médica e tudo.

Mais do que irmã ou soulmate, Daniela é gêmea minha, siamesa. Fomos separadas à altura do peito. Do lado esquerdo, coração. Temos cicatrizes para comprovar.


Duchamp talvez tenha vindo aqui.

(imagem acima gentilmente cedida por um colega de mestrado – não para este fim mas whatever…)

Uma coisa que muito me impressiona, é a atração que a escatologia exerce entre as pessoas. Freud constatou entre as fases do desenvolvimento infantil a fase anal, onde a excreções e fezes atraem a atenção das crianças mas isto se dá entre o primeiro e terceiro ano de vida. Uma pessoa que não passa bem por esta fase, tem duas opções: torna-se um maníaco obsessivo ou um fascinado por escatologia.

Eu não entendo. Devo ter brincado muito de massinha e saciado toda a minha curiosidade. Não entendo quando o humor americano sempre descambra para piadas de mau gosto envolvendo escatologia e por que eles acham que é tão engraçado. Um dia, tirei foto de uma plaquinha no banheiro da casa em que faço terapia. Da plaquinha feminina (havia a masculina). Tirei a foto com um propósito, daí, nasceu o post Repositório. 

O que acontece, é que este é o post mais acessado do meu blog. Não é estimativa. É fato. E todos os dias, pelo menos duas pessoas procuram nos sites de busca as palavras “favor não jogar papel no vaso”, “descarga após usar o vaso sanitário”, “papel higiênico no cesto” e similares.  Sei que estas pessoas não estão procurando meu post mas, também não sei qual o propósito delas. Aprender a advertir as pessoas, fazer com que tenham modos no toalhete? Aprender o que se faz no banheiro? O que? Não consigo mesmo imaginar.

Nas vanguardas européias, houve a figura de Duchamp, o precursor do ready made, que consiste no fato de transportar um elemento da vida comum, mais banal e transportá-lo para o campo artístico. Tal elemento, a priori, não é considerado arte por não ter o caráter de laboração artística e, por isto, grande parte dos críticos não aceitou e nem viu com bons olhos quando Duchamp levou aos museus um urinol cujo título de obra era: A fonte.

Há quem visse na arte de Marcel Duchamp um caráter iconoclasta aproximando o formato deste urinol em particular com as formas femininas. E esta interpretação abre margem para outra, de caráter psicanalítico onde se tem em mente o membro masculino jorrando urina nas formas femininas (olha aí, de novo) – fetiche de muitos, diga-se.

Obviamente que essa iconoclastia nos dias de hoje atingiu níveis como este:

Voltando ao meu post, meu intuito, como acho que deixei bem claro foi a aproximação que nós temos com esses dejetos, estas coisas ora indesejadas ora supervalorizadas através de um fetiche (considerado esquisito) mas todos nós somos em maior ou menor grau, dependendo de vários fatores, dejetos, todos somos diariamente indesejados, descartados, considerados sujos e temos sujeira e temos detritos tacados em nós. Dói porque, na maioria das vezes, temos que assistir a este movimento de maneira passiva. Ironico foi o comentário que diz: “nem todo mundo é assim.
nem todo mundo…” quando isso só confirmou meu pensamento. Todo mundo é assim, todo mundo puxa a descarga.  Me coloquei como sanitário, que sou e que fui, assim como você, assim como aqueles que procuram aqueles termos. Na verdade, eu queria descobrir o duradouro em mim, o atrativo e aquilo é o que sei, a constatação do efêmero.


João Paulo e o Garfield

Não tomo vergonha na minha cara que não aparenta meus vinteecinco anos. Um singelo caderno com a capa do Garfield faz as minhas vezes de scrapbook e anda até meio gordinho.

Eu não leio jornal. NUNCA. Pra quê? Morte, morte, morte, violência, assalto, chuva, terremoto, atentado e a coluna social que… boring demais prestar atenção em socialites que ninguém reconhece e sub – celebridades. Mas eu tenho uma sorte de pegar o jornal nas horas certas e ter comigo certas peças, artigos, resenhas, críticas e crônicas bem interessantes.

Garfield não discrimina. Nele há desde textos de apoio para que eu escrevesse minhas dissertações à época do Ensino Médio, a resenhas de coletâneas de contos, contos de verdade (de outras pessoas, claro), artigos sobre leituras essenciais (alguns exemplos? Goethe, Shakespeare, Guimarães Rosa, Pessoa, Proust, Kafka, Borges, Cortázar, Pessoa, Machado. Woolf… não importa. Clássicos que as pessoas tem que ler para se tornarem bons leitores, críticos e livre pensantes – e bons escritores também). Reportagem que marcou meu medo da publicação, chamado “Pilha das Ilusões”, sobre a pilha de livros enviados por esperançosos pretensos escritores às editoras e que estão fadados a uma vida em conjunto com as traças, crônicas sobre a decadentização da língua, resenhas sobre autores contemporâneos meus e muitas, muitas crônicas do João Paulo Cuenca, da época que ele escrevia em um suplemento semanal do Jornal O Globo (há um blog – abandonado – dessa época). Foi por este suplemento que conheci o trabalho dele. Li dois dos romances, não vi a minissérie. De vez em quando, acompanho as meias palavras que ele deixa escapar no Estúdio I (programa da Globonews).

Mas a escrita pela qual eu me apaixonei, foi a de cronista. Tanto que hoje, retomando e relendo o Garfield, consegui selecionar minhas três crônicas preferidas (as quais não estou conseguindo acessar pela internet e portanto, não poderei linkar). Chamam-se: Lúcio, o lúcido; Presos do lado de fora e, principalmente a crônica cujo título é O que faz valer a pena. A melhor de todas.

Sugiro também a leitura das crônicas escritas em Portugal e no Japão. Sugiro as imagens que as acompanham, e a música da semana. Como, por exemplo… Charlotte Gainsbourg cantando La Collectionneuse (minha música preferida dela) como uma das músicas das semanas.

Favor entrar nestas curtas narrativas sobre o Balneário de San Sebastián ou sobre qualquer outra cidade, no mau humor sobre a futilidade do falecido Tim Festival e na lucidez misturada a neuroses e perguntas, muitas, muitas perguntas. Tantas perguntas que eu decidi retomar meu trabalho em cima destas mesmas crônicas. Das gotas, das pequenas narrativas em que tudo e nada são ditos de forma tão… tão quase impossível, para os dias de hoje.


Cores – sol

Então, eu queria um amarelo nas unhas para alegrar o cinza e a falta de perspectivas instaladas por aqui. Um amarelo com flocos Raio Alfa para viajar em partículas de cristal líquido. Mas não da mesma forma que o Marcelo Camelo, ao fazer seus ensaios (pseudo hippie, intelectual, pedófilo do caralho) pede mais “pôr – do – sol” nas músicas. Que mais pôr – do – sol o que? Não quero nada que possa ser aplaudido no Arpoador. Minhas unhas amarelo da cor de giz -de -cera de criança. Justamente quando preciso arrumar emprego. Então, se conseguir pelo menos uma entrevista qualquer, lá vou eu desesmaltar minhas unhas cor de giz – de -cera, feitas terapeuticamente num momento em que não tenho tempo a perder, num momento em que tudo parece maior – e por favor, não confundir maior com melhor. Agora, relógios correndo, cálculos mentais e frustrações esperando ao virar de esquina, no mês que vem.


” Dearest, I feel certain that I am going mad again”

 

” Não, agora nunca mais diria, de ninguém neste mundo, que eram isto ou aquilo. Sentia-se muito jovem; e, ao mesmo tempo, indizivelmente velha. Passava com uma navalha através de tudo; e ao mesmo tempo ficara de fora, olhando. Tinha a perpétua sensação, enquanto olhava os carros, de estar fora, longe e sozinha no meio do mar; sempre sentira que era muito, muito perigoso viver, por um só dia que fosse. Não que se julgasse inteligente, ou muito fora do comum. Nem podia saber como tinha atravessado a vida com os poucos dedos de conhecimento que lhe dera Fräulein Daniels. Não sabia nada; nem línguas, nem história; raramente lia um livro agora, exceto memórias, na cama; mas como a absorvia tudo aquilo, os carros passando e não diria de Peter, não diria de si mesma:sou isto ou sou aquilo.

Seu único dom era conhecer as criaturas quase como instinto, pensava, seguindo seu caminho. Se a deixavam numa sala com alguém, eriçava-se como um gato; ou ronronava.

(…)

Importava então, indagava consigo, encaminhando-se para Bond Street, importava mesmo que tivesse desaparecido um dia, inevitavelmente? Tudo aquilo continuava sem ela. Sentia-o? Ou seria um consolo pensar que a morte acabava com tudo, absolutamente? Ou, de qualquer maneira, pelas ruas de Londres, no fluxo e refluxo das coisas, talvez sobrevivesse, Peter sobrevivesse, vivessem um no outro, ela fazendo parte, estava certa, das árvores de casa; daquela casa ali, tão feia, toda caindo em pedaços como estava; parte da gente que nunca havia se encontrado; espalhando-se como uma névoa, entre as criaturas que melhor conhecia e que a sustentariam nos seus ramos, como vira as árvores sustentar a névoa, embora isso esparzisse tanto a sua vida, e a si própria…”

WOOLF, Virgina. Mrs Dalloway. Tradução de Mário Quintana.1a. Edição. Abril Cultural. Julho de 1972

 

Adeline Virginia Woolf nasceu em vinte e cinco de janeiro de 1882 e faleceu em 28 de março de 1941.Seria redundante dizer que Virginia foi uma das maiores romancistas, ensaístas e contistas de sua época e que, sua influência permanece em muito dos escritos vigente, entre eles, o engenhoso modo de fluxo de consciência que é mostrado em sua plena forma na passagem acima.

Não apenas os escritos de Virginia eram fascinantes e plurais, quase caleidoscópios, como também sua vida, cheia dos tantos altos e muitos, muitos baixos para os quais não conseguiram extrair uma explicação plausível. Uma escritora talentosa, com um marido devoto e que não resistiu. Virginia cumpriu seu legado colocando a melancolia em todas as mulheres, inclusive nas mais planas donas de casa. Em alguma parte de nossos dias, questionamentos como os feitos acima,que nunca envelhecem, podem ser feitos por qualquer mulher no mundo, inclusive no mundo hiper – pós moderno dos dias de hoje. As dores são quase sempre as mesmas. A solidão, o atordoamento perante às luzes, os carros, as tarefas a cumprir, que lugar relegar ao seu amor e quanto se pode extrair de alguém que lhe ama tanto que está pronto a sacrificar a própria vida pela sua?

Após uma das piores crises depressivas, indiagnosticáveis propriamente, como a maioria delas o é, encheu o bolso do casaco de rochas e caminhou, pela última vez até o River Ousen onde se deixou afundar, se levar pela correnteza, finalmente deixando que a água interrompesse as vozes, interrompesse a loucura, interrompesse tantas das coisas das quais não havia como livrar-se. Não nos cabe perguntar o por que. Temos somente que aceitar que não poderia ser de outra maneira. Como viver num mundo em que não é senão um cacto de mundo, em que o amor parece estranho e que a pena é o sentimento que é suscitado pelas pessoas? Como conviver com a idéia de um marido fiel e que abdicou de sua própria carreira em benefício da saúde da bem amada? Como suportar o mundo?

Morrer neste caso, seria egoísmo ou o esgotamento de uma vida pesada mas que, no entanto nos trouxe munição para uma vida inteira?

Thank you, Virgina. Without you, must of us wouldn´t even exist.


In Rio

Always soft.

Always peaceful.

Always saying right things in silece.

Always there – even far away.


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