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O boladacionismo e minhas colaborações

Eu esqueci de dizer que um grande (o melhor) amigo, Tunai Caldeira, me chamou para colaborar com o blog dele, o Jovi, na boa…

O título do blog é Boladacionismo. Acho que talvez eu esteja levando este título a sério demais e o que anda me incomodando, encontra lugar na minha escrita de lá. Mas são incômodos diferentes dos que exponho aqui. Lá, coloquei algo, certa vez que, não me sinto a vontade para escrever aqui, por exemplo. As propostas de blog são muito diferentes.

De qualquer forma, o Boladacionismo tem uma tônica bem mais voltada para o humor e, exercitar o meu lado humorístico não é nada fácil. Eu não sou engraçada.

Mas, a meu modo, tenho estado por lá também. Três vezes até agora, para ser mais precisa.

Só achei que deveriam saber.

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E por que não?

Todo o sentido de resolver fazer ou não as coisas se resume não ao que determinada ação vai me trazer ou não. Até deveria, pelo nível (se baixo ou alto, não importa) de maturidade que meus vinteecinco anos me trouxeram até agora. Mas sim a não razão para não fazer certas escolhas, não ter determinadas experiências, não conhecer determinadas pessoas.

É que eu cansei de dizer não e perder. Diversas coisas. Cansei de perder vida, por todo(s) o(s) medo(s) que sinto e desta vez, eu exorcizei o passado em copos de cerveja, vodka e cachaça com gengibre.

Uma noite com histórias frescas de literatura contemporânea brasileira, backgrounds de leitura, fazendo de um tempo frio e chuvoso do Rio de Janeiro, uma extensão mais agradável e boêmia de São Paulo.

Todas as trocas, as trocas não táteis que poderiam haver, circundadas pela idéia de um beijo que sim, rejeitei mas que tornaram toda a noite, em um longo e quente beijo, amanhecido na Mem de Sá. E ainda, flores de folha de palmeira, livros estrangeiros, e todos os feromônios enlouquecidos chamando a vida para acasalar contigo.

Eu ri na rua. Eu li, falei, conheci, bebi. E saltitei vindo para o trabalho na segunda, sabendo que nem tudo foi sonho, mas tudo é delírio. A ficção, querido, começa conosco, não sentados na frente do nosso computador, mas continuando, à nossa maneira os passos daqueles tão inscritos em nós.


l’ombre d’un regret

Um telefone na agenda, não é só mais um contato. As vezes é a maneira (quem sabe até a única maneira) de se fazer menos esquecida, algo presente por alguém que possa ter colocado seus emails direto para a caixa de spam.

Uma tentativa de aproximação, não é uma sedução implícita. Um arrependimento sobre correspondências pesadas e vulgares, não é necessariamente falso. Um “não sai da minha vida”, não é necessariamente problema à vista, pesadelo, importunações.

Com o passar de meses, aniversário de um ano desde um rompimento de algo que, eu sempre achei que poderia ter sido a amizade da minha vida, veio o desespero. Nem mesmo para felicitar, timidamente, quase como quem pede desculpas, somente pelo tom de voz, pela ousadia de ligar a um feliz aniversário.

Nada quero dessa vez a não ser desejos de felicidade (que sim, não me incluem). Perder uma amizade ou uma amizade em potencial, quando ela é realmente importante, quando é alguém que não só tira e nem soma, é um dividendo, faz parte de um alinhamento de alguns (muitos pensamentos e sensações – não falo de sentimentos aqueles, que, nunca foram mesmo para ser, agora sei. Nem os de mim por você ex- quase amiga, e nem de mim por ela).

Ironicamente, a única palavra que carrega em si, entranhada, tudo o que venho guardado durante todo este tempo é aquela palavra, tão portuguesa:

Saudade.

Isto não é sobre mim, sobre meus desejos (que não possuo), minhas vontades (que inexistem), meu egoísmo ( eu estou tentando desde de.) ou sobre qualquer coisa que eu possa estar querendo impôr (não quero impôr nada, e me impôr, não posso, à ninguém, nem quero – ou melhor, se quisesse, nem conseguiria, não sei fazê-lo).

Toda a insistência, o incômodo, a invasão e o desagrado, depois que o diálogo se fechou é tão somente porque eu sei reconhecer alguém especial e importante. Mais do que isso, sei reconhecer alguém raro e que eu gostaria de poder dar oi, fe-li-ci-tar, torcer por (torcer de perto), ouvir, e ouvir e ouvir.

É como ter conhecido um pedaço da vida, do mundo, de mim e de tudo o que mais prezo e tê-lo arrancado, sem que, haja a chance de consertar.

Um telefone, não é só um telefone. Um contato, não é só um contato. La recherche de la fraternité perdu.


O mundo perfeito sem mim

As redes sociais como simulacros de vida.

Todo mundo, os programas de tv, os livros, artigos, monografias e dissertações na Academia, os textos publicados online, falando sem parar sobre como a vida das pessoas da geração y e z anda em conjunto com as redes sociais e avanços tecnológicos já que nascemos e crescemos junto deles e com eles.

Não é só isso. Nossos relacionamentos começam e terminam, na maior parte das vezes, digitalmente. Ou pelo menos são impulsionados – tanto para um começo quanto para um fim.

Deletar se tornou um verbo utilizado para tratar de pessoas. Eu deleto você. Eu exclui você. Eu e você não existe porque EU cliquei em um botão e puf! VOCÊ desaparece. Ou assim as pessoas gostam de pensar.

Engraçado como no começo, você deleta uma pessoa com a qual houve um término que foi feio ou doloroso e você precisa de um tempo, precisa se recuperar, pode ser até que você ainda ame a pessoa e nem esteja com raiva. Mas você precisa daquele tempo para deixar que as coisas saiam de você (como se isso realmente acontecesse). E você não quer ver e nem saber se a pessoa está a percorrer todo o circuito de bares da cidade, fazendo a louca na Lapa, pegando qualquer um(a) que aparece e que bate os cílios. Você também não quer saber se a pessoa está sofrendo muito, tanto ou mais que você, chorando e cantando saudades. Você só precisa de distância, alguma distância. É necessário, é saudável.  Então, alguém deleta alguém. Não há aviso prévio, no geral. Geralmente quem é deletado sabe porque está sendo deletado e, se não sabe, desconfia.

As vezes machuca. Pode ser algo temporário mas pode significar um: você não faz parte da minha vida, eu não quero que você faça parte da minha vida. Não sou seu(sua) amigo(a).

Quando a pessoa acha que passou tempo suficiente, ela pode te readicionar, como quem diz: ok, passou um tempo, te esqueci, estou pronto(a).

Mas e quando, mesmo com a mágoa, permanece ali, aquele nome na sua timeline e você lê e vê todos os dias, torce por aquela pessoa, espera poder um dia falar com aquela pessoa. Você e aquela pessoa, que não simulam vida nas redes sociais, que não se excluem e nem deletam por algum(alguns) motivo(s). E eles podem ser fortes ou fracos, secretos ou todo mundo pode saber quais são. O fato é que, mesmo não se falando, de alguma forma vocês ainda estão um na vida do outro e sabem disso e não fingem que não estão. Mesmo com a mágoa, mesmo com as ofensas, mesmo com as coisas que vocês esperam ver e com as coisas que vocês não querem ver.

E então, um dia uma dessas pessoas deleta a outra. Como quem diz mesmo que não te quer e nem precisa de você na vida dela, que nunca precisou. Ela te DELETA. Nada existiu? O que pode doer tanto a ponto de se retirar de uma vida em que você não estava nem presente – e que nem cutucava ou se fazia presente e, se tentava se fazer, não seria por compreender que era por algum tipo de sentimento bom que essa pessoa nutria ou nutre?

Por que manter por meses uma pessoa que faz mal e assim, sem mais nem menos, deletar?  Essa necessidade de cortar as pessoas, eu não entendo. Como pensei… acho que é normal que as pessoas realmente não consigam entender o próprio teor nocivo. Mas como começar a tentar entender se não há diálogo, se ele é vedado porque “dói demais” ou porque você “soa sedutor (ou sedutora) demais”, mesmo não tendo intenção alguma de seduzir. Uma pessoa não se seduz sozinha, se ela se deixa seduzir, não deve ser por algum motivo? E, meine Liebe, tudo, absolutamente tudo, dói demais.

Então é isso. Um clique, um aperto de botão, um switch entre on e off e uma pessoa é cortada, ela sai da sua vida. E quando nos esbarrarmos na rua? É para atravessar também e corroborar com o seu mundo perfeito, sem mim?

Se incomoda se eu não curtir?


Anúncio moderno

Branquinha dos cabelos cacheados e selvagens , um e cinquenta e pouco de altura e bem magrinha procura moreno dos cabelos igualmente cacheados e selvagens, necessário ter mais que 1,80, olhos amendoados, boca cheia e outros atributos inomeáveis.

Favor escrever para toyboy@email.com


João Paulo e o Garfield

Não tomo vergonha na minha cara que não aparenta meus vinteecinco anos. Um singelo caderno com a capa do Garfield faz as minhas vezes de scrapbook e anda até meio gordinho.

Eu não leio jornal. NUNCA. Pra quê? Morte, morte, morte, violência, assalto, chuva, terremoto, atentado e a coluna social que… boring demais prestar atenção em socialites que ninguém reconhece e sub – celebridades. Mas eu tenho uma sorte de pegar o jornal nas horas certas e ter comigo certas peças, artigos, resenhas, críticas e crônicas bem interessantes.

Garfield não discrimina. Nele há desde textos de apoio para que eu escrevesse minhas dissertações à época do Ensino Médio, a resenhas de coletâneas de contos, contos de verdade (de outras pessoas, claro), artigos sobre leituras essenciais (alguns exemplos? Goethe, Shakespeare, Guimarães Rosa, Pessoa, Proust, Kafka, Borges, Cortázar, Pessoa, Machado. Woolf… não importa. Clássicos que as pessoas tem que ler para se tornarem bons leitores, críticos e livre pensantes – e bons escritores também). Reportagem que marcou meu medo da publicação, chamado “Pilha das Ilusões”, sobre a pilha de livros enviados por esperançosos pretensos escritores às editoras e que estão fadados a uma vida em conjunto com as traças, crônicas sobre a decadentização da língua, resenhas sobre autores contemporâneos meus e muitas, muitas crônicas do João Paulo Cuenca, da época que ele escrevia em um suplemento semanal do Jornal O Globo (há um blog – abandonado – dessa época). Foi por este suplemento que conheci o trabalho dele. Li dois dos romances, não vi a minissérie. De vez em quando, acompanho as meias palavras que ele deixa escapar no Estúdio I (programa da Globonews).

Mas a escrita pela qual eu me apaixonei, foi a de cronista. Tanto que hoje, retomando e relendo o Garfield, consegui selecionar minhas três crônicas preferidas (as quais não estou conseguindo acessar pela internet e portanto, não poderei linkar). Chamam-se: Lúcio, o lúcido; Presos do lado de fora e, principalmente a crônica cujo título é O que faz valer a pena. A melhor de todas.

Sugiro também a leitura das crônicas escritas em Portugal e no Japão. Sugiro as imagens que as acompanham, e a música da semana. Como, por exemplo… Charlotte Gainsbourg cantando La Collectionneuse (minha música preferida dela) como uma das músicas das semanas.

Favor entrar nestas curtas narrativas sobre o Balneário de San Sebastián ou sobre qualquer outra cidade, no mau humor sobre a futilidade do falecido Tim Festival e na lucidez misturada a neuroses e perguntas, muitas, muitas perguntas. Tantas perguntas que eu decidi retomar meu trabalho em cima destas mesmas crônicas. Das gotas, das pequenas narrativas em que tudo e nada são ditos de forma tão… tão quase impossível, para os dias de hoje.


Memória retrograda

É preciso passar a mão ao lado da cabeça, como se faz quando se quer afastar um inseto para, parar de pensar no assunto. Num assunto. Nele.

A televisão não contribui. Entre olhadelas ocasionais baixando os olhos do livro e os óculos dos olhos, vejo na televisão aquele quem já tinha identificado como a pessoa que lembraria ele. Novos pensamentos, novos insights para mesmas lembranças, novos desejos.

Preciso falar com você – dizem os olhos dela, que ele não pode ver. Eu… eu… não consegue deixar sair. Ainda não.

Mas, a noite fresca, o sábado, o táxi, o vidro escuro, você por trás do vidro, olhando: quando, quando, quando?

Urgência invisível de quem diz e sabe: preciso ser cuidado.


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