Category Archives: imagens

Mas você vai.

 

2014-01-10-11-26-31Esperando a brisa da praia, antecipando o dia seguinte. Todos os senhores não tiravam os olhos da menina sentada sozinha num dos bancos dos jogos de damas. Escrevia. O que será que escrevia naquele papel tão pequeno? Nenhum deles conseguiria ler. Nem pelo tamanho do bloco, nem pela letra dela.

A brisa havia chamado, o livro encontrado rapidamente na prateleira de um sebo. Sebos são lugares estranhos. Os adora, no entanto, nunca consegue ficar muito tempo neles. Seja pela poeira dos livros antigos que lhe sobe as narinas em espirros, seja pela caótica desorganização.

Há o precisar do outro livro, além daquele dado. E a saudade do gosto de sal de um dia. Um sorriso com uma sombra. Ela, covarde e egoísta. Eu, apaixonada.

Mas você vai e eu, eu fico, com a brisa chamando.

Advertisements

Do que eu não entendia

Imagem

Uma vez uma mulher a quem magoei me disse que, muito polidamente, que embora parecesse que eu me preocupasse muito com ela e, apesar de eu tentar manter contato com ela de uma forma leve, displicente até (o que na minha cabeça aliviaria tanto o golpe que eu dei, quanto a culpa que eu sentia por tê-lo dado), eu nunca havia realmente me preocupado com o que ela queria. Acho que posso estender isso a: talvez, no meu intenso egocentrismo, eu nunca tenha entendido o que ela precisava.

Ela não precisava de palavra minha alguma, de nenhuma displicência ou leveza de minha parte, nenhuma palavra. Na verdade, ela apenas precisava da minha ausência total. Não que ela pudesse ou quisesse (bem, talvez quisesse) apagar a minha lembrança. Mas ela não precisava da constante lembrança da rejeição que eu representava.

Hoje em dia, eu entendo que, tudo o que um coração que foi diminuído de tamanho não necessita, é de uma preocupação que não se apresenta como verdadeira, que mascara uma culpa, que alimenta algo que nunca deve ser alimentado e mantém o magoado sempre escravo, pendurado na forca pelo desejo, pela necessidade, pelo amor.


Imagem

O pós contemporâneo com suas intervenções urbanas, ando pelas ruas prestando atenção em todo chão, paredes, muros, postes e até céu. Grafitti, colagem, stêncil.

Hoje, vim aqui, porque percebi que, sem você, minha existência se ameaça, não a percebo, ela não se configura, irreal, fluída, transparente e finita como bolhas de sabão. Porque você segura a mim e diz: Vo-cê.


A morte é uma flor

Erlisch nicht ganz – wie andere es taten

vor dir, vor mir,

das Haus, nach dem Knospenregen

nach der

Umarmung,

weitet sich über uns aus,

während der Stein

festwächst,

ein Leuchter, groß und allein,

taucht hinzu,

erkennt,

als die Schale, ganz aus Porphyr,

aufbricht, wie

es von Verbogenem

wimmelt, unadwendbar,

erfährt,

wo die offenen Augen jetzt stehn,

morgens, mittags, abends, nachts

Paul Celan e se você voltar a declamar poemas em meus ouvidos, no meu disckman, dormirei então?


O mundo perfeito sem mim

As redes sociais como simulacros de vida.

Todo mundo, os programas de tv, os livros, artigos, monografias e dissertações na Academia, os textos publicados online, falando sem parar sobre como a vida das pessoas da geração y e z anda em conjunto com as redes sociais e avanços tecnológicos já que nascemos e crescemos junto deles e com eles.

Não é só isso. Nossos relacionamentos começam e terminam, na maior parte das vezes, digitalmente. Ou pelo menos são impulsionados – tanto para um começo quanto para um fim.

Deletar se tornou um verbo utilizado para tratar de pessoas. Eu deleto você. Eu exclui você. Eu e você não existe porque EU cliquei em um botão e puf! VOCÊ desaparece. Ou assim as pessoas gostam de pensar.

Engraçado como no começo, você deleta uma pessoa com a qual houve um término que foi feio ou doloroso e você precisa de um tempo, precisa se recuperar, pode ser até que você ainda ame a pessoa e nem esteja com raiva. Mas você precisa daquele tempo para deixar que as coisas saiam de você (como se isso realmente acontecesse). E você não quer ver e nem saber se a pessoa está a percorrer todo o circuito de bares da cidade, fazendo a louca na Lapa, pegando qualquer um(a) que aparece e que bate os cílios. Você também não quer saber se a pessoa está sofrendo muito, tanto ou mais que você, chorando e cantando saudades. Você só precisa de distância, alguma distância. É necessário, é saudável.  Então, alguém deleta alguém. Não há aviso prévio, no geral. Geralmente quem é deletado sabe porque está sendo deletado e, se não sabe, desconfia.

As vezes machuca. Pode ser algo temporário mas pode significar um: você não faz parte da minha vida, eu não quero que você faça parte da minha vida. Não sou seu(sua) amigo(a).

Quando a pessoa acha que passou tempo suficiente, ela pode te readicionar, como quem diz: ok, passou um tempo, te esqueci, estou pronto(a).

Mas e quando, mesmo com a mágoa, permanece ali, aquele nome na sua timeline e você lê e vê todos os dias, torce por aquela pessoa, espera poder um dia falar com aquela pessoa. Você e aquela pessoa, que não simulam vida nas redes sociais, que não se excluem e nem deletam por algum(alguns) motivo(s). E eles podem ser fortes ou fracos, secretos ou todo mundo pode saber quais são. O fato é que, mesmo não se falando, de alguma forma vocês ainda estão um na vida do outro e sabem disso e não fingem que não estão. Mesmo com a mágoa, mesmo com as ofensas, mesmo com as coisas que vocês esperam ver e com as coisas que vocês não querem ver.

E então, um dia uma dessas pessoas deleta a outra. Como quem diz mesmo que não te quer e nem precisa de você na vida dela, que nunca precisou. Ela te DELETA. Nada existiu? O que pode doer tanto a ponto de se retirar de uma vida em que você não estava nem presente – e que nem cutucava ou se fazia presente e, se tentava se fazer, não seria por compreender que era por algum tipo de sentimento bom que essa pessoa nutria ou nutre?

Por que manter por meses uma pessoa que faz mal e assim, sem mais nem menos, deletar?  Essa necessidade de cortar as pessoas, eu não entendo. Como pensei… acho que é normal que as pessoas realmente não consigam entender o próprio teor nocivo. Mas como começar a tentar entender se não há diálogo, se ele é vedado porque “dói demais” ou porque você “soa sedutor (ou sedutora) demais”, mesmo não tendo intenção alguma de seduzir. Uma pessoa não se seduz sozinha, se ela se deixa seduzir, não deve ser por algum motivo? E, meine Liebe, tudo, absolutamente tudo, dói demais.

Então é isso. Um clique, um aperto de botão, um switch entre on e off e uma pessoa é cortada, ela sai da sua vida. E quando nos esbarrarmos na rua? É para atravessar também e corroborar com o seu mundo perfeito, sem mim?

Se incomoda se eu não curtir?


Lilás

Embaixo de duas cobertas, dentre todos os dias, este, sonhei que vocês entravam por um túnel de lilases puxando delicadamente as que pendiam para o chão. A pequena corria feliz e faceira e você dizia para ela não machucar as flores. Ensinou-a desde cedo a ter cuidado com corpos frágeis. Os lilases eram para pôr em chá, nos banhos, perfumariam os livros como marcadores e a gaveta de peças de baixo.

Eu estava de fora do jardim. Admirada.


Ainda não é um adeus

There’s a saying old, says that love is blind
Still we’re often told, “seek and ye shall find”
So I’m going to seek a certain lad I’ve had in mind

Looking everywhere, haven’t found him yet
He’s the big affair I cannot forget
Only man I ever think of with regret

[Someone to watch over me – Ella Fitzgerald]

Assim, como delicadas margaridas retiradas de seu vaso, sem raiz, você se posta à linha do trem, em perigo, sabendo que não vai conseguir salvá-las. Tentar mesmo, machuca, te violenta, desenraizada e desfolhada foi você, por mim, por outras mais por mim do que por outras – e outros, acho.

Fiz tudo errado, no momento errado e foi a chuva que me desenraizou para onde só de longe você pode (e quer) acompanhar. É triste e no fim das contas, uma profecia se cumpriu: eu sempre estarei mais solitária em você.  Você se plantou, guardou raízes sólidas e duradouras no além-mar. Tudo que tenho é o sofrimento lascinante e o deslocamento da cidade em que nasci.

Nunca me preparei para dizer adeus. Você nunca me conheceu, nunca tivemos a chance de uma amizade próxima que não trouxesse consigo outros sentimentos. Como pedir desculpas porque eu amava alguém que, por acaso, não era você? Eu não sabia, bloqueei o amor que me bateu a porta com… justamente margaridas. Lhe disse isto.  Dei distância, dei respeito e não foi o suficiente. Na verdade, eu nunca soube como me portar frente a você.

Flor, você sempre soube que era boa demais. Sabe agora enquanto se esgueira para fora da minha vida, delicadamente, graciosamente, como só você poderia fazer. Enquanto isso, amareleço e me despetalo com a perda de referência. Uma margarida não cheira tão bem quanto duas. Meu perfume é dependente e o teu chega longe. Do Humaitá, ele vem ecoando até meu quarto, trazendo a calidez da sua voz e as iluminuras do teu sorriso.

E se um dia eu te perder para Lisboa, menos pior. Vá com Deus e deposite no Tejo uma margarida por mim, enterre-me dizendo: estou feliz, agora.


%d bloggers like this: