Category Archives: Literatura

Este livro… quanta coisa?

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Se cada segundo de nossa vida deve se repetir um número infinito de vezes, estamos pregados na eternidade como Cristo na cruz. Essa idéia é atroz. No mundo do eterno retorno, cada gesto carrega o peso de uma responsabilidade insustentável. É isso que levava Nietzsche a dizer que a idéia do eterno retorno é o mais pesado dos fardos (das schwerste Gewischt). Mas será mesmo atroz o peso e a beleza?

O mais pesado dos fardos nos esmaga, verga-nos, comprime-nos contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o fardo do corpo masculino. O mais pesado dos é, portanto, a imagem da realização vital mais intensa. Quanto mais pesado é o fardo, mais próxima da terra está nossa vida , e mais real e verdadeira ela é.

Em compensação, a ausência total de fardo leva o ser humano a se tornar mais leve que o ar, leva-o a voar, a se distanciar da terra, do terrestre, e se tornar semi-real , e leva seus movimentos a ser tão livres quanto insignificantes.

O que escolher, então? O peso ou a leveza?

Foi a pergunta que Parmênides fez a si mesmo no século VI antes de Cristo. Segundo ele, o universo está dividido em mundos contrários: a luz/ a escuridão; o grosso/ o fino; o quente/ o frio; o ser / o não ser. Ele considerava que um dos polos da contradição é negativo (o claro, o quente, o fino, o ser), o outro, negativo.Essa divisão de polos positivo e negativo pode nos parecer de uma facilidade pueril. Exceto em um dos casos: o que é positivo? o peso ou a leveza?

Parmênides respondia: o leve é positivo, o pesado é negativo. Teria ou não teria razão? A questão é essa.  Só uma coisa é certa. A contradição pesado/leve é a mais ambígua de todas as contradições.

KUNDERA, Milan. A insustentável leveza do ser. tradução Teresa Bulhões de Carvalho Fonseca. São Paulo, Companhia de Bolso, 2008.

É, não me lembro mais a ordem de como se coloca bibliografia e, esse livro, que não sai de mim.


Am 6. Mai

” Am 19. Oktober

Ach diese Lücke! Diese entsetzliche Lücke, die ich hier in meinem Busen fühle! – Ich denke oft, wenn du sie nur e i n mal, n u r e i n m al an dieses Herz drücken könntest, diese ganze Lücke würde ausgefüllt sein.”

“Am 27. Oktober

Ich möchte mir oft die Brust zerreißes, daß man einander so wenig sein kann. Ach die Liebe, Freunde, Wärme und Wonne, die ich hinzubringe, wird mir der andere nicht geben, und mit einem ganzen Herzen voll Seligkeit werde ich den andern nicht beglücken, der kalt und kraftlos vir mir steht.”

Eu nunca deveria ter criticado qualquer pessoa que seja por uma “triste obsessão por um livro”, ou por uma série de livros, já que, claramente, a minha, embora eu me esqueça por vezes, é o Werther. Ao ponto de marcá-lo na pele.

Relendo para montar a aula da graduação, me dei conta de que, este, o livro que mais reli em minha vida, continua guardando em suas páginas, os trechos dos meus desejos. Os quereres mesmos e a impossibilidade deles.


Sadness of being

“SADNESSES OF THE INTELECT: Sadness of being misunderstood [sic]; Humor sadness; Sadness of love wit[hou]t release; Sadne[ss of being smart; Sadness of not knowing enough word to [express what you mean]; Sadness of having options; Sadness of wanting sadness; Sadness of confusion; Sadness of domes[tic]ated birds; Sadness of finishing a book; Sadness of remembering; Sadness of forgetting; Anxiety sadness…

INTERPERSONAL SADNESSES: Sadness of being sad in front of one´s parent; Sa[dn]ess of false love; Sadness of love [sic]; Friendship sadness; Sadness of a bad convers[a]tion; Sadness of the could – have – been;  Secret sadness…

SADNESSES OF SEX AND ART: Sadness of arousal being an unordinary physical state; Sadness of feeling the need to create beautiful things; Sadness of the anus; Sadness of eye contact during fellatio and cunnilingus; Kissing sadness; Sadness of moving too quickly; Sadness of not mo[vi]ng; Nude model sadness; Sadness of portraiture; Sadness of Pinchas T´s onlu notable paper, “To the Dust: From Man You Came and to Man You Shall Return,” in which he argued it would be possible, in theory, for life and art to be reversed…”

FOER, Jonathan Safran. Everything is illuminated.


Despite the lesbian propaganda :


Como falta

“It was Sappho who first called eros “bittersweet”. No one who has been in love disputes her.”

Kasemir Malevich, Head of a Peasant Girl 

“The Greek word eros denotes ´want´, ´lack´, ´desire for that which is missing´. The lover wants what he does not have. It is by definition impossible for him to have what he wants if, as soon as it is had, it is no longer wanting. This is more than wordplay. There is a dilemma within eros that has been thought crucial by thinkers from Sappho to the present day. Plato turns and returns to it. Four of his dialogues explore what it means to say that desire can only be for what is lacking , not at to say  that desire can only be what is lacking , not at hand, not present, not in one´s possession nor in one´s being: eros entails endeia.

[…]

Hunger is the analog chosen by Simone Weil for this conundrum:

All of our desires are contradictory, like the desire for food. I want the person I love to love me. If he is, however, totally devoted to me he does not exist any longer and I cease to love him. And as long as he is not totally devoted to me he does not love me enough. Hunger and repelion. (1977,364)”

CARSON, Anne. Eros the Bittersweet- Princeton University Press, 1986.


Him

Burroughs and cat

“Os antigos egípcios pranteavam a perda de um gato e raspavam as sobrancelhas. E porque a perda de um gato não pode ser tão tocante e sentida quanto qualquer perda?As pequenas mortes são as mais tristes como mortes de macacos.”*

Quincy. Quincy Frajola. Quin Quin. Um espécie preto e branco. Tão preto quanto branco, por igual. Olhos âmbar e um focinho cor- de – rosa com uma mancha negra. Manhoso e mal humorado, entre Garfield e Frajola nos seus melhores dias de caçador, quando chegou a abater uma cigarra, a qual torturou. O grande querido das vizinhas – tanto a loira quanto a morena, o grande querido das outras gatas e, é claro, o grande querido das mulheres da casa. O amor da minha vida, era um gato que morreu.
Pensar em ir à casa que ia toda semana sem ele, é como imaginar ir a uma casa vazia, onde ninguém me esperará com uma aconchegante pelúcia bicolor a se espalhar ao meu lado, ninguém para determinar que é chegada a hora de chupar o dedo, nenhum miado pela manhã, ninguém para avisar que o leite está fervendo.
Obrigada a viver, passando o meu luto quase como se ele não existisse, com a alma amputada e sabendo que aqueles olhos não mais recairão em mim, que eu não poderei mais esfregar meu nariz no dele e que, quando estiver chorando, não virá ninguém a ficar de vigília ao meu lado, sem arredar o pé e sem dizer nada e nem pedir nada, só querendo que eu melhore, só estando ali para mim. Dizer “amor”, é pouco. Era uma simbiose de espíritos. Nós éramos.

“Eu já disse que gatos servem como Familiares, companheiros psíquicos.”Eles são mesmo uma companhia”. Os Familiares de um velho escritor são suas memórias, cenas e personagens de seu passado, real ou imaginário. Um psicanalista diria que eu estou simplesmente projetando essas fantasias em meus gatos. Sim, de maneira bem simples e literal, os gatos servem como telas sensitivas para atitudes bastante precisas quando escalados em papéis apropriados. Os papéis podem mudar e os gatos podem assumir vários papéis: minha mãe,minha esposa, Joan, Jane Bowles; meu filho, Billy; meu pai; Kiki e outros amigos;Denton Welch, que me influenciou mais do que qualquer outro escritor, apesar de nunca termos nos conhecido.Os gatos podem ser meu último elo com uma espécie moribunda.”
*BURROUGHS, William. O gato por dentro – Porto Alegre, RS: L&PM, 2007


Para quem acredita que o tempo supera


“rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra o seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é; por isso, ninguém em nossa casa há de dar nunca o passo mais largo que a perna: dar o passo mais largo que a perna é o mesmo que suprimir o tempo necessário à nossa iniciativa; e ninguém na nossa casa há de colocar o carro à frente dos bois: colocar o carro à frente dos bois é o mesmo que retirar a quantidade de tempo que um empreendimento exige; e ninguém ainda em nossa casa há de começar nunca as coisas pelo teto: começar as coisas pelo teto é o mesmo que eliminar o tempo que se levaria para erguer os alicerces e as paredes de uma casa; aquele que exorbita no uso do tempo, precipitando-se de modo afoito, cheio de pressa e ansiedade, não será jamais recompensado, pois só a justa medida do tempo dá a justa natureza das coisas, não bebendo do vinho quem esvazia num só gole a taça cheia. mais fica a salvo do malogro e livre da decepção de alcançar aquele equilíbrio, é no manejo mágico de uma balança que está guardada toda a matemática dos sábios, num dos pratos a massa tosca, modelável, no outro, a quantidade de tempo a exigir de cada um o requinte do cálculo, o olhar pronto, a intervenção ágil ao mais sutil desnível”
NASSAR, Raduan. Lavoura Arcaica – 3a. edição- São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

e não respeita esse tempo, que dizem curandeiro
e nem a dor,
e nem o luto.


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