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Quando eu era uma “playground love”

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O problema das pessoas, no geral, é confundir certa intimidade com uma afirmativa para a falta de tato, de delicadeza, de cortesia. Se uma pessoa tem um estilo de vida mais sério que os outros, por quaisquer razões que sejam delas e só delas, que se respeite e não usem de frases como “não sabe brincar, não desce pro play”. Essas pessoas sabem brincar, mas não focaram sua vida no play. Porque desejam atingir um patamar de excelência numa idade em que a maioria das pessoas ainda não o atingiu. Porque ser bem sucedida em determinada área é importante para essas pessoas. E, principalmente, antes de ignorar algo que essas pessoas estão querendo te contar, mas que você não pode ouvir na hora, seja honesto e diga: “me desculpe, agora não posso. podemos falar mais tarde”; ao invés de não demonstrar o mínimo interesse e pronto. Não é dessa maneira que amizade funciona. Sinta-se privilegiado por estas pessoas estarem querendo dividir algo com você, algo que pode ser importante para elas. Como eu citei anteriormente, delicadeza, cortesia e tato e acima de tudo, honestidade, consigo mesmo e com essas outras pessoas, O TEMPO TODO. É tão difícil assim?

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Nicht dich habe…

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Nicht dich habe ich verloren,

sodern die Welt.

BACHMANN, Ingeborg in Eine Art Verlust


Menos eu

Foi no começo do ano, depois de uma marcação de Facebook, em uma vergonhosa foto de criança guardada pela menina que era minha melhor amiga naqueles tempos, no Colégio da Mabe, que soube que, o colégio onde passei a maior parte da minha infância, faliu.

No ano passado, foi o colégio onde minha irmã passou a maior parte da infância dela, o Princesa Isabel, que faliu.

O Colégio da Mabe estava longe de ser um ótimo colégio (coisa que ficou explícita quando cheguei no Pedro II sem saber conjugar ao menos o verb to be e fiquei em recuperação logo no meu primeiro ano no colégio novo. Mas o ambiente era perfeito.

Sem contar que, eu tive a sorte (sim, sorte porque isso é quase raro) de ter uma excelente alfabetização. A Mabe foi o local onde uma relação muito estreita com a leitura foi travada, já na infância.

Minha mãe frequentemente demorava para buscar a mim e a minha irmã e, neste meio tempo, entre o fim das aulas e a ida para casa, eu ia para a pequena biblioteca, conversar com a Tia Penha (a bibliotecária) e namorar um pouco os livros. Um por semana, no mínimo.

Mas é do ambiente que sinto falta. Eu tinha amigos, falava com a classe praticamente toda – um ou outro desafeto, é normal, não há como gostar de todos. A Mabe retinha lembranças demais: as minhas primeiras letras, a primeira vez que coloquei sapatilhas de balé, o primeiro amor, o pentear os cabelos das professoras (eu era a preferida para a tarefa), enquanto os demais alunos faziam o dever, a sensação de ter os cabelos lisos e sedosos da Tia Ana Cláudia escorrendo pelos meus dedos.

Com o fechamento da Mabe, sinto o centro do Rio, o bairro de Fátima cada vez menos meu. Minhas lembranças sendo empurradas para lugares dispersos. Faz muito tempo em que pisei lá pela última vez. Já depois de adulta, revendo todas as tias e querendo tudo aquilo de volta. Passo em frente quase todos os dias, separada por janelas de ônibus.

Não sei o que acontecerá com o prédio amarelo e verde. Tampouco sei o que faço com essas memórias.


Por 3 dias ou mais

 “I don’t want to hold you and feel so helpless
I don’t want to smell you and lose my senses
And smile in slow motion
With eyes in love

I twist like a corkscrew
The sweetness rising
I drink from the bottle, weeping
Why won’t you last?
Why can’t you last “
[ Foolish Love – Rufus Wainwright]

Parei no caminho e não consigo  mais escrever. E o remorso pela escolha feita há mais de ano. Provavelmente errada mas, a única que poderia ser feita.

Estou entre dois passados que deixaram há muito de ser e um futuro imaginário, inexistente.

Por aqui não tem nada. Por aqui não tem rua e nem pessoas.

Por aqui, cama, gato, livro e solidão.

Por aqui, tristeza.


Hoje, não.

Depois de algum tempo vivendo, aprende-se que: embora nunca possamos ser capazes de explicar (e tentemos achar milhões de explicações) de por que um amor “acaba”, por que alguém entedia-se, por que deixa-se o outro, essas pessoas que esquecem, que abandonam, que resolvem largar não sentem ou não sentiam aquilo. Não importam frases ou meias explicações como “não sou capaz de manter um relacionamento por mais de x tempo”, ou “eu sou assim mesmo”, “é meu jeito” e similares. É desamor ao outro, principalmente se esse outro deixa de ser uma grande fonte de entretenimento e prazer e vira sinônimo de vida – normal e adulta.

Não sei qual foi o motivo (talvez tenha sido um engano, mas nunca saberei) de.

Hoje, com o trânsito no centro endoidecido num centro da cidade endoidecido por uma passeata incitada pelo governador e uma reunião marcada justamente no centro, para tratar de um assunto desagradável, tive de descer do ônibus na Primeiro de Março, em frente àquela rua. Atravesei o sinal, mas,ao invés de entrar na rua, e me deparar com figuras passadas, de gente que abandona, continuei na Primeiro de Março e entrei na próxima. Perfeito, caí na Rua da Quitanda, a rua certa.

Hoje não era dia de encontrar ninguém, nem por acaso. Digo não e dou meia volta à possibilidade de assombrações, não me deixo ser perseguida por mais do que lembranças,quero que tudo que me chegue seja intocável, invisível, inaudível e impalpável. Se eu fui abandonada, me detenho no papel e me deixo estar longe das vistas, longe de notícias, de radar, longe de tudo, longe de quem quase sempre esteve longe.

Hoje, eu me resguardo e me protejo.

Hoje, não.


Convite Intravenoso

Engraçado esse negócio de lançamento e ter de resolver as coisas, ser prática, tomar decisões, atender telefonemas, responder emails, dar a palavra final. Todo mundo anda estranhando um certo desapego meu por toda essa idéia de livro, lançamento, assinar no exemplar dos outros, enfim. Não diria desapego, é um estar ressabiada. Afinal, são anos de complexo de inferioridade misturados com um perfeccionismo que me faz remoer eternamente qualquer coisa pensando em como eu poderia ter feito muito melhor se.

Intravenoso contém meus 21, 22 e 23 anos. Não meus, meus, mas o período em que muitas dessas idéias estavam na minha cabeça. Ou idéias inclusive anteriores que eu julgava necessário expor. Hoje, estou à beira dos 26. Algumas coisas mudaram.

Na verdade, o que estou querendo dizer é: esperem somente o que possam esperar. :}

De qualquer forma, será um dia feliz, obrigada pelas felicitaçõese agradeço, antecipadamente, pela presença.

M.


l’ombre d’un regret

Um telefone na agenda, não é só mais um contato. As vezes é a maneira (quem sabe até a única maneira) de se fazer menos esquecida, algo presente por alguém que possa ter colocado seus emails direto para a caixa de spam.

Uma tentativa de aproximação, não é uma sedução implícita. Um arrependimento sobre correspondências pesadas e vulgares, não é necessariamente falso. Um “não sai da minha vida”, não é necessariamente problema à vista, pesadelo, importunações.

Com o passar de meses, aniversário de um ano desde um rompimento de algo que, eu sempre achei que poderia ter sido a amizade da minha vida, veio o desespero. Nem mesmo para felicitar, timidamente, quase como quem pede desculpas, somente pelo tom de voz, pela ousadia de ligar a um feliz aniversário.

Nada quero dessa vez a não ser desejos de felicidade (que sim, não me incluem). Perder uma amizade ou uma amizade em potencial, quando ela é realmente importante, quando é alguém que não só tira e nem soma, é um dividendo, faz parte de um alinhamento de alguns (muitos pensamentos e sensações – não falo de sentimentos aqueles, que, nunca foram mesmo para ser, agora sei. Nem os de mim por você ex- quase amiga, e nem de mim por ela).

Ironicamente, a única palavra que carrega em si, entranhada, tudo o que venho guardado durante todo este tempo é aquela palavra, tão portuguesa:

Saudade.

Isto não é sobre mim, sobre meus desejos (que não possuo), minhas vontades (que inexistem), meu egoísmo ( eu estou tentando desde de.) ou sobre qualquer coisa que eu possa estar querendo impôr (não quero impôr nada, e me impôr, não posso, à ninguém, nem quero – ou melhor, se quisesse, nem conseguiria, não sei fazê-lo).

Toda a insistência, o incômodo, a invasão e o desagrado, depois que o diálogo se fechou é tão somente porque eu sei reconhecer alguém especial e importante. Mais do que isso, sei reconhecer alguém raro e que eu gostaria de poder dar oi, fe-li-ci-tar, torcer por (torcer de perto), ouvir, e ouvir e ouvir.

É como ter conhecido um pedaço da vida, do mundo, de mim e de tudo o que mais prezo e tê-lo arrancado, sem que, haja a chance de consertar.

Um telefone, não é só um telefone. Um contato, não é só um contato. La recherche de la fraternité perdu.


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