Category Archives: romantização

Por dentro

Fecho os olhos rapidamente, a cabeça encostada na janela suja de vidro enquanto o ônibus percorre os traços quase iguais do subúrbio do Rio de Janeiro. O calor dissolvendo as linhas da minha visão, liquefazendo minha máscara de cores neutras e batom vermelho.

Enquanto os olhos descansam, minha cabeça bate na sua cabeceira de madeira, sem bater porque, instantaneamente, sinto a mão cheia de calos me apoiando, enquanto caio, revolvendo -me entre lençóis. Você dentro e eu, ainda mais dentro de mim. Ouço palavras ásperas as quais respondo cegamente, tateante. O que quiser, amor. Ouço respirações anelantes, sentindo âmago que desconhecia porque fora feito para receber.

Nunca antes eu havia recebido. Sem generosidade porque dividimos este pedaço de mim. Meus ouvidos, obstruídos, fecho os olhos e abro a boca, coloco a língua para fora.  Sinto gosto de branco.

Morro ao ponto de, quando reabro os olhos, o tempo não vem, percebo segundos em batidas convulsas de coração e arrepios acordados. Suspiro.

Desperto do descanso ocular com um tranco. Moça, chegamos no ponto final. Perdeu o ponto, foi? Está perdida?


Gratidão

Deligara o telefone. Para sempre ou, para o que mais se aproximava do sempre: por aquela noite. Tivera de tirar a bateria.Nunca seria deixadaem paz. Pessoas são atraídas, excitadas pelo não, pela ausência, se sentem compelidas a tirar alguém do isolamento, curar as pessoas da depressão, achar que, se matarem a pessoa de carinho, amor, sexo e afeto, que ela voltará ao normal, sorrirá, será doce e gentil.

Acham que será obediente e submissa, e, principalmente, grata.

Ela ficaria mais grata se, ao menos quando sentisse sono, pudesse dormir, se, quem chama à noite de fato, fosse quem ligasse, ou aparecesse. Ela seria grata se não tivesse de atender inúmeras ligações humilhantes, de fazer soluçar ou se não tivesse de aceitar passivamente indiferença alheia.

Não seria mais feliz mas ficaria grata.


Eletrochoque

Caindo – porque vez ou outra também estou sujeita a isto – no meu clichê geracional e nas leituras que andam me enfiado goela abaixo, aí vão alguma(s) declaração(ões):

Hoje eu acordei como se tivesse

cheirado 10 carreiras de pó,

comido 2 kg de açucar,

 tomado 20 expressos.

Mas nada aconteceu ontem, nem hoje e nem amanhã. Sem motivo, passei o dia rindo, pulando e dançando. A melancolia chega agora, na hora que afasto o sono e penso nela. E penso nelas. E a saudade e meu corpo clamando pela reprodução e, e, e… ter que decidir que homem é homem pra mim, que mulher é homem pra mim, pra que homem eu posso ser mulher, para que mulher eu posso ser mulher. E, e, e…


Tango no chão de madeira

 Noelle só conseguia pensar. Breves eram os momentos de entrega na hora em que mais deveria deixar-se levar. Sabia o que aconteceria mesmo que não tivesse sido planejado. Pelo menos, não por ela. Olívia por baixo, Olívia, uma síntese quase circense das mulheres que mais amara. Nunca tinha dado por isto, até aquele momento e era isso o que lhe distraia. Ora lembrava de uma, ora lembrava da outra. A segunda, demorava-lhe mais em pensamento. Estou aqui, fazendo isto, e ela, o que será que faz, será que dorme? Será que me perdoaria, se soubesse?

Na verdade, Noelle se sentia culpada, como se ambas a destratassem se soubessem que estava ali com Olívia, ainda que tenham sido elas duas que tivessem terminado tudo, da pior maneira possível. Foi como um tango, Noelle rodopiando nas mãos de ágeis bailarinas que a jogavam no chão ou contra as outras, Olívia fora a última que a catara do chão, por hora. Apenas esperava que ela lhe depositasse delicadamente ao chão de tacos de madeira, ao invés de livrar-se dela com força e determinação.

Talvez também Noelle sintetizasse, significasse alguma coisa, por que não? Nunca saberia e nem importa, ambas personificando solidão e desejo por outras pessoas. Não era Olívia que Noelle desejava, não era Noelle que Olívia desejava. Mas, qualquer coisa que as impedisse de dormirem sozinhas. Os braços uma da outra, suas bocas, tão parecidas com aquelas de quem lembravam e, se fechassem os olhos poderiam até fingir. Como Noelle fingia ter tudo sob controle. Como Olívia fingia acreditar que era para ser assim e que Noelle estava ali por inteiro. Não estava. Olívia menos consciente, deixava o corpo pensar mais alto.

Não chegaram a se separar, apenas se abraçaram, de lado, de mãos dadas. – Boa noite, querida.

Amanhã decidimos se vamos mentir e dizermos uma outra de que deveríamos ter feito isso antes ou que nos veremos frequentemente a partir de agora. Foi mais que o medo de dormir sozinha. Foi a desgraça de ser constantemente jogada ao chão de tacos de madeira.


Memória retrograda

É preciso passar a mão ao lado da cabeça, como se faz quando se quer afastar um inseto para, parar de pensar no assunto. Num assunto. Nele.

A televisão não contribui. Entre olhadelas ocasionais baixando os olhos do livro e os óculos dos olhos, vejo na televisão aquele quem já tinha identificado como a pessoa que lembraria ele. Novos pensamentos, novos insights para mesmas lembranças, novos desejos.

Preciso falar com você – dizem os olhos dela, que ele não pode ver. Eu… eu… não consegue deixar sair. Ainda não.

Mas, a noite fresca, o sábado, o táxi, o vidro escuro, você por trás do vidro, olhando: quando, quando, quando?

Urgência invisível de quem diz e sabe: preciso ser cuidado.


Percebendo luzes

Parece que todas as vezes em que resolvo olhar pela janela, já é dia escuro. É claro, contribuindo ainda mais pra escuridão e o silêncio me rondam insistentemente. Porém, hoje, quando olhei pela janela, as luzes estavam mais fortes, pareciam mais brilhantes.

Há alguns dias, pareço ser capaz de enxergar minúsculos vagalumes movendo-se ao meu redor para me colocar em movimento, ainda que seja para pedir que se retirem ou para expulsá-los a força, caso eu queira.

Não foi o caso hoje. Hoje, eu fiquei a contemplar as lâmpadas dos vizinhos como estrelas. Como indícios de vida e de fala, de pensamento, de afeto e de… luz, enfim.

Não tenho cortinas e nem janela mas, se tivesse, talvez fosse só uma questão de (pouco) tempo para conseguir abri-las. E… ah! Como isto é raro.

 


In Rio

Always soft.

Always peaceful.

Always saying right things in silece.

Always there – even far away.


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