Category Archives: segredos

Deve ser mais fácil quando no meio há um oceano, pensou ela. Mas entre nós há somente terra encharcada, talvez algumas montanhas, muita grama.

Se suas saudades passassem pela água, ela poderia ser embalada pelas ondas, conseguindo dormir tranquilamente sem angústias por pensar que seria sempre uma surpresa o que o mar lhe reservava. Ela nunca poderia saber o que o oceano traria.

No entanto, era terra. Eram milhares de kilometros, ligados por precárias rodovias que formavam um caminho que ela nunca fez.

E que não sabia que iria fazer. Na terra, não havia nada que a ninasse. A terra é dura. Engole ou expulsa.Imagem

Advertisements

Por dentro

Fecho os olhos rapidamente, a cabeça encostada na janela suja de vidro enquanto o ônibus percorre os traços quase iguais do subúrbio do Rio de Janeiro. O calor dissolvendo as linhas da minha visão, liquefazendo minha máscara de cores neutras e batom vermelho.

Enquanto os olhos descansam, minha cabeça bate na sua cabeceira de madeira, sem bater porque, instantaneamente, sinto a mão cheia de calos me apoiando, enquanto caio, revolvendo -me entre lençóis. Você dentro e eu, ainda mais dentro de mim. Ouço palavras ásperas as quais respondo cegamente, tateante. O que quiser, amor. Ouço respirações anelantes, sentindo âmago que desconhecia porque fora feito para receber.

Nunca antes eu havia recebido. Sem generosidade porque dividimos este pedaço de mim. Meus ouvidos, obstruídos, fecho os olhos e abro a boca, coloco a língua para fora.  Sinto gosto de branco.

Morro ao ponto de, quando reabro os olhos, o tempo não vem, percebo segundos em batidas convulsas de coração e arrepios acordados. Suspiro.

Desperto do descanso ocular com um tranco. Moça, chegamos no ponto final. Perdeu o ponto, foi? Está perdida?


Bom karma

Carregar comigo um caderno grande e ainda cheio de páginas em branco tem dificultado que eu anote meus pensamentos, sentimentos, acontecimentos diários, ordinários ou extraordinários. Fico querendo contar quantas páginas faltam para o fim, querendo antecipar o fim de um ciclo, como se eu tivesse o controle de alguma coisa só porque posso controlar as páginas, o tamanho da minha letra, se eu gostaria de transcrever algo, de colar algo, de “desenhar” algo.

Resolvi retornar a um diário menor, facilmente transportável e que, por se assemelhar a um bloquinho, não chama tanta atenção para o seu conteúdo. E, na primeira página me declaro com letras impressas requisitando que eu deixe informações e contatos meus. “Em caso de perda, por favor retornar à”. E mais uma linha para falar sobre a recompensa.

Que recompensa? Diário se perde ou só é roubado? Quem é capaz de esquecer jogado o seu baú de segredos, seu muro das lamentações em papel, seu repositor de desejos, de dejetos, todos os gritos silenciosos e as lágrimas, os arrependimentos e o meu rodopiar pela vida.

Como posso colocar uma recompensa nisto? O valor é além do sentimental e, mesmo que eu tivesse dinheiro, ainda assim não conseguiria estipular um valor.

Joguei para o universo e escrevi: bom karma.

 


Dear not a not a journal

Impressiona-me como “leitores leigos” têm a capacidade de jogar fora, descartar mesmo, anos de teorização com certezas absolutas que aprenderam há anos atrás e que nunca os preocupou.

Por coincidências, são questões com as quais eu lidei e lido na minha vida acadêmica cotidianamente.

As primeiras (e únicas) opiniões que recebi sobre estes escritos que foram transformados em livro e pararam nas mãos das pessoas esta terça, vieram da família.

– Mas, não são contos. Parece um diário.

(E se eu mencionasse as últimas vezes que li Bakthin e Lukács, e toda a problematica dos gêneros literários E dos gêneros discursivos? E se mencionasse uma das minhas últimas aulas do mestrado, na qual especulávamos como os novos formatos de comunicação [e-mail, sms] quem sabe um dia fariam as vezes de epístola em algum romance). Ainda tentei argumentar que a escrita diarística se dá num âmbito privado, sem a intenção (pelo menos, a priori) de publicação, que é datada e contém uma certa cronologia, encadeamento dos fatos, e pode visar um certo propósito de causa e efeito. Não adiantou. Recebi de resposta:

– Você me entendeu.

Depois, escolhe-se a parte preferida, do meio pro fim, onde, supostamente, há um maior desprendimento, uma ficcionalidade maior. Engraçado como se pode achar detectar exatamente aqui ou exatamente ali índices maiores ou menores de ficcionalidade, sendo todo o mais relegado à autobiografia, diarismo.

“You don´t write, you journal.”

Diário por diário, melhor seria continuar com o puramente privado, não?


E por que não?

Todo o sentido de resolver fazer ou não as coisas se resume não ao que determinada ação vai me trazer ou não. Até deveria, pelo nível (se baixo ou alto, não importa) de maturidade que meus vinteecinco anos me trouxeram até agora. Mas sim a não razão para não fazer certas escolhas, não ter determinadas experiências, não conhecer determinadas pessoas.

É que eu cansei de dizer não e perder. Diversas coisas. Cansei de perder vida, por todo(s) o(s) medo(s) que sinto e desta vez, eu exorcizei o passado em copos de cerveja, vodka e cachaça com gengibre.

Uma noite com histórias frescas de literatura contemporânea brasileira, backgrounds de leitura, fazendo de um tempo frio e chuvoso do Rio de Janeiro, uma extensão mais agradável e boêmia de São Paulo.

Todas as trocas, as trocas não táteis que poderiam haver, circundadas pela idéia de um beijo que sim, rejeitei mas que tornaram toda a noite, em um longo e quente beijo, amanhecido na Mem de Sá. E ainda, flores de folha de palmeira, livros estrangeiros, e todos os feromônios enlouquecidos chamando a vida para acasalar contigo.

Eu ri na rua. Eu li, falei, conheci, bebi. E saltitei vindo para o trabalho na segunda, sabendo que nem tudo foi sonho, mas tudo é delírio. A ficção, querido, começa conosco, não sentados na frente do nosso computador, mas continuando, à nossa maneira os passos daqueles tão inscritos em nós.


Enjoy the ride

No embalo etílico proporcionado por destilados puríssimos dos seus países de origem, sentindo pulsar uma animação quase despropositada para quem teve um dia cheio e cansativo, inevitavelmente, o telefone nas mãos, passeava pela sua agenda a pensar em quem poderia estar acordado e na rua. Sentia-se sortuda por ainda estar com uma idade em que poderia telefonar de madrugada para alguém que estaria acordado, e atenderia. Coisas de juventude.

E naquele momento, com o embaraço do álcool, esqueceu que havia a mentira e confiou plenamente. Confiou no que já conhecia, confiou numa história que achava que detinha e que era comum. Só no dia seguinte deu-se conta de que, um pacto de silêncio entre dois amantes (ou dois amantes em potencial) era muito mais poderosa do que uma pretensa sinceridade entre um ex- casal.  Se alguém lhe perguntar, não há porque negar o interesse na resposta para a sua “pergunta pessoal”.  Paradoxalmente, tanto a mentira quanto o silêncio fazem sentindo, afinal, quem poderia imaginar alguma reação?

Talvez a melhor reação seja um dar de ombros e pensar que não importa se sim ou não. Se algo aconteceu, não aconteceu, ou se existe um certo platonismo. Não se está falando de um triângulo amoroso mas, de muitos passados e coisas e pessoas que se desejam esquecer. O problema todo, ao começo, é a consternação que estas relações quase incestuosas trazem.

No fim das contas, a confirmação ou negação de algo não fez diferença alguma, nem ao menos trouxe lágrimas. Talvez seja verdade que só tenha um número limitado de sofrimento que você pode sentir com relação a uma pessoa. Ao fazer uma escolha, ela havia passado do ponto de se deixar machucar tão docilmente.

Se fosse possível, desejaria ainda que fossem felizes. Mas a felicidade para este casal seria algo tão tênue, delicado, momentâneo e superficial que, o único desejo realmente verdadeiro que se possa ter é o de que enjoy the ride.

 


Fink wele

As palavras, assim como tudo o mais, escaparam.

Os revisores reclamam – e você nunca tem certeza se é também do seu livro que eles estão falando. Mas, eles nunca tiveram que corrigir provas, não sabem nada sobre ter que passar noites revendo métodos de ensino, pensando e ruminando em soluções, passar uma cultura inteira através de uma língua, captar essas primeiras palavras de mãos dadas com eles e ir soltando, aos poucos, enquanto eles balbuciam.

Eu tenho respeito por vocês. O trabalho com a linguagem é o mesmo construir e destruir para ambos. Mas eu estabeleço as bases e vocês, já as querem prontas.


%d bloggers like this: