Category Archives: trabalhos

Wow

Wow, uma simples interjeição que não apresenta nenhuma dificuldade ao entendimento de qualquer coisa que se diga. Nesta vida de mera reprodutora de palavras de um idioma a outro, virei a tradutora dos vocábulos mais inimagináveis. Em língua pátria, inclusive.

Após o cansaço de um dia de trabalho, depois de cochiladas no sofá da recepção, ninguém quer pensar em possibilidades que se abrem diante de interjeições estrangeiras. Ninguém nunca me perguntará, ou sequer achará curioso que os cachorros latam de forma diferente, dependendo do país em que crescem.

Wow, e eu fecho os olhos, refletindo sobre as perguntas que ouço, esperando um aprofundamento, um desejo de um mergulho, que não me chega. A avidez é outra. É a de terminar, e ir embora.

Advertisements

A aprendizagem e as (não) dúvidas que a envolvem

Trabalhar dando aulas de outro idioma faz com que se tenha consciência de um uso e percepção ingênua da linguagem, da busca desesperada por significado, por relação entre coisa e signo, por idioma e cultura de um e o nosso, conhecido e familiar.

Dependendo do idioma e da necessidade – muito maior ou menor que pode se ter dele, o quão aberta a pessoa está não somente a assimilar cegamente um conteúdo sem entender que, o conhecimento de um novo idioma o levará a uma ampliação não só da sua cultura mas inclusive da sua gama de expressão de sentimentos, uma vez que existem vocábulos “intraduzíveis” que representam algo ao qual as vezes precisamos nos referir mas não tínhamos meios para tal.

Vejo essa necessidade da tradução, de palavras que se adequem exatamente umas às outras ignorando toda e qualquer diferença, uma falsa sensação de que, se controlarem algumas palavras um texto ou um discurso, tudo estará circuncrito dentro dessa zona de controle que não existe. Aulas de idiomas são locais que frequentemente deixam as pessoas desconjuntadas, principalmente se elas não conseguem sequer formarem uma frase.

Metáforas são ignoradas, até nomes de banda “precisam fazer sentido”. Que sentido é esse que precisa existir e quem incutiu uma idéia de correspondência. Qual é esse cerne da palavra a que se tenta chegar? Ninguém parece se perguntar o que é a palavra e, nem se maravilhas com as possibilidades de expressão, beleza, criação e (des)construção que as línguas oferecem.


Fink wele

As palavras, assim como tudo o mais, escaparam.

Os revisores reclamam – e você nunca tem certeza se é também do seu livro que eles estão falando. Mas, eles nunca tiveram que corrigir provas, não sabem nada sobre ter que passar noites revendo métodos de ensino, pensando e ruminando em soluções, passar uma cultura inteira através de uma língua, captar essas primeiras palavras de mãos dadas com eles e ir soltando, aos poucos, enquanto eles balbuciam.

Eu tenho respeito por vocês. O trabalho com a linguagem é o mesmo construir e destruir para ambos. Mas eu estabeleço as bases e vocês, já as querem prontas.


“Pode-se fingir reportar, publicar a autobiografia de alguém. tentando fazer passá-la por real; mas se esse alguém não é o autor, único responsável pelo livro, nada feito. Escapariam a esse critério apenas os casos de embuste literário que são muito raros – e essa raridade não se deve ao respeito pelo nome de outrem ou medo de sanções. Quem me impediria de escrever a autobiografia de um personagem imaginário e publicá-la usando seu nome? (…) Isso é raro porque há poucos autores capazes de renunciar a seu próprio nome.

(…)

a) Autor e pessoa: a autobiografia é o gênero literário que, por seu próprio conteúdo, melhor marca a confusão entre autor e pessoa, confusão em que se funda toda a prática e a problemática da literatura ocidental desde o fim do século 18. Daí a espécie de paixão pelo nome próprio, que ultrapassa a simples “vaidade de autor”, já que, através dela, é a própria pessoa que justifica sua existência. O tema profundo da autobiografia é o nome próprio. (…)O desejo de glória e de eternidade tão cruelmente desmistificado por Sartre, em As palavras, repousa integralmente no nome próprio que se tornou nome de autor. Como imaginar hoje a possibilidade de uma literatura anônima? Valéry já sonhava com isso há 50 anos. “

LEJEUNE, Philippe. O Pacto Autobiográfico: De Rousseau à Internet. BH: Editora UFMG,2008

*na referência do texto estudado, não há o nome da pessoa que fez a tradução do texto.


Acontece

No penúltimo dia, pensando ao rolar da cama, soube que seria a história de um homem, no carnaval.  Um homem que decide abandonar uma mulher, um dia antes de começar a festa mas não necessariamente para fazer parte das festividades como seria de se esperar.

Um homem simples, pobre de dinheiro, que mergulha em dias festivos. Tudo quase o contrário de mim, tudo o que nunca foi –  e que, ouso dizer, nunca serei.

Quase tudo, tirando palavras e (alguns) pensamentos.

Ficção.


..e, além dela, não havia nenhum outro ser humano, e ela perdeu o rumo… era como se tudo tivesse adquirido movimento, ondas de rama de salgueiro, as vagas tomavam seu próprio curso… uma angústia que nunca sentira a possuíra e se punha soturna em seu coração…

BACHMANN, Ingeborg. Malina; tradução Ruth Röhl.  – São Paulo: Siciliano, 1993.

2012 e um ano inteiro de Malina e uma dissertação. 2012 vai ser um ano de dores.


João Paulo e o Garfield

Não tomo vergonha na minha cara que não aparenta meus vinteecinco anos. Um singelo caderno com a capa do Garfield faz as minhas vezes de scrapbook e anda até meio gordinho.

Eu não leio jornal. NUNCA. Pra quê? Morte, morte, morte, violência, assalto, chuva, terremoto, atentado e a coluna social que… boring demais prestar atenção em socialites que ninguém reconhece e sub – celebridades. Mas eu tenho uma sorte de pegar o jornal nas horas certas e ter comigo certas peças, artigos, resenhas, críticas e crônicas bem interessantes.

Garfield não discrimina. Nele há desde textos de apoio para que eu escrevesse minhas dissertações à época do Ensino Médio, a resenhas de coletâneas de contos, contos de verdade (de outras pessoas, claro), artigos sobre leituras essenciais (alguns exemplos? Goethe, Shakespeare, Guimarães Rosa, Pessoa, Proust, Kafka, Borges, Cortázar, Pessoa, Machado. Woolf… não importa. Clássicos que as pessoas tem que ler para se tornarem bons leitores, críticos e livre pensantes – e bons escritores também). Reportagem que marcou meu medo da publicação, chamado “Pilha das Ilusões”, sobre a pilha de livros enviados por esperançosos pretensos escritores às editoras e que estão fadados a uma vida em conjunto com as traças, crônicas sobre a decadentização da língua, resenhas sobre autores contemporâneos meus e muitas, muitas crônicas do João Paulo Cuenca, da época que ele escrevia em um suplemento semanal do Jornal O Globo (há um blog – abandonado – dessa época). Foi por este suplemento que conheci o trabalho dele. Li dois dos romances, não vi a minissérie. De vez em quando, acompanho as meias palavras que ele deixa escapar no Estúdio I (programa da Globonews).

Mas a escrita pela qual eu me apaixonei, foi a de cronista. Tanto que hoje, retomando e relendo o Garfield, consegui selecionar minhas três crônicas preferidas (as quais não estou conseguindo acessar pela internet e portanto, não poderei linkar). Chamam-se: Lúcio, o lúcido; Presos do lado de fora e, principalmente a crônica cujo título é O que faz valer a pena. A melhor de todas.

Sugiro também a leitura das crônicas escritas em Portugal e no Japão. Sugiro as imagens que as acompanham, e a música da semana. Como, por exemplo… Charlotte Gainsbourg cantando La Collectionneuse (minha música preferida dela) como uma das músicas das semanas.

Favor entrar nestas curtas narrativas sobre o Balneário de San Sebastián ou sobre qualquer outra cidade, no mau humor sobre a futilidade do falecido Tim Festival e na lucidez misturada a neuroses e perguntas, muitas, muitas perguntas. Tantas perguntas que eu decidi retomar meu trabalho em cima destas mesmas crônicas. Das gotas, das pequenas narrativas em que tudo e nada são ditos de forma tão… tão quase impossível, para os dias de hoje.


%d bloggers like this: