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Do que eu não entendia

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Uma vez uma mulher a quem magoei me disse que, muito polidamente, que embora parecesse que eu me preocupasse muito com ela e, apesar de eu tentar manter contato com ela de uma forma leve, displicente até (o que na minha cabeça aliviaria tanto o golpe que eu dei, quanto a culpa que eu sentia por tê-lo dado), eu nunca havia realmente me preocupado com o que ela queria. Acho que posso estender isso a: talvez, no meu intenso egocentrismo, eu nunca tenha entendido o que ela precisava.

Ela não precisava de palavra minha alguma, de nenhuma displicência ou leveza de minha parte, nenhuma palavra. Na verdade, ela apenas precisava da minha ausência total. Não que ela pudesse ou quisesse (bem, talvez quisesse) apagar a minha lembrança. Mas ela não precisava da constante lembrança da rejeição que eu representava.

Hoje em dia, eu entendo que, tudo o que um coração que foi diminuído de tamanho não necessita, é de uma preocupação que não se apresenta como verdadeira, que mascara uma culpa, que alimenta algo que nunca deve ser alimentado e mantém o magoado sempre escravo, pendurado na forca pelo desejo, pela necessidade, pelo amor.

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O pós contemporâneo com suas intervenções urbanas, ando pelas ruas prestando atenção em todo chão, paredes, muros, postes e até céu. Grafitti, colagem, stêncil.

Hoje, vim aqui, porque percebi que, sem você, minha existência se ameaça, não a percebo, ela não se configura, irreal, fluída, transparente e finita como bolhas de sabão. Porque você segura a mim e diz: Vo-cê.


Tantas vezes

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Uma ciranda de mãos e palavras que lentamente, devagar, devagar, foram se soltando, dedo a dedo, do falar normalmente, abaixando, abaixando o tom de voz, chega-se no sussurro no ouvido, no escuro, de madrugada, na cama. Eu te amo, não me deixa, não machuca, não quero dividir com nada, a metade de você, outra metade, tomada de loucura, que é minha também. chega disso, muda, não é pra crescer por mim, é comigo, dentro de mim. Não é para eu ser tudo, é ser uma parte do todo.

Por favor, não perca o todo. Tantas vezes perdermos a vida. 


” I could risk …

” I could risk no sort of answer by this time: my heart was still.
´Because´, he said, ´I sometimes have a queer feeling with regard to you – especially when you are near me, as now: it is as if I had a string somewhere under my left ribs, tightly and inextricably knotted to a similar string situated in the corresponding quarter of you little frame.”

BRONTË, Charlotte. Jane Eyre


Versão do mesmo

O gato sai do ninho que havia feito com o edredom no meio das pernas dela e sobe, de encontro ao rosto dela, que chorava copiosamente. Lambe suas lágrimas gordas e salgadas, dá-lhe beijos, deita-se ao seu lado enquanto o coração dela infla de tristeza. Chora mais.
Segunda versão: O gato que dormia no chão sobe na cama e posta-se ao seu lado ao ouvir o barulho de lágrimas derramadas e soluços. Ronrona baixinho como quem oferece consolo. Ela se rebenta de melancolia e decepção.
Terceira versão: o gato desce da cama ao irromper aquele vale de lágrimas. Não há quem cure essa incessante busca pelos porquês que nunca lhe chegam, diminuindo-a, esfarelando-a em cima de sua própria cama.
Em todas as versões, em comum, as lágrimas e o coração partido.


Do you believe in miracles?

Do you believe in miracles?

Not today.


All your history´s like a fire from a busted gun*

O som das mensagens é uma batida na porta. Há algumas noites atrás, deitada na cama, o telefone ao lado, chegavam-lhe aos ouvidos sons de batidas na porta. A cada batida, seu peito inchava, o coração recebendo mais sangue, mais rápido, o peito batia na cama e não encontrava mais espaço para se expandir.

Enquanto isso, o gato lhe subiu às costelas e se aboletou. A única sensação que continuaria a ter, eram daqueles pêlos lhe roçando a pele. Ele encontrou sua mão, que jazia às costas. Pediu um carinho que não conseguia dar, naquele momento.

O que tentava ensinar-se a si é que gostar é um verbo que abarca a multiplicidade. Deve-se preparar para isso. O gostar e somente gostar inclui quantidade, nunca exclusividade. É vulgar demais. Já teria usado outra palavra mas ainda é cedo. São muitos os medos que lhe assolam, um dos piores é o de assustar a correrias.

O problema é que gostava de ficar pendurada em palavras. Se agarra a significados que são só seus, só existem para si e, sempre precisa ouvir que não é para tanto. São só outras palavras vulgares, que utilizam-se com todo mundo.

Embora tenha algum talento verbal, ele nunca é o suficiente para reter atenção por tempo demasiadamente longo.Sempre serve momentaneamente a todo mundo. A todo mundo não, porque seu gostar é privilégio único. Porém, logo ali na esquina de outra cidade, haverá alguém melhor. Sempre há alguém melhor que desperta um gostar e mais, que se engatilha mais rápido, que seduz mais facilmente. Talvez sirva mais e melhor. Talvez não esteja sempre disponível e seja essa a graça. Talvez muitas coisas,que deveria aprender a fazer e outros fazem sempre melhor.

E então esta ciranda de nomes repetidos e sentimentos que no fundo, devem ser unilaterais. Um sentimento sempre serve a um outro. Deixar-se servir,não é o problema. O problema é saber quando é tão somente um deixar-se servir que em alguns momentos vira um deixar-se açoitar e ainda ter que fingir que não viu, ou não sentiu.

*NARC – Interpol


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