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Do que eu não entendia

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Uma vez uma mulher a quem magoei me disse que, muito polidamente, que embora parecesse que eu me preocupasse muito com ela e, apesar de eu tentar manter contato com ela de uma forma leve, displicente até (o que na minha cabeça aliviaria tanto o golpe que eu dei, quanto a culpa que eu sentia por tê-lo dado), eu nunca havia realmente me preocupado com o que ela queria. Acho que posso estender isso a: talvez, no meu intenso egocentrismo, eu nunca tenha entendido o que ela precisava.

Ela não precisava de palavra minha alguma, de nenhuma displicência ou leveza de minha parte, nenhuma palavra. Na verdade, ela apenas precisava da minha ausência total. Não que ela pudesse ou quisesse (bem, talvez quisesse) apagar a minha lembrança. Mas ela não precisava da constante lembrança da rejeição que eu representava.

Hoje em dia, eu entendo que, tudo o que um coração que foi diminuído de tamanho não necessita, é de uma preocupação que não se apresenta como verdadeira, que mascara uma culpa, que alimenta algo que nunca deve ser alimentado e mantém o magoado sempre escravo, pendurado na forca pelo desejo, pela necessidade, pelo amor.

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refugiar (refúg…

refugiar
(refúgio + -ar)
v. tr.
1. Dar abrigo. = ABRIGAR, ASILAR
2. Tornar mais suave (ex.: refugiar a dor).
v. pron.
3. Recolher-se num refúgio. = ABRIGAR-SE, ASILAR-SE
4. Retirar-se para lugar considerado seguro. = ABRIGAR-SE, RESGUARDAR-SE
5. Emigrar para um país estrangeiro por motivo de perseguição política, religiosa, étnica, etc. = ASILAR-SE, EXPATRIAR-SE
6. [Figurado] Buscar proteção ou conforto junto de (ex.: refugiar-se em casa, refugiar-se na leitura).

Chega a ser irônico que algum dia alguém que nem sabe que existe “h” no verbo haver pode se oferecer enquanto refúgio, sendo refugiar-se um tornar mais suave, um abrigar  num abraço cheio de pêlos faciais e corporais. Um asilo humano resguardador de dores numa busca incessante de conforto e proteção.


All my sad and truly books

“(…) and then one day you realize that your entire life is just awful, not worth living,  a horror and a black blot on the white terrain of human existence.

In my case, I was not frightened in the least bit of existence thought that I might have live because I was certain, quite certain that I was already dead. The actual dying part, the withering  away of my physical body were a mere formality. My spirit, my emotional being, whatever you want to call all that inner turmoil has nothing to do with physical existence, were long gone, dead and gone, and only a mass of the most fucking god-awful excruciating pain like a pair of boiling hot togs clamped tight my spine and pressing on all my nerves was left tin its wake. WURTZEL, Elizabeth. Prozac Nation a memoir Young and depressed in America”. Page 19

“A daughter in an  asylum! I had never done that to her. Still she obviously decided to forgive me.

We´ll take up w here we left off., Esther, she had said, with her sweet, marty´s s.  We´ll act as if all this were a bad dream.

To the person in the bell jar, blank and stopped a dead baby, the world itself is the bad dream.

A bad dream.

I remembered everything,

[…]

What was there about us, in Belsize, so different from the girls playing bridge and gossiping and studying in the college to witch I would return? Those girls, too, sat under bell jars of a sort.”

PLATH, Sylvia. The Bell Jar. Page227

“- Vai ficar tudo bem, não vai? – perguntei. Minha voz estava longe de mim e o que eu dizia não era o que eu queria dizer. O que eu queria dizer é que agora estava em segurança, agosa estava de fato louca e ninguém poderia me tirar dali.”

KAYSEN, Susanna. Moça Interrompida.  Página 96

“Por mais distraída que seja a pessoa , ela sabe muito bem que a mudança renove sempre mais uma fatia  de sua experiência – E não há tantas assim no celeiro. Mudar de casa é sempre irreparável.

Algumas dessas trocas são piores que as outras. Quando tudo o que você ama lhe é arrancado sem aviso prévio, o que ocorre é um milagre ao contrário. Onde havia abundância de pães e peixes existe agora o vazio vertiginoso.”

CAMPELLO, Myriam. Como Esquecer Anotações quase inglesas. Página 26

“The headache is always there, waiting, and her long periods of freedom, however long, Always feel provisional. Sometimes the headache simply takes partial possession for an evening or a day or two, then withdraws. Sometimes it remains and increases until she herself subsides at those the headache moves out of her skull and into the world. Everything glows and pulses.”

CUNNINGHAM, Michael. The hours. Pages 70 and 71


” I could risk …

” I could risk no sort of answer by this time: my heart was still.
´Because´, he said, ´I sometimes have a queer feeling with regard to you – especially when you are near me, as now: it is as if I had a string somewhere under my left ribs, tightly and inextricably knotted to a similar string situated in the corresponding quarter of you little frame.”

BRONTË, Charlotte. Jane Eyre


Até que durma

Agora, que sobra tempo, solidão e frio, vou aceitar algum convite que venho recusando há algum tempo. Irei me aninhar em promessas não feitas, fumaça, coca-cola. Abrigando-me não sei onde, de não sei quê.

E só por um tempinho, me deixar fitar por olhos negros que sempre julguei loucos. Só por um tempinho, só até que durma.


“E eu respondia…

“E eu respondia: ‘De qualquer maneira, não vejo nada. Tenho buracos no lugar dos olhos’.
´Depois, você partiu para longe e eu sabia que você estava com outra. As semanas passavam e você não voltava nunca. Eu não dormia mais, porque tinha medo de não ouvi-lo chegar. Finalmente, um dia você voltou e bateu na sepultura, mas eu estava tão cansada de ter ficado sem dormir por um mês que mal tive forças para subir. Quando consegui, você fez uma expressão decepcionada. Disse que eu estava abatida. Senti que lhe desagradava, que estava com o rosto encovado, que fazia gestos bruscos e incoerentes.
‘Para me desculpar, disse: ‘ Desculpe, não dormi durante todo esse tempo’.
[…]
‘ E eu sabia muito bem o que você queria dizer falando de férias! Sabia que você queria ficar um mês inteiro sem me ver porque estava com outra. Você partiu e eu desci para o fundo da sepultura, e sabia que ia ficar mais um mês sem poder dormir, para ouvi-lo chegar, e que quando você voltasse, depois de um mês, eu estaria ainda mais feia e que você ficaria ainda mais decepcionado.”

KUNDERA, Milan. A insustentável leveza do ser. trad. Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.


Versão do mesmo

O gato sai do ninho que havia feito com o edredom no meio das pernas dela e sobe, de encontro ao rosto dela, que chorava copiosamente. Lambe suas lágrimas gordas e salgadas, dá-lhe beijos, deita-se ao seu lado enquanto o coração dela infla de tristeza. Chora mais.
Segunda versão: O gato que dormia no chão sobe na cama e posta-se ao seu lado ao ouvir o barulho de lágrimas derramadas e soluços. Ronrona baixinho como quem oferece consolo. Ela se rebenta de melancolia e decepção.
Terceira versão: o gato desce da cama ao irromper aquele vale de lágrimas. Não há quem cure essa incessante busca pelos porquês que nunca lhe chegam, diminuindo-a, esfarelando-a em cima de sua própria cama.
Em todas as versões, em comum, as lágrimas e o coração partido.


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